Morteiro de São Donato

E.C.04

 

 

Derlei Catarina De Luca (histórias de Abílio Cardoso)

 
 

Abílio Cardoso não quis saber de roça nem de farmácia. Era um mecânico de primeira. No seu barracão enorme de madeira ao lado do trilho tinha de tudo.

Tinha forja, torno mecânico e tudo que alguém precisasse. A maioria dos instrumentos era feita por ele mesmo. Recolhia e aproveitava os pedaços de ferro deixados na  Estrada de Ferro D. Teresa Cristina. Como morava perto do trilho era fácil recolher a sucata. Todo dia encontrava alguma coisa e guardava.

Arrumava motor, caminhão ou carro que aparecesse. Arrumava ferro de brasa, fazia foice, forjava facão. Inventava todo tipo de ferramenta. Forjava os machados e o senhor João Zacaron fazia os cabos e vendia para os lenhadores. Muita gente ganhava a vida cortando eucaliptos vendidos para a Estrada de Ferro.

João Zacarón morava em frente à oficina e naquele ano seria padrinho de uma novena de São Donato. Estava feliz e orgulhoso. Queria que sua noite como padrinho fosse memorável. Ainda não existiam foguetes comprados prontos e ele encarregou Abílio para alegrar a festa queimando um pouco de pólvora. Pólvora era fácil de conseguir, todos os mineiros tinham acesso e naqueles tempos não era controlada.

Com uma sucata de ferro, tipo cano, que caíra de um vagão do trem, Abílio construiu um morteiro. Fechou uma abertura com uma sapata e o aparelho ficou parecendo uma bota. Carregou com pólvora, colocou bucha de papel, socou tudo com ferro e ao anoitecer levou até a igreja.

No pátio da igreja várias pessoas arrumavam as barraquinhas. A novena começa, mas entre o sermão do padre, os cantos do Coral e as rezas demorava mais de uma hora.

Na primeira tentativa botou fogo no morteiro que se enterrou no barro. Chateado Abílio desenterrou o morteiro. Ainda bem que o barro era mole. O tiro deu certo, mas ele achou muito monótono.

Resolveu colocar o morteiro de cabeça para baixo. O morteiro fez um barulhão, subiu ziguezagueando assustando algumas pessoas e caiu a três metros do local igreja outra vez no barro. Se caísse sobre a Igreja podia causar um desastre.

Na terceira tentativa Abílio resolveu não arriscar. Colocou o morteiro dentro do banheiro de madeira que havia ao lado da Igreja. O objetivo era apenas fazer barulho e dentro do banheiro ele imaginou que não haveria perigo.

Quando começa o canto final da novena, Abílio bota fogo no morteiro. As pessoas já estavam começando a sair da Igreja. O morteiro deu um belíssimo estouro, levantou, arrebentou o banheiro, e saiu ziquezagueando pelo céu. Voou tábua para tudo que foi lado. Espantou os cavalos que arrebentaram as rédeas, os fiéis saíram atrás dos cavalos e o senhor Zacarón mandou Abílio embora antes que detonasse a igreja.  

 
 

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