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Coberta D'alma |
E.C.07 |
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Derlei Catarina De Luca |
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É
uma tradição dos antigos ainda praticada no litoral içarense: Lagoa
dos Esteves, Urussanga Velha, Pedreiras, Barra Velha, Praia do Rincão.
Consiste numa cerimônia para quem morre, no sétimo dia de seu
falecimento. Quando
morre uma pessoa, a família procura alguém da idade próxima do morto
e convidam-na para fazer a “cobertura d’alma”. Levam
o convidado numa loja, compram todas as peças de roupa necessárias
para vesti-lo, inclusive peças íntimas. No
sétimo dia ã tardinha todos se reúnem na casa do falecido. Enquanto
os demais familiares esperam na sala o convidado para cobrir a alma
entra num quarto acompanhado de um familiar que vai entregando-lhe peça
por peça da roupa dizendo alto para todos ouvirem: -
Veste a camisa (cita o nome do morto) -
Veste a calça (cita o nome do morto) Tudo
em voz alta para ser ouvido na sala.
Já
vestido, o convidado entra na sala, cumprimenta e abençoa os presentes.
Se ele representa o pai que morreu, filhos e netos pedem-lhe a benção.
Se foi uma criança, os mais velhos o abençoam. Se houver missa de sétimo
dia todos vão à Igreja. Caso contrário, fazem algumas orações e se
sentam para jantar. A
comida consiste nos pratos preferidos da pessoa morta, servida em doses
generosas ao convidado, agradado por todos como se fosse realmente a
pessoa morta que estivesse ali. Se tiver predileção por uma fruta o
convidado deve come-la. Se fumar o convidado deve fumar. Terminado
o jantar, um familiar de mais autoridade leva o que veste a coberta d’alma
até a porta e olhando para o horizonte proclama: -
Fulano (cita o nome do morto) tu já recebeste a roupa nova -
Já recebeste o jantar -
Já te demos de comer -
Já te de beber -
Já rezamos por ti. -
Já demos tudo o que tínhamos de dar. -
Vai com Deus, descansa em paz e deixa-nos em paz. Durante
toda a cerimônia é chamado pelo nome do morto. A
cerimônia encerra-se. Estabelece-se uma forte relação forte entre a
família e o convidado que passa a ser moralmente da família. Se o pai
morreu, os filhos consideram-se filhos de quem vestiu a alma, visitam-se
mutuamente, ouvindo inclusive as opiniões um do outro sobre os assuntos
familiares. Segundo
algumas pessoas, a alma do falecido permanece na terra e na casa até a
cerimônia. A alma fica perambulando, vagando pelos arredores até a
coberta d’alma ser feita. Se a cerimônia não for feita a alma ficará
vagando, não encontra a paz nem deixa ninguém em paz. É praticada por
várias famílias brancas e negras, ricas e pobres do litoral de Içara. Sempre
me interessei por este ritual. Tinha certeza que não era de origem açoriana.
Imaginei que pudesse ter sido trazido pelos escravos islamizados. Mas
em Porto Alegre tem um estudioso que afirma ser este ritual de origem
judaica trazido para o Brasil pelos cristãos novos que não podiam
praticar o judaísmo e tinham sido batizados em Portugal para não serem
queimados na fogueira da Inquisição. |
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