Boletim Mensal * Ano V * Julho de 2007 * Número 52

           

 

 

Para onde vai Portugal?

João José Brandão Ferreira (Tenente Coronel da Reserva)

 

O caos político-social que se seguiu ao golpe de Estado de 25/4/74 e que se prolongou até 25/11/75 provocou uma desorientação estratégica que ainda perdura (e que é a mais longa de toda a História de Portugal!) e tem impedido que o país tenha uma idéia clara e concreta de si mesmo e dos caminhos a seguir. Tudo isto tem sido agravado por numerosas decisões errada sem termos de opções estratégicas, nos diferentes campos da vida nacional o que, a manter-se, irá fatalmente fazer desaparecer «de fato» Portugal do âmbito das nações livres.
            O primeiro erro que se fez após 1974 foi o de não se ter avaliado corretamente as conseqüências de se ter voltado costas a um passado de 600 anos. O «Estudo de situação do país na sua globalidade», se alguma vez foi feito, estaria assim, à partida, viciado e as decisões, «a priori», comprometidas.
            Passados 10 anos de grandes vicissitudes econômicas, financeiras e sociais, a grande opção que se tomou foi a adesão à Comunidade Econômica Européia (CEE) o que, face à situação geopolítica criada, se tem que aceitar como plausível.
            Mas a tudo o resto tem que se juntar enormes reticências, que se resumem: adesão à CEE com o país mal preparado, em situação difícil e sem consulta à população; esta consulta continuou ostensivamente a não ser feita quando a CEE passou a Comunidade Européia (CE), depois a União Européia (UE), pondo-se presentemente a hipótese de se passar a uma federação de Estados.
            Ora tudo isto implicou alterações políticas de substância com mudanças graves em termos de soberania. Depois, na ânsia de sermos aprovados como bons «alunos» deixaram-se cair rapidamente todas as restrições, aduaneiras e administrativas ao passo que a nossa fraqueza congênita nos coloca mal, para pão sermos crucificados aos interesses dos restantes Estados-membros em todas as áreas da vida comunitária. Isto quando se sabe que o que impera é a lógica do aquário, isto é, os peixes grandes comem os peixes pequenos!

    Finalmente atiramo-nos para os braços da CEE, CE, UE (?) como se esta viesse a ser uma instituição para durar eternamente e nos fosse resolver todos os problemas. Ou seja, não cuidamos ou fizemo-lo timidamente em diversificar as nossas relações, nomeadamente, com os EUA, o Brasil e o Mercosul, a África ex-portuguesa e algumas «praças» do Oriente.

            Numa palavra, os sucessivos governos têm feito da opção CEE, CE, EU (?) um objetivo nacional permanente histórico, que ela não é, em vez de a considerarem um objetivo nacional importante, mas transitório, que é o que ela devia ser. O federalismo europeu é, pois, a maior ameaça à soberania portuguesa e corre paredes-meias com o iberismo.
            A terceira asneira de tomo tem a ver com o fato de se ter voltado as costas ao mar. Num país cuja liberdade e desenvolvimento depende da sua fronteira marítima e tem as suas componentes territoriais «unidas» pelo Oceano, os governos após 1974 deixaram destruir a marinha mercante, delapidaram a construção naval; mantêm os portos não competitivos, reduzem constantemente a marinha de pesca; reduziram a marinha de guerra à ínfima espécie; não incentivamos desportos náuticos, não apostam no transporte de cabotagem, deixam assorear rios e barras e, para um país em que uma das suas principais indústrias é o turismo, só há pouco tempo se tem apostado nas marinas. É difícil fazer pior, em qualquer parte do mundo!
            Associado a isto, a política de transporte tem sido errada. Posto de lado o mar e tendo o transporte aéreo pouca expressão apostou-se na circulação rodoviária, nomeadamente por TIR, com o conseqüente aumento da poluição, sinistralidade e preços dos produtos (logo perda de competitividade) e dependência estratégica de Espanha, por via da necessidade de atravessar aquele país.
            A opção pelo «camião» veio em detrimento da via férrea, mais barata, mais segura e menos poluente. O traçado das vias rápidas e agora o do TGV, de que se fala, tem ido ao encontro dos interesses espanhóis em detrimento dos portugueses, coisa a que se tinha conseguido resistir durante dois séculos.
            As opções energéticas estão demasiado ligadas ao crude, o que nos impõe vulnerabilidades e sujeições, tendo passado de país autônomo (Angola e Sines, mais outros potenciais) e até exportador, para a mais completa servidão. Pouco se aposta nas energias renováveis e quando se pretendia otimizar os recursos hídricos a polemica do Vale de Côa matou logo ali essa intenção. A via do gás natural é correta, mas a decisão de o fazer entrar no país por Espanha e não pelo mar, tornou-a estrategicamente errada e afrontosa! As coisas têm evoluído também no sentido de tornar os portugueses dependentes por via alimentar. Mais de 60% do que se come em Portugal vem do estrangeiro. Ora, país que não consegue produzir o que consome (ou garanti-lo por outros meios de troca), não é um país livre. Do mesmo modo a destruição maciça do aparelho militar da nação e a desautorização das suas forças de segurança, tiram qualquer liberdade de ação a Portugal e levam à falta de respeito por nós próprios e que os outros possam ter por nós. Ninguém respeita (nem ajuda) um povo que não se quer defender.Uma evidência que só cegos e tolos não vêem.
            A envolver tudo isto se instalou um sistema educativo laxísta corruptor das tradições e identidade nacional e perigosamente alheada das realidades do mundo e das ameaças que impendem sobre Portugal. Por esta síntese, que está longe de esgotar o assunto, se tenta ilustrar como todas as principais opções políticas e estratégicas decididas em Portugal após 1974/75 têm sido erradas, ou conduzidas erradamente e levarão o país fatalmente à sua ruína como nação.

 

Nota do Editor – Este artigo foi publicado no semanário português, “Expresso” (que transcrevemos com a devida vênia, adaptado para português do Brasil), em 23/11/2002. SERÁ QUE JÁ MUDOU ALGUMA COISA?

 

 
Hosted by www.Geocities.ws

1