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Boletim Mensal * Ano V * Julho de 2007 * Número 52 |
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“Quando a violência e a segurança de pessoas e bens, cada vez mais, estão fora do controle das autoridades que a deveriam combater, algo sempre acontece que acende uma pequena luz no fim do túnel.”
PIANISTA –
Priscilla Dantas foi, por uma noite, solista da
Orquestra Sinfônica do Recife. Mas não é só por isso que ela merece os aplausos.
Esta é a história de uma menina que ganhou um piano.De um piano que atravessou a realidade social, do Recife. Que mudou o cotidiano de uma rua de um bairro pobre. Que transformou uma vida. Esta é a história de uma vida que pode transformar muitas outras. De um segredo guardado embaixo de 88 teclas. De limites que deixaram de existir.De músicas que poucos conseguem ouvir. De um mundo que mudou (e, quem disse que ele nunca mudaria?). Esta é só a história de uma menina que ganhou um piano.
Primeiro movimento: A rua, a menina e o piano
Fevereiro de 1824. Na Áustria, em um lugarejo próximo a Viena –chamado Heiligestad-, Ludwig van Beethoven concluía aquela que seria a sua obra-prima: a IX Sinfonia. Uma música composta sobre os princípios então revolucionários da liberdade e da igualdade social e racial.
Junho de 2007. Tempos e mundos distantes. Aquela mesma sinfonia embala uma tarde cinzenta na estreita rua Mustardinha, no bairro de Afogados. O asfalto terminou a alguns metros. E a areia tenta recuperar o seu lugar perdido para as poças de lama, trazidas pelas últimas chuvas. É uma rua onde pequenas casas se apertam, com portas e janelas coladas umas às outras. Um dos incontáveis caminhos que formam o caótico quebra cabeça de sobrevivência urbana nos bairros pobres da periferia do Recife.
Há uns sete meses, oito homens chegaram até a Rua Mustardinha com uma missão das mais trabalhosas. Carregavam um belo e pesadíssimo (em torno de 200 kg) piano vertical Fritz Dobbert. Um objeto raro, para não dizer surreal, dentro daquela realidade. Um piano como aquele, usado, não custa menos de 4 mil reais. Algo certamente inconcebível, para um lugar em que famílias inteiras sobrevivem com pouco mais ou pouco menos do que um salário mínimo.
Foi com muito sacrifício que o piano chegou ao seu destino. Uma casa de fachada azul clarinho e desbotado. Porta e janela. Chão de cimento. Teto sem laje. Três vãos. A menina Priscilla Dantas, 14 anos, era a mais preocupada com o transporte do instrumento. Ela é a única ali capaz de ouvir o segredo guardado embaixo daquelas 88 teclas.
E as tardes da rua nunca mais foram as mesmas. Os ruídos inquietos do cotidiano urbano, aos poucos, foram se aquietando ante o som que saía daquela casinha azul. Embaixo da janela basculante. Priscilla passa três horas por dia sentada ao piano. Tocando apenas música clássica. A Nona Sinfonia de Beethoven é uma das que ela não cansa de executar.
