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Boletim Mensal * Ano IV * Setembro de 2006 * Número 43 |
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COLUNA DOS VINHOS
Ivo Amaral Junior
Ilustres
compadres acadêmicos – se assim posso me referir aos confrades – foi com um
misto de satisfação e exaltação que recebi os comentários sobre meu último
artigo. Acaso vocês não lembrem, escrevi sobre alguns livros que tratam de
assuntos enológicos, indiquei uma excelente obra sobre o vinho espumante mais
famoso do mundo (Champanhe de Don e Petie Kladstrup), critiquei os manuais de
vinho (o qual alcunhei de circunlóquios enfadonhos), comentei dois artigos
recebidos – um sobre azeites e outro sobre a degustação de 1976, famosa pela
reviravolta dos vinhos franceses e subida dos californianos – e indiquei, ao
final, alguns vinhos os quais muito me admiraram.
Essa mescla de sentimentos
se deu em duas oportunidades. Em relação à satisfação, senti no momento em que
alguns continuaram elogiando a forma como os artigos são escritos,
diferentemente da esmagadora maioria, que trazem apenas tecnicismos, metáforas e
redundâncias (além de outras figuras de linguagem), o que muito me envaideceu,
pois minha proposta sempre foi diferente, respeitando muito mais o momento de
prazer, a relação custo-benefício, as impressões sensoriais e o gosto pessoal,
do que priorizar a técnica, o preço, a forma, o hermetismo das impressões, as
rígidas divisões de localidades e regiões, enfim, a baboseira que a grande
maioria não entende nem quer entender (talvez por ser uma chatice).
Sobre o segundo sentimento, qual seja, o de exaltação, senti quando verifiquei que alguns ainda não entenderam o espírito da coisa. Talvez porque estão acostumados a comentários enológicos do tipo: “Já apresenta alguma evolução para café torrado, além de frutas maduras envolvendo notas terrosas e herbáceas, puxada para um caramelo, especiarias e leve couro. Na boca bom corpo, taninos amplos e amigáveis”. Alguém conseguiu decifrar o que está escrito? Será que alguém sente isso mesmo? Bem, alguém pode até sentir, ter um paladar e olfato privilegiado, mas esse não sou eu. Por isso minha exaltação, já que não consegui incutir a esses leitores a noção do prazer, do carpe diem em contraponto às regras, normas e convenções. É uma pena!
Mas não desistirei tão facilmente. Aos amantes das regras, técnicas e comentários indecifráveis, saibam que continuarei fazendo o caminho inverso, apresentando alternativas dialéticas aos herméticos artigos supostamente sensoriais. Se quiserem continuar a ler este meu discurso pro-ativo em favor do epicurismo filosófico etílico, que continuemos juntos, caso contrário continuarei debatendo e tentando convencê-los, afinal posso não agradar a todos, mas acredito agradar muitos.
E para trazer um tema bastante interessante à baila, fazendo um paradoxo com o assunto acima descrito, falarei um pouco sobre o vinho verde (espero que sem tecnicismos) e do porquê o mesmo é chamado dessa maneira. Na realidade o vinho verde não é verde. É branco ou tinto! É assim chamado por causa do frescor das uvas do qual é produzido e com a juventude que deve ser consumido. A região dos vinhos verdes é delimitada, ficando no Noroeste de Portugal, no vale do Rio Minho e tais líquidos são provenientes das uvas Azal, Loureiro, entre outras, que compõem um suco mais ácido, já que sujeitas a pouco sol. A exceção é a Alvarinho, que é um pouco diferente, com uvas mais doces, talvez a mais apreciada aqui no Brasil.
Conheci o vinho verde na casa do meu sogro João Gaspar, português de carteirinha, que muito aprecia tal vinho, juntamente com seu cunhado, Dr. William Stamford, médico renomado lá do Real Hospital Português e, juntos, já sorvemos alguns bons goles do indefectível Casal Garcia, que recheia as prateleiras das nossas lojas. Continuei a tomá-lo após umas dicas via correio eletrônico do nosso editor Delmar Rosado, que me indicou vinhos do Melgaço e Monção,(área dos verdes Alvarinho), os quais tive oportunidade de provar, apesar da dificuldade em chegarem ao Brasil.
Assim, espero ter encerrado esse artigo agradando a muitos. Claro que não quero agradar a todos, pois como diria Nélson Rodrigues, em sua célebre frase “toda unanimidade é burra”. Meus sentimentos de satisfação e exaltação estão mais próximos um do outro. Um paradoxo que só o vinho pode explicar...
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