Nasceu no dia 30/07/1906 em
Alegrete - RS - BR
Morreu no dia 05/05/1994 - Porto Alegre -
RS - BR
No retrato que me faço
- traço a
traço -
às vezes me pinto nuvem
às vezes me pinto árvore
às vezes me pinto coisas
de que
nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia
existirão...
e, desta lida, em que busco
-
pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um
desenho de criança...
Corrigido por um louco!
Mário Quintana
Quem ama inventa as coisas a
que ama.
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito
acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo
sobre a ruinaria,
No ar atônito brimbilhavam sinos,
Tangidos por uns
anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressureições...
Um ritmo divino? Oh!
Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e
festivamente,
Ou sozinhos num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu
grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado e
ter vivido o sonho!
Recordo ainda... e nada mais me
importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de
lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...
Mas veio um vento de
Desesperança
Soprando cinzas pela noite morta!
E eu pendurei na galharia
torta
Todos os meus brinquedos de criança...
Estrada afora após segui... Mas,
aí,
Embora idade e senso eu aparente
Não vos iludais o velho que aqui
vai:
Eu quero os meus brinquedos
novamente!
Sou um pobre menino... acreditai!...
Que envelheceu, um dia, de
repente!.

Um dia descobrimos que beijar uma
pessoa
para esquecer outra, é bobagem.
Um dia descobrimos que se
apaixonar
é inevitável...
Um dia percebemos que as melhores provas de
amor
são as mais simples...
Um dia percebemos que o comum não nos
atrai...
Um dia saberemos que ser classificado
como o "bonzinho" não é
bom...
Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga
é a que mais
pensa em você...
Um dia saberemos a importância da frase:
"Você se torna
eternamente
responsável por aquilo que cativa..."
Um dia percebemos que
somos muito importante
para alguém mas não damos valor a isso...
Um dia
percebemos como aquele amigo faz falta,
mas aí já é tarde demais.
Enfim...um dia descobrimos que apesar de viver
quase um século, esse
tempo todo não é suficiente
para realizarmos todos os nossos sonhos,
para dizer tudo o que tem que ser dito....
O jeito é: ou nos conformamos
com a falta
de algumas coisas na nossa vida ou
lutamos para realizar
todas as nossas loucuras...
Quem não compreende um olhar tampouco
compreenderá uma longa explicação

Escrevo diante da janela
aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas
filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista
doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de
nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na
folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também
sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico
sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que
me vão pintando!
DEFICIENTE é aquele que não
consegue modificar sua vida,
aceitando as imposições de outras pessoas ou da
sociedade
em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu
destino.
LOUCO é quem não procura ser feliz
com o que possui.
CEGO é aquele que não vê seu
próximo morrer de frio, de fome,
de miséria. E só tem olhos para seus
míseros problemas e pequenas dores.
SURDO é aquele que não tem tempo de
ouvir um desabafo de um amigo,
ou o apelo de um irmão. Pois está sempre
apressado para o trabalho
e quer garantir seus tostões no fim do
mês.
MUDO é aquele que não consegue
falar o que sente e se esconde
por trás da máscara da
hipocrisia.
PARALÍTICO é quem não consegue
andar na direção
daqueles que precisam de sua ajuda.
DIABÉTICO é quem não consegue ser
doce.
ANÃO é quem não sabe deixar o amor
crescer. E, finalmente,
a pior das deficiências é ser miserável,
pois
MISERÁVEIS são todos que não
conseguem falar com Deus.
Eu queria trazer-te uns versos
muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as
mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de
fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro
delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de
papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora
do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo,
ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que
incendiou!
Se eu fosse um padre, eu, nos meus
sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo
Rebelado
e os encantos das suas seduções,
não citaria santos e
profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis
maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos, os mais
belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns
fossem meus!
Porque a poesia purifica a
alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema
sempre leva a Deus!
Os poemas são pássaros que
chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o
livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem
porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas,
então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o
alimento deles já estava em ti...
Mário Quintana - Esconderijos do
Tempo
Mário Quintana
Amigos, não consultem os
relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas
tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...
Porque o tempo é uma invenção da
morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de
poesia
para nos dar a eternidade inteira.
Inteira, sim, porque essa vida
eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma
porção.
E os Anjos entreolham-se
espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que
horas são...
Mário Quintana
Olho o mapa da cidade
Como quem
examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse o meu
corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas
de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina
esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que
não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos
sonhei...)
Quando eu for, um dia
desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do
nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça
mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já
tão longo andar!)
E talvez de meu
repouso...
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Abrazame
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