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Nasceu em Recife PE em
19 de abril de 1886 Morreu no RJ em 13 de
outubro de 1968
Eu faço versos como quem chora De
desalento... de desencanto... Fecha o meu
livro, se por agora Não tens motivo nenhum de
pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia
ardente... Tristeza esparsa... remorso
vão... Dói-me nas veias. Amargo e
quente, Cai, gota a gota, do
coração.
E nestes versos de angústia
rouca Assim dos lábios a vida
corre, Deixando um acre sabor na boca. -
Eu faço versos como quem morre.
Manuel Bandeira
Chora de manso e no íntimo ...
Procura curtir sem queixa o mal que te
crucia: O mundo é sem piedade e até
riria da tua inconsolável
amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é
pura. Aprende a amá-la que a amarás um
dia. Então ela será tua alegria, e será,
ela só, tua ventura ...
A vida é vã como a sombra que passa
... Sofre sereno e de alma
sobranceira, sem um grito sequer, tua
desgraça.
Encerra em ti tua tristeza inteira. E
pede humildemente a Deus que a faça tua doce
e constante companheira.
Tu não estás comigo em momentos
escassos: No pensamento meu, amor, tu vives
nua. - Toda nua, pudica e bela, nos meus
braços.
O teu ombro no meu, ávido, se
insinua. Pende a tua cabeça. Eu amacio-a ...
Afago-a ... Ah, como a minha mão treme ...
Como ela é tua ...
Põe no teu rosto o gozo uma expressão de
mágoa. O teu corpo crispado alucina. De
escorço o vejo estremecer como uma sombra
n'água.
Gemes quase a chorar. Suplicas com
esforço. E para amortecer teu ardente
desejo estendo longamente a mão pelo teu
dorso ...
Tua boa sem voz implora em um
arquejo. Eu te estreito cada vez mais, e
espio absorto a muralha astral dessa nudez
sem pejo ...
E te amo como se ama um passarinho
morto
TESTAMENTO
Manuel
Bandeira O que não tenho e
desjo é que melhor me enriquece. Tive uns
dinheiros - perdi-os ... Tive amores -
esqueci-os. Mas no maior desespero rezei:
ganhei essa prece.
Vi terras
da minha terra. Por outras terras
andei. Mas o que ficou marcado no meu
olhar fatigado, foram terras que
inventei.
Gosto
muito de crianças: Não tive um filho de
meu. Um filho ! ... Não foi de jeito
... Mas trago dentro do peito meu filho
que não nasceu.
Criou-me
desde eu menino, para arquiteto meu
pai. Foi-se um dia a saúde ... Fiz-me
arquiteto ? Não pude ! Sou poeta menor,
perdoai !
Não faço
versos de guerra. Não faço porque não
sei. Mas num torpedo-suicida darei de um
bom grado a vida na luta em que não lutei
!
Vamos
viver no Nordeste, Anarina. Deixarei aqui
meus amigos, meus livros, minhas
riquezas, minha vergonha. Deixarás aqui tua
filha, tua avó, teu marido, teu amante. Aqui
faz muito calor. No Nordeste faz calor
também. Mas lá tem brisa: Vamos viver de
brisa, Anarina
Teu corpo
é tudo o que brilha Teu corpo é tudo o que
cheira Rosa, flor de laranjeira
Teu
corpo, claro e perfeito Teu corpo de
maravilha Quero possui-lo no leito estreito
da redondilha
Teu
corpo, branco e macio E' como um véu de
noivado. Teu corpo é pomo doirado, Rosal
queimado de estio Desfalecido em
perfume Teu corpo é a brasa do
lume
Teu corpo
é chama E flameja como à tarde os horizontes
É puro como nas fontes a água clara que
serpeja, Que em cantigas se derrama, volúpia
da água e da chama
Teu corpo
é tudo o que brilha, Teu corpo é tudo o que
cheira.
A todo
momento o vejo Teu corpo, a única ilha no
oceano do meu desejo.
O
pardalzinho nasceu Livre. Quebraram-lhe a
asa. Sacha lhe deu uma casa, Água,
comida e carinhos. Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão, O pardalzinho
morreu. O corpo Sacha enterrou No
jardim; a alma, essa voou Para o céu dos
passarinhos!
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weih_suesser_dieglocken
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