Florbela Espanca
Toda esta noite o rouxinol
chorou,
Gemeu, rezou, gritou
perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da
gente,
Tu és, talvez, alguém que se
finou!
Tu
és, talvez, um sonho que passou,
Que se
fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a
alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e
nunca amou!
Toda a noite choraste... e eu
chorei
Talvez porque, ao ouvir-te,
adivinhei
Que ninguém é mais triste do que
nós!
Contaste tanta coisa à noite
calma,
Que eu pensei que tu eras a
minh'alma
Que chorasse perdida em tua
voz!...
Florbela Espanca
Deixa dizer-te os lindos versos
raros
Que a minha boca tem pra te dizer
!
São talhados em mármore de
Paros
Cinzelados por mim pra te
oferecer.
Têm
dolência de veludos caros,
São como sedas
pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos
versos raros
Que foram feitos pra te
endoidecer !
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda
...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se
dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E
nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo
os versos mais lindos que te fiz!
Florbela Espanca
Se
me ponho a cismar em outras eras
Em
que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a
minha triste boca dolorida,
Que
dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E
cai num abandono de esquecida!
E
fico, pensativa, olhando o vago...
Tomo a brandura plácida dum lago
O
meu rosto de monja de marfim...
E
as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
Florbela Espanca
Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que
a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que
a tempestade os leve aonde for!
Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que
volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E
pelo orgulho ainda sou
maior!...
Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as
sente...
Rasgas os meus versos... Pobre
endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não
fosse o mesmo amor de toda a gente!...
Eu
quero amar, amar perdidamente!
Amar só por
amar: aqui... além...
Mais este e aquele, o
outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não
amar ninguém!
Recordar? Esquecer?
Indiferente!
Prender ou desprender? É mal? É
bem?
Quem disser que se pode amar
alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há
uma primavera em cada vida:
É preciso
cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu
voz, foi pra cantar!
E
se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que
seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba
perder ... pra me encontrar...
Florbela Espanca
A
Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que
inunda de amargura...
E nem sequer a bênção
do luar
A quis tornar divinamente
pura...
Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A
sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço
a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a
Noite escura!
Por
que és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma
Saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que
tenho!!
Florbela Espanca
Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus
olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com
o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há
muito por te amar.
O
meu colo é arminho imaculado
Duma brancura
casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e
bela
Deita em meu colo, deita e adormece!
Tenho um manto real de negras
trevas
Feito de fios brilhantes d'astros
belos
Pisa o manto real de negras
trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!
Os
meus braços são brancos como o linho
Quando
os cerro de leve, docemente...
Oh! Deixa-me
prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim
eternamente! ...
Vem
para mim, amor...Ai não desprezes
A minha
adoração de escrava louca!
Só te peço que
deixes exalar
Meu último suspiro na tua
boca!...
Eu
sou a que no mundo anda perdida
Eu sou a que
na vida não tem norte
sou a irmã do sonho, e
desta sorte
Sou a crucificada... a
dolorida...
Sombra de nèvoa tênue e esmaecida
E
que o destino amargo, triste e forte,
Impele
brutalmente para a morte
Alma de luto sempre
incompreendida.
Sou
aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que
chamam triste sem o ser...
sou a que chora
sem saber por quê...
Sou
talvez a visão que alguém sonhou.
Alguém que
veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida
me encontrou
Minh'alma, de sonhar-te, anda
perdida
Meus olhos andam cegos de te
ver!
Não és sequer razão do meu
viver,
Pois que tu és já toda a minha
vida!
Não
vejo nada assim enlouquecida...
Passo no
mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do
teu ser
A mesma história tantas vezes
lida!
"Tudo no mundo é frágil, tudo
passa..."
Quando me dizem isto, toda a
graça
Duma boca divina fala em
mim!
E,
olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah!
podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és
como Deus: Princípio e Fim...".
Florbela Espanca
Amo as pedras, os astros e o luar
Que
beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas
de anil e o doce olhar
Dos animais,
divinamente puro.
Amo a hera que entende a
voz do muro
E dos sapos, o brando
tilintar
De cristais que se afagam
devagar,
E da minha charneca o rosto
duro.
Amo todos os sonhos que se calam
De
corações que sentem e não falam,
Tudo o que é
Infinito e pequenino!
Asa que nos protege a
todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a
voz
Do nosso grande e mísero
Destino!...
Florbela Espanca
Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu
queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do
caminho, rude e forte!
Eu
queria ser o sol, a luz intensa
O bem do que
é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a
árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão é
ate da morte!
Mas
o mar também chora de tristeza...
As árvores
também, como quem reza,
Abrem, aos céus, os
braços, como um crente!
E o
sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem
lágrimas de sangue na agonia!
E as pedras...
essas... pisá-as toda a gente!..
Florbela Espanca
Não
acredito em nada. As minhas crenças
Voaram
como voa a pomba mansa;
Pelo azul do ar. E
assim fugiram
As minhas doces crenças de
criança.
Fiquei então sem fé; e a toda a
gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não
acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma
ilusão apenas e mais nada!
Mas
avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz
suavíssima de dor...
E grito então ao ver
esses dois céus:
Eu
creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que
criou esse brilho que m'encanta!
Eu creio,
sim, creio, eu creio em Deus!
Florbela Espanca
Eu
trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas
más que tens vivido, Amor!
E para as tuas
chagas o ungüento
Com que sarei a minha
própria dor.
Os
meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no
nome as letras duma flor...
Foi dos meus
olhos garços que um pintor
Tirou a luz para
pintar o vento...
Dou-te o que tenho: o astro que
dormita,
O manto dos crepúsculos da
tarde,
O sol que é de oiro, a onda que
palpita.
Dou-te, comigo, o mundo que Deus
fez!
Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A
princesa de conto: "Era uma vez..."
Florbela Espanca
Ser
poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os
homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo
e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e
de Além Dor!
É
ter de mil desejos o esplendor
E não saber
sequer que se deseja!
É ter cá dentro um
astro que flameja,
É ter garras e asas de
condor!
É
ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo,
as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o
mundo num só grito!
E é
amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma,
e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a
toda a gente!
Florbela Espanca
Eu
bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um
divino vinho de Falerno
Poisando em ti o meu
olhar eterno
Como poisam as folhas sobre os
lagos...
Os
meus sonhos agora são mais vagos
O teu olhar
em mim, hoje é mais terno...
E a Vida já não
é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e
presságios!
A
Vida, meu amor, quero vivê-la!
Na mesma taça
erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de
bebê-la!
Que
importa o mundo e as ilusões defuntas?...
Que
importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O
mundo, Amor!...As nossas bocas
juntas!...
Florbela Espanca
Amor! Anda o luar, todo
bondade,
Beijando a Terra, a desfazer-se em
luz...
Amor! São os pés brancos de Jesus
Que anda pisando as ruas da cidade!
E
eu ponho-me a pensar... Quanta saudade
Das
ilusões e risos que em ti pus!
Traças em mim
os braços duma cruz,
Neles pregaste a minha
mocidade!
Minh'alma que eu te dei, cheia de
mágoas,
É nesta noite o nenúfar de um lago
Estendendo as asas brancas sobre as águas!
Poisa as mãos nos meus olhos, com
carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e
vago...
E deixa-me chorar devagarinho...
Florbela Espanca
Se os que me viram já cheia de
graça
Olharem bem de frente para
mim,
Talvez, cheios de dor, digam
assim:
"Já ela é velha! Como o tempo
passa"!..."
Não
sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas
mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de
oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao
fim!
Tenho vinte e três anos! Sou
velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou
crente...
Já murmuro orações... falo
sozinha...
E o
bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me
fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um
bando de netinhos...
Florbela Espanca
Esse de quem eu era e era meu,
Que foi
um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a
alma de saudade,
Para sempre de mim
desapareceu.
Tudo em redor então escureceu,
E foi
longínqua toda a claridade!
Ceguei... tateio
sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas
porque tudo ardeu!
Descem em mim poentes de Novembro...
A
sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste
de roxo e negro os crisântemos...
E
desse que era eu meu já me não lembro...
Ah!
a doce agonia de esquecer
A lembrar
doidamente o que esquecemos...!
Florbela Espanca
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela
que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a
inspiração pura e perfeita,
Que reúne num
verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem
claridade
Para encher todo o mundo! E que
deleita
Mesmo aqueles que morrem de
saudade!
Mesmo os de alma profunda e
insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste
mundo...
Aquela de saber vasto e
profundo,
Aos pés de quem a terra anda
curvada!
E
quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando
mais no alto ando voando,
Acordo do meu
sonho...
E não sou nada!...
Florbela Espanca
Longe de ti são ermos os
caminhos,
Longe de ti não há luar nem
rosas,
Longe de ti há noites
silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem
ninhos!
Meus olhos são dois velhos
pobrezinhos
Perdidos pelas noites
invernosas...
Abertos, sonham mãos
cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de
carinhos!
Os
dias são Outonos: choram... choram...
Há
crisântemos roxos que descoram...
Há
murmúrios dolentes de segredos...
Invoco o nosso sonho! Estendo os
braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos
espaços,
Fumo leve que foge entre os meus
dedos!...