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Nasceu em Lisboa
em 13 de junho de 1888 Morreu em Lisboa em 30
de novembro de 1935
Fernando
Pessoa
Sossega, coração! Não
desesperes! Talvez um dia, para além dos
dias, Encontres o que queres porque o
queres. Então, livre de falsas
nostalgias, Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não
tê-lo! Pobre esperança a de existir
somente! Como quem passa a mão pelo
cabelo E em si mesmo se sente
diferente, Como faz mal ao sonho o
concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme! O
sossego não quer razão nem causa. Quer só a
noite plácida e enorme, A grande, universal,
solente pausa Antes que tudo em tudo se
transforme.
Fernando Pessoa
Conta a lenda que dormia Uma Princesa
encantada A quem só despertaria Um
Infante, que viria De além do muro da
estrada.
Ele tinha que, tentado, Vencer o mal
e o bem, Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado Por o que à
Princesa vem.
A Princesa Adormecida, Se espera,
dormindo espera. Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida, Verde,
uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado, Sem saber
que intuito tem, Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado. Ela para ele é
ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino - Ela
dormindo encantada, Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino Que faz existir a
estrada.
E, se bem que seja obscuro Tudo pela
estrada fora, E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro, Chega onde
em sono ela mora. E, inda tonto do que
houvera, A cabeça, em maresia, Ergue a
mão, e encontra hera, E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa
A lavadeira no tanque Bate roupa em
pedra bem. Canta porque canta e é
triste Porque canta porque existe; Por
isso é alegre também.
Ora se eu alguma vez Pudesse fazer nos
versos O que a essa roupa ela fez, Eu
perdeira talvez Os meus destinos diversos.
Há uma grande unidade Em, sem pensar
nem razão, E até cantando a metade, Bater
roupa em realidade... Quem me lava o
coração?
Fernando Pessoa
Se alguém bater um dia à tua
porta, Dizendo que é um emissário meu, Não
acredites, nem que seja eu; Que o meu vaidoso
orgulho não comporta Bater sequer à porta
irreal do céu.
Mas se, naturalmente, e sem
ouvir Alguém bater, fores a porta abrir E
encontrares alguém como que à espera De ousar
bater, medita um pouco. Esse era Meu
emissário e eu e o que comporta O meu orgulho
do que desespera. Abre a quem não bater à tua
porta!
Fernando Pessoa
Cai chuva do céu cinzento Que não tem
razão de ser. Até o meu pensamento Tem
chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza Acrescentada
à que sinto. Quero dizer-ma mas pesa O
quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente Não sei se
estou triste ou não. E a chuva cai
levemente (Porque Verlaine
consente) Dentro do meu coração.
Fernando Pessoa
Chove. Que fiz eu da vida? Fiz o que
ela fez de mim... De pensada, mal
vivida... Triste de quem é
assim!
Numa angústia sem remédio Tenho febre
na alma, e, ao ser, Tenho saudade, entre o
tédio, Só do que nunca quis ter...
Quem eu pudera ter sido, Que é dele?
Entre ódios pequenos De mim, 'stou de mim
partido. Se ao menos chovesse
menos!
Fernando Pessoa
As nuvens são sombrias Mas, nos lados
do sul, Um bocado do céu É tristemente
azul.
Assim, no pensamento, Sem haver
solução, Há um bocado que lembra Que
existe o coração.
E esse bocado é que é A verdade que
está A ser beleza eterna Para além do que
há.
Fernando Pessoa
Só a leve esperança em toda a vida
Disfarça a pena de viver, mais nada Não e
mais a existência resumida Que uma breve
esperança malograda
O eterno sonho dalma desterrada Que a
traz ansiosa e embevecida E uma hora feliz
sempre adiada E que não chega nunca em toda
vida
Essa felicidade que supomos Arvore
milagrosa que sonhamos Toda arreada de
dourados pomos
Existe sim, mas nunca a
encontramos Porque ela esta sempre apenas
onde a pomos E nunca a pomos onde nos
estamos.
Fernando Pessoa
Dorme enquanto eu velo... Deixa-me
sonhar... Nada em mim é risonho. Quero-te
para sonho, Não para te amar.
A tua carne calma É fria em meu
querer. Os meus desejos são cansaços. Nem
quero ter nos braços Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme. dorme, Vaga em teu
sorrir... Sonho-te tão atento Que o sonho
é encantamento E eu sonho sem
sentir.
Fernando Pessoa
Sonhei, confuso, e o sono foi
disperso, Mas, quando despertei da
confusão, Vi que esta vida aqui e este
universo Não são mais claros do que os sonhos
são
Obscura luz paira onde estou
converso A esta realidade da ilusão Se
fecho os olhos, sou de novo imerso Naquelas
sombras que há na escuridão.
Escuro, escuro, tudo, em sonho ou
vida, É a mesma mistura de entre-seres Ou
na noite, ou ao dia transferida.
Nada é real, nada em seus vãos
moveres Pertence a uma forma
definida, Rastro visto de coisa só
ouvida.
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Encantos de um Céu
Azul
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