Cora Coralina
Eu sou a
terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro
veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o
amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o
fruto e vem a flor.
Eu sou a
fonte original de toda vida.
Sou o chão que
se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta
de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e
certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a
razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do
Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a
grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e
desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó
lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua
foice, teu machado.
O berço pequenino de teu
filho.
O algodão de tua veste
e o pão de
tua casa.
E um dia
bem distante
a mim tu voltarás.
E no
canteiro materno de meu seio
tranqüilo
dormirás.
Plantemos
a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do
ninho,
do gado e da tulha.
Fartura
teremos
e donos de sítio
felizes
seremos.
Cora
Coralina
Não sei... Se a vida é
curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei
que nada do que vivemos
Tem sentido, se não
tocamos o coração das
pessoas.
Muitas
vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço
que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que
contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que
acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que
promove.
E isso não
é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à
vida.
É o que faz com que ela
Não seja
nem curta,
Nem longa demais,
Mas que
seja intensa,
Verdadeira, pura... Enquanto
durar"
Cora Coralina
Melhor do
que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o
espaço,
normas e costumes.
Erros e
acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o
tempo e o meio.
Projeta-se no
Cosmos.
Cora
Coralina
Saiu o
Semeador a semear
Semeou o dia todo
e a
noite o apanhou ainda
com as mãos cheias de
sementes.
Ele semeava tranqüilo
sem
pensar na colheita
porque muito tinha
colhido
do que outros semearam.
Jovem,
seja você esse semeador
Semeia com otimismo
Semeia com idealismo
as sementes vivas
da Paz e da Justiça.
Cora Coralina
Estás
morto, estás velho, estás cansado!
Como um
suco de lágrimas pungidas
Ei-las, as rugas,
as indefinidas
Noites do ser vencido e
fatigado.
Envolve-te
o crepúsculo gelado
Que vai soturno
amortalhando as vidas
Ante o repouso em
músicas gemidas
No fundo coração dilacerado.
A cabeça
pendida de fadiga,
Sentes a morte taciturna
e amiga,
Que os teus nervosos círculos
governa.
Estás
velho estás morto! Ó dor, delírio,
Alma
despedaçada de martírio
Ó desespero da
desgraça eterna.
Cora
Coralina
Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à
creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca
será um lar
para teu filho.
Ele,
pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da
tua força maternal.
Que
pretendes, mulher?
Independência, igualdade
de condições...
Empregos fora do lar?
És
superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti
está presente a humanidade.
Mulher,
não te deixes castrar.
Serás um animal
somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz
calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não
és.
Roendo o teu osso negro da
amargura!