Uma noite, eu
me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada
molemente...
Quase aberto o roupão... solto o
cabelo
E o pé descalço do tapete
rente.
'Stava aberta a janela. Um cheiro
agreste
Exalavam as silvas da campina...
E
ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a
noite plácida e divina.
De
um jasmineiro os galhos
encurvados,
Indiscretos entravam pela
sala,
E de leve oscilando ao tom das
auras,
Iam na face trêmulos —
beijá-la.
Era
um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em
sonhos a moça estremecia...
Quando ela
serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia
beijar-lhe... a flor fugia...
Dir-se-ia que naquele doce
instante
Brincavam duas cândidas
crianças...
A brisa, que agitava as folhas
verdes,
Fazia-lhe ondear as negras
tranças!
E o
ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas
quando a via despeitada a meio,
P'ra não
zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de
pétalas no seio...
Eu,
fitando esta cena, repetia
Naquela noite
lânguida e sentida:
"Ó flor! tu és a virgem
das campinas!
"Virgem! tu és a flor da
minha vida!..."
Mas não digas assim por
entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo
o peito,
Mar de amor onde vagam meus
desejos.
Julieta do céu! Ouve... a calhandra
Já
rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu
menti?... pois foi mentira...
...Quem cantou
foi teu hálito, divina!
Se
a estrela-d'alva os derradeiros raios
Derrama
nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me
esquecendo d'alvorada:
"É noite ainda em teu
cabelo preto..."
É
noite ainda! Brilha na
cambraia
Desmanchado o roupão, a
espádua nua —
O globo de teu peito entre os
arminhos
Como entre as névoas se balouça a
lua...
É
noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a
alcova ao trescalar das flores,
Fechemos
sobre nós estas cortinas...
São as asas de
arcanjo dos amores.
A
frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe
voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me
aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de
meus lábios mornos.
Mulher do meu amor! Quando aos meus
beijos
Treme tua alma, como a lira ao
vento,
Das teclas de teu seio que
harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo
atento!
Ai!
Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira,
soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!...
É noite ainda.
Que importa os raios de uma
nova aurora?!...
Como um negro e sombrio
firmamento,
Sobre mim desenrola teu
cabelo...
E deixa-me dormir
balbuciando:
Boa-noite! formosa
Consuelo!...
Boa-Noite, Maria! Eu
vou-me embora.
A lua nas janelas bate em
cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde... é
tarde...
Não me apertes assim contra teu
seio.
Boa-noite!... E tu dizes —
Boa-noite.
A tarde morria! Nas águas
barrentas
As sombras das margens deitavam-se
longas;
Na esguia atalaia das árvores
secas
Ouvia-se um triste chorar de
arapongas.
A
tarde morria! Dos ramos, das lascas,
Das
pedras, do líquen, das heras, dos cardos,
As
trevas rasteiras com o ventre por
terra
Saíam, quais negros, cruéis
leopardos.
A
tarde morria! Mais funda nas águas
Lavava-se
a galha do escuro ingazeiro...
Ao fresco
arrepio dos ventos cortantes
Em músico estalo
rangia o coqueiro.
Sussurro profundo! Marulho
gigante!
Talvez um — silêncio!... Talvez uma
— orquestra...
Da folha, do cálix, das asas,
do inseto...
Do átomo — à estrela... do verme
— à floresta!...
As
garças metiam o bico vermelho
Por baixo das
asas, — da brisa ao açoite — ;
E a terra na
vaga de azul do infinito
Cobria a cabeça
co'as penas da noite!
Somente por vezes, dos jungles das
bordas
Dos golfos enormes, daquela
paragem,
Erguia a cabeça surpreso,
inquieto,
Coberto de limos — um touro
selvagem.
Então as marrecas, em torno boiando,
O
vôo encurvavam medrosas, à toa...
E o tímido
bando pedindo outras praias
Passava gritando
por sobre a canoa!...
Tudo vem me lembrar que tu
fugiste,
Tudo que me rodeia de ti
fala.
Inda a almofada, em que pousaste a
fronte
O teu perfume predileto
exala
No
piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de
morte as harmonias.
E a valsa entreaberta
mostra a frase
A doce frase qu'inda há pouco
lias.
As
horas passam longas, sonolentas...
Desce a
tarde no carro vaporoso...
D'Ave-Maria o
sino, que soluça,
É por ti que soluça mais
queixoso.
E
não vens te sentar perto, bem perto
Nem
derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de
notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre
a minha.
E,
quando uma tristeza irresistível
Mais fundo
cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de
Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não
acalma.
É
que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me
rodeia de ti fala...
Como o cristal da
essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo
trescala.
No
ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o
pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de
amores e de afagos...
Eras — ave do céu...
minh'alma — o ninho!
Por
onde trilhas — um perfume expande-se
Há ritmo
e cadência no teu passo!
És como a estrela,
que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de
luz no azul do espaço...
E
teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela
que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a
vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus
cabelos!...
Castro Alves
Que dure a vida inteira e aplaque o meu
desejo!
Ferve-me o sangue.
Acalma-o com
teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido
fecha ao rumor
do mundo,
e beija-me,
querida!
Vive só para mim, só para a minha
vida,
Só para o meu amor!
Fora, repouse
em paz
Dormindo em calmo sono a calma
natureza,
Ou se debata, das tormentas presa,
Beija inda mais!
E, enquanto o brando
calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo
anseio,
Com o mesmo ardente amor!
Diz
tua boca: "Vem!"
Inda mais! diz a minha, a
soluçar... Exclama !
Todo o meu corpo que o
teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai!
morde! que doce é a dor
que me entra as
carnes, e as tortura!
Beija mais!
Morde
mais!
Que eu morra de ventura,
Morto por
teu amor!
Quero um beijo sem fim,
que
dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só
para mim, só para a minha vida,
Só para o
meu amor!
Ainda uma vez tu brilhas sobre o
palco,
Ainda uma vez eu venho te
saudar...
Também o povo vem rolando
aplausos
Às tuas plantas mil troféus
lançar...
Após a noite, que passou sombria,
A
estrela-d`alva pelo céu rasgou...
Errante
estrela, se lutaste um dia,
Vê como o povo o
teu sofrer pagou...
Lutar!... que importa, se afinal
venceste?
Chorar!... que importa, se afinal
sorris?
A tempestade se não rompe a
estátua
Lava-lhe os pés e a triunfal
cerviz.
Ouves o aplauso deste povo
imenso,
Lava, que irrompe do pop'lar
vulcão?
É o bronze rubro, que ao fundir dos
bustos
Referve ardente do porvir na
mão.
O
povo... o povo... é um juiz severo,
Maldiz as
trevas, abençoa a luz...
Sentiu teu gênio e
rebramiu soberbo:
— P'ra ti altares, não do
poste a cruz.
Que
queres? Ouve! — são mil palmas
férvidas,
Olha! — é o delírio, que prorrompe
audaz.
Pisa! — são flores, que tu tens às
plantas,
Toca no fronte — coroada
estás.
Descansa, pois, como o condor nos
Andes,
Pairando altivo sobre terra e
mar,
Pousa nas nuvens p'ra arrogante em
breve
Distante... longe... mais além
voar.
Teus olhos são negros,
negros,
Como as noites sem luar...
São
ardentes, são profundos,
Como o negrume do
mar;
Sobre o barco dos amores,
Da vida
boiando à flor,
Douram teus olhos a
fronte
Do Gondoleiro do amor.
Tua
voz é cavatina
Dos palácios de
Sorrento,
Quando a praia beija a
vaga,
Quando a vaga beija o
vento.
E
como em noites de Itália
Ama um canto o
pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O
Gondoleiro do amor.
Teu
sorriso é uma aurora
Que o horizonte
enrubesceu,
Rosa aberta com o biquinho
Das
aves rubras do céu;
Nas
tempestades da vida
Das rajadas no
furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O
Gondoleiro do amor.
Teu
seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da
lua,
Que, ao murmúrio das
volúpias,
Arqueja, palpita nua;
Como é doce, em pensamento,
Do teu
colo no languor
Vogar, naufragar,
perder-se
O Gondoleiro do amor!?
Teu
amor na treva é — um astro,
No silêncio uma
canção,
É brisa — nas calmarias,
É abrigo
— no tufão;
Por
isso eu te amo, querida
Quer no prazer, quer
na dor...
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do
Gondoleiro do amor.
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Clara Poesias: O Jardim das Emoções |
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O Franco
Atirador
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