Nasceu em Silva Jardim RJ, em 04/01/1839
de janeiro de 1839
Morreu em Casemiro de
Abreu RJ, em 18/10/1860.
Casimiro de
Abreu
Eu me lembro! eu me lembro!
Era pequeno
E brincava na praia; o mar
bramia
E, erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca escuma para o céu sereno.
E eu disse a minha mãe nesse
momento:
“Que dura orquestra! Que furor
insano!
Que pode haver maior do que o
oceano,
Ou que seja mais forte do que o
vento?!”
— Minha mãe a sorrir olhou
pr'os céus
E respondeu: — “ Um Ser que nós
não vemos
É maior do que o mar que nós
tememos,
Mais forte que o tufão! meu filho,
é — Deus!”.
Casemiro de
Abreu
Não sabes, Clara, que
pena
eu teria se — morena
tu fosses em vez
de clara!
Talvez... quem sabe... não
digo...
mas refletindo comigo
talvez nem
tanto te amara!
A tua cor é mimosa,
brilha
mais da face a rosa
tem mais graça a boca
breve.
O teu sorriso é delírio...
És alva
da cor do lírio,
és clara da cor da
neve!
A morena é predileta,
mas a
Clara é do Poeta:
assim se pintam
arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas
a morena é da terra
enquanto a Clara é dos
Anjos!
Mulher morena é
ardente:
prende o amante demente
nos fios
do seu cabelo;
— A clara é sempre mais
fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou
arder no teu gelo!
A cor morena é bonita,
mas
nada, nada te imita
nem mesmo sequer de
leve.
— O teu sorriso é delírio...
És alva
da cor do lírio,
és clara da cor da
neve!
Casemiro de
Abreu
Simpatia - é o
sentimento
Que nasce num só
momento,
Sincero, no coração;
São dois
olhares acesos
Bem juntos, unidos,
presos
Numa mágica atração.
Simpatia - são dois
galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas
mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes
nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E
que se abraçam por fim.
São duas almas bem
gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram
nos mesmos ais;
São vozes de dois
amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois
poemas iguais.
Simpatia - meu anjinho,
É o
canto de passarinho,
É o doce aroma da
flor;
São nuvens dum céu d'agosto
É o que
m'inspira teu rosto...
- Simpatia - é quase
amor!
Casemiro de
Abreu
Nas horas ardentes do pino do
dia
Aos bosques corri;
E qual linda imagem
dos castos amores,
Dormindo e sonhando
cercada de flores
Nos bosques a vi!
Dormia
deitada na rede de penas
- O céu por
dossel,
De leve embalada no quieto
balanço
Qual nauta cismando num lago bem
manso
Num leve batel!
Dormia e sonhava -
no rosto serena
Qual um serafim;
Os cílios
pendidos nos olhos tão belos,
E a brisa
brincando nos soltos cabelos
De fino
cetim!
Dormia e sonhava - formosa
embebida
No doce sonhar,
E doce e sereno
num mágico anseio
Debaixo das roupas batia
-lhe o seio
No seu palpitar!
Dormia e
sonhava - a boca entreaberta,
O lábio a
sorrir;
No peito cruzados os braços
dormentes,
Compridos e lisos quais brancas
serpentes
No colo a dormir!
Dormia e
sonhava - no sonho de amores
Chamava por
mim,
E a voz suspirosa nos lábios
morria
Tão terna e tão meiga qual vaga
harmonia
De algum bandolim!
Dormia e
sonhava - de manso cheguei-me
Sem leve
rumor;
Pendi-me tremendo e qual fraco
vagido,
Qual sopro da brisa, baixinho ao
ouvido
Falei-lhe de amor!
Ao hálito
ardente o peito palpita...
Mas sem
despertar;
E como nas ânsias dum sonho que é
lindo,
A virgem na rede corando e
sorrindo...
Beijou-me - a sonhar!

Casemiro de
Abreu
Nas horas mortas da noite
Como é doce o meditar
Quando as estrelas
cintilam
Nas ondas quietas do mar;
Quando a lua majestosa
Surgindo linda e
formosa,
Como donzela vaidosa
Nas águas
se vai mirar!
Nessas horas de silêncio
De tristezas e de amor,
Eu gosto de
ouvir ao longe,
Cheio de magoa e de dor,
O sino do campanário
Que fala tão
solitário
Com esse som mortuário
Que nos
enche de pavor.
Então - Proscrito e sozinho -
Eu solto aos ecos da serra
Suspiros
dessa saudade
Que no meu peito se encerra
Esses prantos de amargores
São prantos
cheios de dores:
Saudades - Dos meus amores
Saudades - Da minha terra!
Casemiro de
Abreu
Sempre teu lábio severo
Me
chama de borboleta!
- Se eu deixo as rosas
do prado
É só por ti - violeta!
Tu és formosa e modesta,
As outras são tão vaidosas!
Embora vivas
na sombra
Amo-te mais do que às rosas.
A borboleta travessa
Vive
de sol e de flores...
- Eu quero o sol de
teus olhos,
O néctar dos teus amores!
Cativo de teu perfume
Não
mais serei borboleta;
- Deixa eu durmir no
teu seio,
Dá-me o teu mel - violeta!
Casemiro de
Abreu
Se eu tenho de morrer na flor
dos anos
Meu Deus! não seja já;
Eu quero
ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o
sabiá!
Meu Deus, eu sinto e tu bem
vês que eu morro
Respirando este ar;
Faz
que eu viva, Senhor! dá-me de novo
Os gozos
do meu lar!
O país estrangeiro mais
belezas
Do que a pátria não tem;
E este
mundo não vale um só dos beijos
Tão doces
duma mãe!
Dá-me os sítios gentis onde eu
brincava
Lá na quadra infantil;
Dá que
eu veja uma vez o céu da pátria,
O céu do
meu Brasil!
Se eu tenho de morrer na flor
dos anos
Meu Deus! não seja já!
Eu quero
ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o
sabiá!
Quero ver esse céu da minha
terra
Tão lindo e tão azul!
E a nuvem
cor-de-rosa que passava
Correndo lá do sul!
Quero dormir à sombra dos
coqueiros,
As folhas por dossel;
E ver
se apanho a borboleta branca,
Que voa no
vergel!
Quero sentar-me à beira do
riacho
Das tardes ao cair,
E sozinho
cismando no crepúsculo
Os sonhos do porvir!
Se eu tenho de morrer na flor
dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu
quero ouvir na laranjeira, à tarde,
A voz do
sabiá!
Quero morrer cercado dos
perfumes
Dum clima tropical,
E sentir,
expirando, as harmonias
Do meu berço natal!
Minha campa será entre as
mangueiras,
Banhada do luar,
E eu
contente dormirei tranqüilo
À sombra do meu
lar!
As cachoeiras chorarão
sentidas
Porque cedo morri,
E eu sonho
no sepulcro os meus amores
Na terra onde
nasci!
Se eu tenho de morrer na flor
dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu
quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o
sabiá!
Casemiro de
Abreu
Da pátria formosa distante e
saudoso,
Chorando e gemendo meus cantos de
dor,
Eu guardo no peito a imagem querida
Do mais verdadeiro, do mais santo amor:
— Minha Mãe! —
Nas horas caladas das noites
d'estio
Sentado sozinho co'a face na mão,
Eu choro e soluço por quem me chamava
—
“Oh filho querido do meu coração!” —
— Minha
Mãe! —
No berço, pendente dos ramos
floridos,
Em que eu pequenino feliz
dormitava:
Quem é que esse berço com todo o
cuidado
Cantando cantigas alegre embalava?
— Minha Mãe! —
De noite, alta noite, quando
eu já dormia
Sonhando esses sonhos dos anjos
dos céus,
Quem é que meus lábios dormentes
roçava,
Qual anjo da guarda, qual sopro de
Deus?
— Minha Mãe! —
Feliz o bom filho que pode
contente
Na casa paterna de noite e de dia
Sentir as carícias do anjo de amores,
Da
estrela brilhante que a vida nos guia!
—
Minha Mãe!—
Por isso eu agora na terra do
exílio,
Sentando sozinho co'a face na mão,
Suspiro e soluço por quem me chamava:
—
“Oh filho querido do meu coração!” —
— Minha
Mãe!
Casemiro de
Abreu
Mon coeur est plein - je veux
pleurer! Lamartine.
I
Minh'alma é triste como a rôla
aflita
Que o bosque acorda desde o albor da
aurora.
E em doce arrulho que o soluço
imita
O morto espôso gemedora chora.
E como a rôla que perdeu o
espôso
Minh'alma chora as ilusões
perdidas,
E no seu livro de fanado
gôzo
Relê as fôlhas que já foram lidas.
E como as notas de chorosa
endeixa
Seu pobre canto com a dor
desmaia,
E seus gemidos são iguais à
queixa
Que a vaga solta quando beija a
praia.
Como a criança que banhada em
prantos
Procura o brinco que levou-lhe o
rio,
Minh'alma quer ressuscitar nos
cantos
Um só dos lírios que murchou o
estio.
Dizem que há gozos nas
mundanas galas,
Mas eu não sei em que o
prazer consiste.
- Ou só no campo, ou no
rumor das salas,
Não sei por que - mas a
minh'alma é triste!
II
Minh'alma é triste como a voz
do sino
Carpindo o morto sôbre a laje
fria;
E doce e grave qual no templo um
hino,
Ou como a prece ao desmaiar do
dia.
Se passa um bote com as velas
sôltas,
Minh'alma o segue n'amplidão dos
mares;
E longas horas acompanha as
voltas
Das andorinhas recortando os
ares.
Às vêzes louca, num cismar
perdida,
Minh'alma triste vai vagando à
toa.
Bem como a fôlha que do sul
batida
Bóia nas águas de gentil lagoa!
E como a rôla que em sentida
queixa
O bosque acorda desde o albor da
aurora,
Minh'alma em notas de chorosa
endeixa
Lamenta os sonhos que já tive
outrora.
Dizem que há gozos no correr
dos anos!...
Só eu não sei em que o prazer
consiste.
- Pobre ludíbrio de cruéis
enganos,
Perdi os risos - a minh'alma é
triste!
III
Minh'alma é triste como a flor
que morre
Perdida à beira do riacho
ingrato;
Nem beijos dá-lhe a viração que
corre,
Nem doce canto o sabiá do mato!
E como a flor que solitária
pende
Sem ter carícias no voar da
brisa,
Minh'alma murcha, mas ninguém
entende
Que a pobrezinha só de amor
precisa!
Amei outrora com amor bem
santo
Os negros olhos de gentil
donzela,
Mas dessa fronte de sublime
encanto
Outro tirou a virginal capela.
Oh! quantas vêzes a prendi nos
braços!
Que o diga e fale o laranjal
florido!
Se mão de ferro espedaçou dois
laços,
Ambos choramos, mas num só
gemido!
Dizem que há gozos no viver
d'amôres,
Só eu não sei em que o prazer
consiste!
- Eu vejo o mundo na estação das
flôres...
Tudo sorri - mas a minh'alma é
triste!
IV
Minh'alma é triste como o
grito agudo
Das arapongas no sertão
deserto;
E como o nauta sôbre o mar
sanhudo,
Longe da praia que julgou tão
perto!
A mocidade no sonhar
florida
Em mim foi beijo de lasciva
virgem:
- Pulava o sangue e me fervia a
vida,
Ardendo a fronte em bacanal
vertigem.
De tanto fogo tinha a mente
cheia!...
No afã da glória me atirei com
ânsia...
E, perto ou longe, quis beijar a
s'reia
Que em doce canto me atraiu na
infância.
Ai! loucos sonhos de mancebo
ardente!
Esp'ranças altas... Ei-las já tão
rasas!...
- Pombo selvagem, quis voar
contente...
Feriu-me a bala no bater das
asas!
Dizem que há gozos no correr
da vida...
Só eu não sei que o prazer
consiste!
- No amor, nas glórias, na mundana
lida,
Foram-se as flôres - a minh'alma é
triste!
Casemiro de
Abreu
Quando eu te vejo e me desvio
cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
"Meu
Deus! que gelo, que frieza aquela!"
Como te enganas! meu amor, é
chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És
bela — eu moço; tens amor, eu — medo...
Tenho medo de mim, de ti, de
tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou
vozes.
Das folhas secas, do chorar das
fontes,
Das horas longas a correr velozes.
O véu da noite me atormenta em
dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu
me estremece de cruéis receios.
É que esse vento que na várzea
— ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso
ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!
Ai! se abrasado crepitasse o
cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: — que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?
A labareda que se enrosca ao
tronco
Torrara a planta qual queimara o
galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!
Ai! se te visse no calor da
sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos
cabelos nas espáduas nuas! ...
Ai! se eu te visse, Madalena
pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os
braços frouxos — palpitante o seio!...
Ai! se eu te visse em
languidez sublime,
Na face as rosas
virginais do pejo,
Trêmula a fala, a
protestar baixinho...
Vermelha a boca,
soluçando um beijo!...
Diz: — que seria da pureza de
anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca — sobre um chão de brasas!
No fogo vivo eu me abrasara
inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As
pobres flores da grinalda virgem!
Vampiro infame, eu sorveria em
beijos
Toda a inocência que teu lábio
encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.
Depois... desperta no febril
delírio,
— Olhos pisados — como um vão
lamento,
Tu perguntaras: que é da minha
coroa?...
Eu te diria: desfolhou-a o
vento!...
Oh! não me chames coração de
gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És
bela — eu moço; tens amor, eu — medo!...
Casemiro de
Abreu
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha
infância querida
Que os anos não trazem
mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das
bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do
despontar da existência!
— Respira a alma
inocência
Como perfumes a flor;
O mar é
- lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um
hino d'amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce
alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu
bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua
beijando o mar!
Casemiro de
Abreu
Trago-te flores no meu canto
amigo
-Pobre grinalda com prazer tecida -
E - todo amores - deposito um beijo
Na
fronte pura em que desponta a vida.
É cedo ainda! - quando moça
fores
E percorreres deste livro os cantos,
Talvez que eu durma solitário e mudo
-Lírio pendido a que ninguém deu prantos! -
Então, meu anjo, compassiva e
meiga
Depõe-me um goivo sobre a cruz
singela,
E nesse ramo que o sepulcro implora
Paga-me as rosas desta infância bela!
Casemiro de
Abreu
Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em
rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem
pena
De mim!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu
vi!...
Valsavas:
- Teus belos
Cabelos,
Já soltos,
Revoltos,
Saltavam,
Voavam,
Brincavam
No
colo
Que é meu;
E os olhos
Escuros
Tão puros,
Os olhos
Perjuros
Volvias,
Tremias,
Sorrias,
P'ra
outro
Não eu!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
- Eu
vi!...
Meu Deus!
Eras bela
Donzela,
Valsando,
Sorrindo,
Fugindo,
Qual silfo
Risonho
Que
em sonho
Nos vem!
Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa,
Formosa,
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!
Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas,..
- Eu
vi!...
Calado,
Sózinho,
Mesquinho,
Em zelos
Ardendo,
Eu
vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!
Eu triste
Vi tudo!
Mas
mudo
Não tive
Nas galas
Das salas,
Nem falas,
Nem cantos,
Nem prantos,
Nem voz!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues
Não mintas...
- Eu vi!
Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada,
Turbada!
Pensavas,
Cismavas,
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida,
Caída
Sem vida.
No chão!
Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
- Não negues,
Não mintas...
Eu
vi!
Casemiro de
Abreu
Todos cantam sua
terra,
Também vou cantar a minha,
Nas
débeis cordas da lira
Hei de fazê-la
rainha;
– Hei de dar-lhe a
realeza
Nesse trono de beleza
Em que a mão
da natureza
Esmerou-se em quanto tinha.
Correi pr’as bandas do
sul:
Debaixo dum céu de anil
Encontrareis
o gigante
Santa Cruz, hoje Brasil;
– É uma
terra de amores
Alcatifada de flores
Onde
a brisa fala amores
Nas belas tardes de
Abril.
Tem tantas belezas,
tantas,
A minha terra natal,
Que nem as
sonha um poeta
E nem as canta um mortal!
–
É uma terra encantada
– Mimosa jardim de fada
–
Do mundo todo invejada,
Que o mundo não
tem igual.
Não, não tem, que Deus
fadou-a
Dentre todas – a primeira:
Deu-lhe
esses campos bordados,
Deu-lhe os leques da
palmeira,
E a borboleta que adeja
Sobre as
flores que ela beija,
Quando o vento
rumoreja
Na folhagem da mangueira.
É um país majestoso
Essa
terra de Tupã,
Desd’o Amazonas ao
Prata,
Do Rio Grande ao Pará!
– Tem
serranias gigantes
E tem bosques
verdejantes
Que repetem incessantes
Os
cantos do sabiá.
Ao lado da cachoeira,
Que
se despenha fremente,
Dos galhos da
sapucaia.
Nas horas do sol ardente,
Sobre
um solo d’açucenas,
Suspensas a rede de
penas
Ali nas tardes amenas
Se embala o
índio indolente.
Foi ali que noutro tempo
À
sombra do cajazeiro
Soltava seus doces
carmes
O Petrarca brasileiro;
E a bela que
o escutava
Um sorriso deslizava
Para o
bardo que pulsava
Seu alaúde fagueiro.
Quando Dirceu e Marília
Em
terníssimos enleios
Se beijavam com
ternura
Em celestes devaneios:
Da selva o
vate inspirado,
O sabiá namorado,
Na
laranjeira pousado
Soltava ternos
gorjeios.
Foi ali, no Ipiranga,
Que com
toda a majestade
Rompeu de lábios
augustos
O brado da liberdade;
Aquela voz soberana
Voou na
plaga indiana
Desde o palácio à
choupana,
Desde a floresta à cidade!
Um povo ergueu-se
cantando
– Mancebos e anciãos –
E, filhos
da mesma terra,
Alegres deram-se as
mãos;
Foi belo ver esse povo
Em suas
glórias tão novo,
Brandando cheio de
fogo:
– Portugal! Somos irmãos!
Quando nasci, esse brado
Já
não soava na serra
Nem os ecos da
montanha
Ao longe diziam – guerra!
Mas não
sei o que sentia
Quando, a sós, eu
repetia
Cheio de nobre ousadia
O nome da
minha terra!
Se brasileiro
nasci
Brasileiro hei de morrer,
Que um
filho daquelas matas
Ama o céu que o viu
nascer;
Chora, sim, porque tem prantos,
E
são sentidos e santos
Se chora pelos
encantos
Que nunca mais há de ver.
Chora, sim, como
suspiro
Por esses campos que eu amo,
Pelas
mangueiras copadas
E o canto do
gaturamo;
Pelo rio caudaloso,
Pelo prado
tão relvoso,
E pelo tiê formoso
Da
goiabeira no ramo!
Quis cantar a minha
terra,
Mas não pode mais a lira;
Que outro
filho das montanhas
O mesmo canto
desfira,
Que o proscrito, o desterrado,
De
ternos prantos banhado,
De saudades
torturado,
Em vez de cantar – suspira!
Tem tantas belezas,
tantas,
A minha terra natal,
Que nem as
sonha um poeta
E nem as canta um
mortal!
Casemiro de
Abreu
Quando sentires da tristeza o
véu
Cobrir-te a alma a soluçar de
dor,
Tudo perdido, as esperanças mortas,
A
vida escura sem nenhum calor...
Quando sentires, nessas noites
longas,
Que a tua alma em sofrimento
atroz
Perdeu o rumo, como perde o
barco
Por entre a onda em vendaval
feroz...
E na amargura em que tu te
consomes
Ninguém te ajuda, nem um peito
só;
E quando vires que os amigos
falsos,
Inda te cobrem de mais lodo e
pó...
É nesse instante que na
escuridão
(Anjo celeste que enviou
Jesus!)
Alguém o pranto que teus olhos
vertem,
Aflito enxuga irradiando luz!,
Anjo da Guarda de bondade
imensa,
Cuja missão é dirigir-te o
passo,
Contigo sofre porque não o
ouviste,
E te atiraste ao traiçoeiro
laço!
Oh! Quantas vezes! Quantas
vezes! Quantas!
Tu, fascinado com a ilusão do
mundo,
Ouviste o Anjo segredar
baixinho:
"Foge depressa, que o abismo é
fundo!"
Cumpre este Anjo sob a Luz do
Cristo
Missão sublime que lhe deu Maria:
A
de velar-te - não importa a hora,
Seja de
noite, madrugada ou dia!
Quantas virtudes seu trabalho
exige
Para realizar-se em teu escuro
mundo:
Dedicação, que nem as mães
possuem!
A humildade e um amor
profundo!
Nos manicômios, no asilo ou
creches,
Nos hospitais ou nas prisões
cruéis,
Todos que sofrem nunca estão
sozinhos,
Nem mesmo as moças dos fatais
bordéis!
Por que não tentas conversar
com o Guia?
Ouvi-lo podes através da
mente!
E Anjo da Guarda tem visão do
Cosmos!
E vê além deste viver presente!
Assim fazendo, encurtarás as
provas
Que se acumulam no passar do
dia;
Adeus tristezas, sofrimento,
tédio!
Ouve inda hoje a sábia voz do
Guia!
Psicografado por Jorge
Rizzini
Revista Internacional de Espiritismo
– Julho de 2000.
Casemiro de
Abreu
Espírito reencarnando
No
corpo que te contém,
Ante as provas
necessárias,
Espera fazendo o bem.
Se aguardas
tranqüilidade
Na luta que te advém,
Em
qualquer lance da estrada,
Espera fazendo o
bem.
Exerces muitos
encargos,
Sem apoio de ninguém...
Não te
queixes nem reclames,
Espera fazendo o
bem.
Sobre a tarefa em que
vives,
Muita pedra sobrevém,
Sê fiel à
obrigação,
Espera fazendo o bem.
Calúnia veio ferir-te
Sem
que se saiba de quem,
Não somes forças das
trevas,
Espera fazendo o bem.
Padeces
desilusão,
Sarcasmo,insulto, desdém...
Não
permutes mal com mal,
Espera fazendo o
bem.
Lamenta pesares,
golpes,
Choras o escárnio de
alguém,
Tristeza não edifica,
Espera
fazendo o bem.
Alguém te falou com
mágoa
Do lodo que o mundo tem,
Contempla o
céu, fita o sol...
Espera fazendo o
bem.
Se queres felicidade
Na
terra e no mais além,
Não te afastes do
serviço,
Espera fazendo o bem.
DEUS é Pai justo e
Perfeito,
Dá tudo, nada retém,
Se anseias
vida mais alta,
Espera fazendo o bem.
Mensagem recebida pelo médium
FCX. Em reunião pública do lar Espírita de
Lázaro, na noite de 28.11.67, em Uberaba – Minas
Gerais.
