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Carlos Souto Pena
Filho
Nasceu em
17/05/1929 no Recife - PE
Morreu no
dia 11/07/1960 - Recife - PE
R 
SONETO
DO
Carlos Pena Filho
Então, pintei de azul os meus
sapatos por não poder de azul pintar as
ruas, depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as
tuas,
Para extinguir em nós o azul ausente e
aprisionar no azul as coisas gratas, enfim,
nós derramamos simplesmente azul sobre os
vestidos e as gravatas.
E
afogados em nós, nem nos lembramos que no
excesso que havia em nosso espaço pudesse
haver de azul também cansaço.
E
perdidos de azul nos contemplamos e vimos que
entre nós nascia um sul vertiginosamente
azul. Azul.
Carlos Pena Filho
Senhora de muito espanto, vestindo
coisas longínquas e alguns farrapos de
sono,
eu
vim para te dizer que inutilmente
contemplo na planície de teus olhos o
incêndio do meu orgulho.
Senhora de muito espanto, sentada além
do crepúsculo e perfeitamente alheia a
realejos e manhãs.
Eu
vim para te mostrar que se inaugurou um
abismo vertical e indefinido que vai do
meu lábio arguto ao chumbo do teu
vestido.
Senhora de muito espanto e alguns
farrapos de sono, onde o céu é coisa
gasta que ao meu gesto se
confunde.
Um
dia perdi teu corpo nas cores do
mapa-múndi.
DO
HOMEM
SENSATO
Carlos Pena Filho
Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era
assim...” Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.
Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui: Foi
mais que longa a vida que eu vivi, para ser
em lembranças prolongada.
Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada, ave que
nasce e em vôo se arremeda,
deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada, como uma
luz, mais que distante, breve.
Navegador de bruma e de
incerteza, Humilde me convoco e visto
audácia E te procuro em mares de
silêncio Onde, precisa e límpida,
resides.
Frágil, sempre me perco, pois
retenho Em minhas mãos desconcertados
rumos E vagos instrumentos de procura Que,
de longínquos, pouco me auxiliam.
Por
ver que és claridade e
superfície, Desprendo-me do ouro do meu
sangue E da ferrugem simples dos meus
ossos, E te aguardo com loucos
estandartes
Coloridos por festas e batalhas. Aí,
reúno a argúcia dos meus dedos E a precisão
astuta dos meus olhos E fabrico estas rosas
de alumínio
Que, por serem metal, negam-se
flores Mas, por não serem rosas, são mais
belas Por conta do artifício que as
inventa.
Às
vezes permaneces insolúvel Além da chuva que
reveste o tempo E que alimenta o musgo das
paredes Onde, serena e lúcida, te
inscreves.
Inútil procurar-te neste
instante, Pois muito mais que um peixe és
arredia Em cardumes escapas pelos
dedos Deixando apenas uma promessa leve De
que a manhã não tarda e que na vida Vale mais
o sabor de reconquista.
Então, te vejo como sempre foste, Além
de peixe e mais que saltimbanco, Forma
imprecisa que ninguém distingue Mas que a
tudo resiste e se apresenta Tanto mais pura
quanto mais esquiva.
De
longe, olho teu sonho inusitado E dividido em
faces, mais te cerco E se não te domino então
contemplo
Teus pés de visgo, tua vogal de
espuma,
E
sei que és mais que astúcia e
movimento, Aérea estátua de silêncio e
bruma.
Carlos Pena
Filho
Deu-lhe a mais limpa manhã Que o tempo
ousara inventar. Deu-lhe até a palavra
lã, E mais não podia dar.
Deu-lhe o azul que o céu
possuía Deu-lhe o verde da
ramagem, Deu-lhe o sol do meio dia E uma
colina selvagem.
Deu-lhe a lembrança passada E a que
ainda estava por vir, Deu-lhe a bruma
dissipada Que conseguira reunir.
Deu-lhe o exato momento Em que uma
rosa floriu Nascida do próprio vento; Ela
ainda mais exigiu.
Deu-lhe uns restos de luar E um
amanhecer violento Que ardia dentro do
mar. Deu-lhe o frio
esquecimento E mais não podia dar. Ir para
o topo da página A
solidão e o seu desgaste
Freqüentador da solidão, às vezes Jogava
ao ar um desespero ou outro, Mas guardava os
menores objetos Onde a vida morava e o amor
nascia.
Era
uma carga enorme e sem sentido, Um silêncio
magoado e impermeável... A solidão povoada de
instrumentos, Roubando espaço à andeja
liberdade.
Mas, hoje, é outro que nem lembra
aquele Passeia pelos campos e os
despreza E porque sabe com certeza
clara,
O
princípio e o fim da coisa amada, Guarda
pouco da vida e o que retém É só pelo
impossível de eximir-se. Ir para o
topo da página A solidão e sua porta
Quando mais nada resistir que
valha A pena de viver e a dor de amar E
quando nada mais interessar (Nem o torpor do
sono que se espalha)
Quando pelo desuso da navalha A barba
livremente caminhar E até Deus em silêncio se
afastar Deixando-te sozinho na batalha
A
arquitetar na sombra a despedida Deste mundo
que te foi contraditório Lembra-te que afinal
te resta a vida
Com tudo que é insolvente e
provisório
E
de que ainda tens uma saída Entrar no acaso e
amar o
transitório.
Carlos Pena Filho
Tome um pouco de azul, se a
tarde é clara, E espere um instante
ocasional Neste curto intervalo Deus
prepara E lhe oferta a palavra
inicial
Ai,
adote uma atitude avara Se você preferir a
cor local Não use mais que o sol da sua
cara E um pedaço de fundo de
quintal
Se
não procure o cinza e esta vagueza Das
lembranças da infância, e não se
apresse Antes, deixe levá-lo a
correnteza Mas ao chegar ao ponto em que se
tece
Dentro da escuridão a vã certeza Ponha
tudo de lado e então comece. Ir para o topo
da página Retrato do
pintor Reinaldo Fonseca
Mas
tanta cor não cabe neste espaço e arrebenta
os limites que a circundam as meninas de luto
que aqui dormem dentro do próprio sono se
equilibram
Em
tuas mão manchadas de ternura, pousam brancos
pássaros. por isso falas atrás da sombra, e à
luz mais forte ruminas teu silêncio
inquebrantável
Se
o que possui o céu de puro e simples algum
dia cair sobre o teus ombros imperturbável,
pintarás um anjo
E nunca mais palavras além da
sombra
que
o que restar de ti será somente o profundo
silêncio inquebrantável
COM MADAME
Carlos Pena Filho
Madame,
em vosso claro olhar, e leve, navegam
coloridas geografias, azul de litoral,
paredes frias, vontade de fazer o que não
deve
ser
feito, por ser coisa de outros dias vivida
num instante muito breve, quando extraímos
sal, areia e neve de vossas mãos,
singularmente esguias.
Que
eternos somos, dúvida não tenho, nem posso
abandonar minha planície sem saber se em vós
há o que em vós venho
buscar. E embora em nós tudo nos
chame, jamais navegarei a superfície de
vosso claro e leve olhar, Madame.
Carlos Pena Filho
Eu quase te busquei entre
os bambus para o encontro campestre de
janeiro porém, arisca que és, logo
supus que há muito já compunhas
fevereiro.
Dispersei-me na curva como a luz do
sol que agora estanca-se no outeiro e assim
também, meu sonho se reduz de encontro ao
obstáculo primeiro.
Avançada no tempo, te perdeste sobre o
verde capim, atrás do arbusto que nasceu
para esconder de mim teu busto.
Avançada no tempo, te esqueceste como
esqueço o caminho onde não vou e a face que
na rua não passou.

Carlos Pena Filho
Num recanto sem data e sem
ternura, E mais, sem pretensão a ser
recanto, Descobri em teu corpo o amargo
canto De que despenca para a
desventura.
Há
nos recantos sempre uma segura Desvantagem de
unir o desencanto E é por isso talvez que não
me espanto De ali perder teu corpo e a
ventura.
De
viver entre atento e descuidado, Mirando o
pardo tédio que descansa Nos subúrbios do
amor desmantelado.
E
só para ganhar mais espessura Eu resolvi
fazer esta lembrança De um recanto sem data e
sem ternura.
Carlos Pena Filho
Não falarei de coisas, mas
de inventos e de pacientes buscas no
esquisito. Em breve, chegarei à cor do
grito, à música das cores e do
vento.
Multiplicar-me-ei em mil
cinzentos (desta maneira, lúcido, me
evito) e a estes pés cansados de
granito saberei transformar em cataventos.
Daí, o meu desprezo a jogos claros e
nunca comparados ou medidos como estes meus,
ilógicos, mas raros.
Daí
também, a enorme divergência entre os dias e
os jogos, divertidos e feitos de beleza e
improcedência.
 SONETO
DAS
METAMORFOSES
Carlos Pena Filho
Carolina, a cansada, fez-se espera e
nunca se entregou ao mar antigo. Não por
temor ao mar, mas ao perigo de com ela
incendiar-se a primavera.
Carolina, a cansada que então
era, despiu, humildemente, as vestes
pretas e incendiou navios e corvetas já
cansada, por fim, de tanta espera.
E
cinza fez-se. E teve o corpo
implume escandalosamente penetrado de
imprevistos azuis e claro lume. Foi
quando se lembrou de ser esquife: abandonou
seu corpo incendiado e adormeceu nas brumas
do Recife.
PARA
GRETA
GARBO Carlos Pena
Filho
Entre silêncio e sombra se
devora e em longínquas lembranças se
consome tão longe que esqueceu o próprio
nome e talvez já não sabe por que
chora
Perdido o encanto de esperar agora o
antigo deslumbrar que já não
cabe transforma-se em silêncio por que
sabe que o silêncio se oculta e se
evapora
Esquiva e só como convém a um
dia despregado do tempo, esconde a tua
face que já foi sol e agora é cinza
fria
Mas
vê nascer da sombra outra alegria como se o
olhar magoado contemplasse o mundo em que
viveu, mas que não via.
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Parkernature
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