Hoje que a mágoa me
apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz,
imensa,
Eu a bendigo da descrença em
meio,
Porque eu hoje só vivo da
descrença.
À
noite quando em funda soledade
Minh'alma se
recolhe tristemente,
Pra iluminar-me a alma
descontente,
Se acende o círio triste da
Saudade.
E
assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor
e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida
à dor e ao sofrimento,
Da
saudade na campa enegrecida
Guardo a
lembrança que me sangra o peito,
Mas que no
entanto me alimenta a vida.
Quando
nasci, num mês de tantas flores,
Todas
murcharam, triste, langorosas,
Tristes
fanaram redolentes rosas,
Morreram todas,
todas sem olores.
Mais tarde da existência nos
verdores
Da infância nunca tive as
venturosas
Alegrias que passam
bonançosas,
Oh! Minha infância nunca teve
flores!
Volvendo a quadra azul da
mocidade,
Minh'alma levo aflita à
Eternidade,
Quando a morte matar meus
dissabores.
Cansado de chorar pelas
estradas,
Exausto de pisar mágoas
pisadas,
Hoje eu carrego a cruz das minhas
dores!
Oh!
madrugada de ilusões, santíssima,
Sombra
perdida lá do meu Passado,
Vinde entornar a
clâmide puríssima
Da luz que fulge no ideal
sagrado!
Longe das tristes noites
tumulares
Quem me dera viver entre
quimeras,
Por entre o resplandor das
Primaveras
Oh! madrugada azul dos meus
sonhares.
Mas
quando vibrar a última balada
Da tarde e se
calar a passarada
Na bruma sepulcral que o
céu embaça
Quem me dera morrer então
risonho
Fitando a nebulosa do meu sonho
E
a Via-Láctea da Ilusão que passa!

Não
enterres, coveiro, o meu Passado,
Tem pena
dessas cinzas que ficaram;
Eu vivo d'essas
crenças que passaram,
E quero sempre tê-las
ao meu lado!
Não, não quero o meu sonho
sepultado
No cemitério da Desilusão,
Que
não se enterra assim sem compaixão
Os
escombros benditos do Passado!
Ai!
não me arranques d'alma este conforto!
-
Quero abraçar o meu Passado morto
- Dizer
adeus aos sonhos meus perdidos!
Deixa ao menos que eu suba à
Eternidade
Velado pelo círio da
Saudade,
Ao dobre funeral dos tempos
idos!
Entre o gozo que aspiro, e o
sofrimento
De minha mocidade,
experimento
O mais profundo e abalador
atrito...
Queimam-me o peito cáusticos de
fogo
Esta ânsia de absoluto
desafogo
Abrange todo o círculo
infinito.
Na
insaciedade desse gozo falho
Busco no
desespero do trabalho,
Sem um domingo ao
menos de repouso,
Fazer parar a máquina do
instinto,
Mas, quanto mais me desespero,
sinto
A insaciabilidade desse
gozo!
No
tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma
vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes
com a canseira
De inexorabilíssimos
trabalhos.
Hoje, esta árvore, de amplos
agasalhos,
Guarda, como uma caixa
derradeira,
O passado da Flora
Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!
Quando pararem todos os relógios
De
minha vida, e a voz dos necrológios
Gritar
nos noticiários que eu morri,
Voltando à pátria da
homogeneidade,
Abraçada com a própria
Eternidade
A minha sombra há de ficar
aqui!