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Artur
Nabantino Gonçalves de Azevedo,
jornalista, poeta, contista e teatrólogo,
Nasceu em São Luís, MA, em 7
de julho de 1855, Morreu no Rio de Janeiro,
RJ, em 22 de outubro de 1908.
Figurou, ao lado do irmão
Aluísio de Azevedo, no grupo fundador da
Academia Brasileira de Letras, onde criou a
Cadeira n. 29, que tem como patrono Martins
Pena.
VIAGEM AO
PARNASO Artur Azevedo
(teatro)
Revista fluminense em três atos e dez
quadros.
PERSONAGENS:
LAURA CUPIDO A IMPRENSA
FLUMINENSE A ARTE DRAMÁTICA NACIONAL O
VARIEDADES UMA SOGRA UMA SENHORA
INCONSOLÁVEL UM ATRIZ ESPANHOLA UMA
SENHORA ARGENTINA UM NOVO UM
APOSENTADO A FÊNIX DRAMÁTICA TÁLIA UMA
MULHER POLÍTICA UMA ATRIZ UMA
NOIVA OUTRA SENHORA
INCONSOLÁVEL EUTERPE UMA MULHER
POLÍTICA OUTRA ATRIZ UMA IRMÃ DE
CARIDADE POLÍMNIA OUTRA MULHER
POLÍTICA APOLO ALBERTO UM POETA O
LUCINDA O HOMEM DOS ÓCULOS JOSÉ UM
TRANSEUNTE O SUTIL UM
JOGADOR MELO UM HOMEM BARBADO UM
ATOR UM PINTOR UM OPERÁRIO OUTRO
PORTA O PRIMO O TEATRO LÍRICO UM MEMBRO
DO PARTIDO CATÓLICO O CHEFE DO BATALHÃO
PATRIÓTICO OUTRO POETA O INTENDENTE DE
POLÍCIA O TESOUREIRO DA SOCIEDADE DOS HOMENS
DE LETRAS UM CARROCEIRO OUTRO POETA O
SANTANA UM HOMEM BARBADO UM SOLDADO DO
BATALHÃO PATRIÓTICO OUTRO POETA OUTRO
APOSENTADO O RECREIO UM OPERÁRIO UM
SUJEITO OUTRO SOLDADO DO BATALHÃO
PATRIÓTICO O POLITEAMA O SEIXAS OUTRO
SOLDADO DO BATALHÃO PATRIÓTICO O SÃO
PEDRO UM HOMEM, que vem ao leilão de São
Cristóvão Amores, musas, poetas, aposentados,
mulheres políticas, atores, pessoas do povo,
operários, argentinos novos, soldados do
Batalhão Patriótico, etc.
ATO
PRIMEIRO
Quadro 1
Cenário de Carrancini
Sala preparada ao gosto moderno em casa
de Melo. Preparos para escrever. Na parede,
sobre uma peanha (pequeno
pedestal) a estátua de Vênus de Milo.
É de manhã cedo.
CENA I
LAURA, depois GILBERTO.
Dueto
LAURA (Entrando)
-
Na extrema do horizonte A aurora
despontou: Vou ver o meu
Gilberto, Beijar-lhes os lábios
vou!
A
VOZ DO GILBERTO
-
Nos paramos risonhos A purpurina
aurora Doura A pudibunda flor... Aos
olhos meus te guardas! Tardas, Oh! meu
querido amor!
LAURA -
- É
ele! É ele!... O coração me impele... E
fala-me a razão; Mas a razão sucumbe e vence
o coração.
(Vai abrir uma janela e acena para a rua.
O palco ilumina-se; Gilberto, embuçado num
capote, entra pela janela.)
LAURA - Oh! meu Gilberto!
GILBERTO -
-
Oh! minha doce amada! Oh! que hora
afortunada! Vivamos ambos Sempre
juntinhos, Quais dois pombinhos, Meigos e
sós! E, a não gozarmos Tão bela
sorte, Antes a morte Nos leve a
nós!
GILBERTO -
-
Eu quero um beijo, Um beijo só! Do meu
desejo, Meu bem, tem dó.
LAURA -
-
Não tens um beijo, Nem mesmo um só, Do teu
desejo Não tenho dó. Quando eu for sua
mulher, Dar-lhos-ei quantos
quiser...
GILBERTO -
-
Tenho ou não tenho? Dá ou não
dá?
LAURA -
-
Fazes empenho? Pois toma-o lá!
(Beijam-se.)
Juntos
GILBERTO................................
LAURA
-
Deste-me um beijo! ......- Que tem um
beijo, Deste-me um só! .............Quando é
um só? Do meu desejo ..................Do teu
desejo Tiveste dó!
.........................Eu tive
dó!
GILBERTO - Podemos conversar sem receio?
Teu pai, o Senhor Melo ainda dorme?
LAURA - Papai, a estas horas, já deve
estar inteiramente entregue à Musa. Não há nada
que o arranque a esse prazer.
GILBERTO - Ah! Laura! Laura! como sou
feliz quando a teu lado me deslumbra a luz de
teus olhos e me embriaga o perfume de teus
cabelos!
LAURA - Deixa-te de lirismos, e vamos ao
que serve. Se te concedi mais esta entrevista,
foi porque tinha um pedido a fazer-te. É preciso
acabar com estes encontros.
GILBERTO - Isto é! Tu expões-te à
maldição paterna, e eu a uma carga de pau, o que
é pior! Não facilitemos!
LAURA - É muito fácil dizer "Não
facilitemos". Mas quem pode sopitar os arroubos
de um coração de dezessete anos?
GILBERTO - Quem pode resistir a uma
janela de um metro e cinqüenta centímetros de
altura?
LAURA - Há um único meio de acabarmos com
isso: o casamento.
GILBERTO - Do casamento tenho-te eu
falado um milhão de vezes, e se até hoje ainda
não pedi a tua mão, não te deves queixar senão
de ti mesma. A culpa tem sido tua.
LAURA - É verdade que te tenho
aconselhado que o não faças; hoje, porém, penso
ao contrário.
GILBERTO - O contrário? Ainda bem! Mas
que motivos eram esses que te levavam a
aconselhar-me a que te não pedisse?
LAURA - Pois nunca tos
disse?
GILBERTO - Nunca.
LAURA - Papai tem a mania de fazer
versos, sem que, para isso, houvesse sido fadado
pela natureza... - Não fala noutra coisa: é
poesia para cá, poesia para acolá! Tem até um
criado que faz versos, e mesmo os
improvisa!
GILBERTO - O Albino?
LAURA - O Albino. Não sabes que é
obrigado a não falar senão em
verso?
GILBERTO - Deveras?
LAURA - Foi essa uma das condições da sua
admissão nesta casa.
GILBERTO - Por isso é que o outro dia,
estando teu pai sentado a tomar fresco no
Passeio Público, o Albino aproximou-se dele, e
disse-lhe:
"Meu amo, está posta a mesa Vá para
casa jantar; A menina com certeza Não pode
mais esperar."
LAURA - Vê tu que desaforo! O metro e a
rima obrigam-no a pregar mentira:
"A
menina com certeza Não pode mais
esperar!"
Não
imaginas que comédia! Papai, quando quer fazer
versos, bate. na testa, olha para o teto, conta
sílabas nos dedos, faz trinta mil caretas, e não
consegue nada. Afinal chama pelo Albino
e...
GILBERTO - É original!
LAURA - Mas vamos ao que importa. Acho
que papai não será capaz de dar-me em casamento
a um homem que não seja poeta. Todos os dias ele
me diz: "Minha filha a prosa é terrena e vil, a
poesia é celeste e nobre!" Não te engraces de
algum marreco que não conheça as nove filhas de
Apolo!
GILBERTO (Resolutamente.) - Ora! hoje
mesmo venho pedir-te em casamento. Teu pai,
provavelmente, pergunta se sou poeta. Nada mais
simples: dir-lhe-ei que sim.
LAURA - E depois?
GILBERTO - Depois, não me custará ter
também, como ele, o meu alter-ego. Depois que
estivermos casados, dir-lhe-ei a verdade, e ele
nada poderá fazer.
LAURA - Bravo! És um rapaz
decidido.
GILBERTO - Virei hoje mesmo.
LAURA - Não te acanhes. Apresenta-te com
todo desembaraço!
GILBERTO - Tranqüiliza-te! (Ouve-se Melo
tossir.)
[LAURA] - Aí vem papai.
Foge!
GILBERTO - Ora! no melhor da festa!
(Beija-a e salta pela janela. Melo entra a ler
um papel.)
LAURA (Consigo, enquanto Melo desce ao
proscênio.) - Ora! O Gilberto podia ter ficado.
Papai, quando está com a Musa, não dá pela
presença de ninguém.
CENA II
LAURA e MELO
MELO (A ler.)
-
Em seu carro doirado o dino Febo Vem dando ao
horizonte rubra cor...
(Pensa e repete
pausadamente.)
Vem
dando ao horizonte rubra...
LAURA - Como passou a noite,
papai?
MELO (Sem lhe dar ouvido.)
-
Vem dando ao horizonte rubra cor...
LAURA (À parte.) - É sempre assim!
(Alto.) Papai, como passou a noite?
MELO (Sem desviar os olhos do
papel.)
-
Adeus. Em seu carro doirado o dino
Febo.
(Sem olhar para Laura.) Ó
menina?
LAURA - Papai?
MELO - Dás-me uma rima para
Febo?
LAURA - Cego.
MELO - Cega estás tu, minha tonta.
(Lê.)
Em
seu carro doirado o dino Febo Vem dando ao
horizonte rubra cor...
(Declamando.) Não fica bom. Este dino
Febo é o diabo (Pensando.) Em seu carro doirado
o Febo dino... Febo dino ainda é pior que dino
Febo. Parece que se trata de alguém que se chama
Febodino.
Em
seu carro doirado Febodino...
Já
não sei a quantas ando. (Chamando.) Ó Albino.
(Limpa o suor e continua.)
Em
seu doirado carro Febo... Febo...
Copla
Oh!
que inferno! Fico tonto! Tenho as fontes a
estalar! Pois já pronto ou quase
pronto Isto aqui devia estar! Virgem
Santa! perco o juízo! Doido a musa me há de
pôr! Nunca faço um improviso Sem três dias
de labor!
(Entra Albino.)
CENA III
MELO, LAURA e ALBINO
MELO - Ah! vem cá, meu rapaz, tira-me
deste embaraço. Quero dizer em verso a coisa
mais natural deste mundo... quando é em prosa.
Amanhã faz anos o Comendador Lopes, que é meu
compadre. É meu costume felicitá-lo todos os
anos com um improviso, e hoje, mais do que nos
outros anos, vem a propósito a versalhada,
porque ele está na diretoria de três bancos e de
seis companhias, é tesoureiro de uma loteria, e
já anda de carro próprio. O Comendador faz
quarenta anos amanhã. Principiei
assim:
Em
seu carro doirado o dino Febo Vem dando ao
horizonte rubra cor...
(Albino toma o papel com ares de
importância, escreve com um lápis, e depois lê o
que escreveu, tendo escarrado e batido na
testa.)
ALBINO - No carro seu doirado a roxa
Aurora...
MELO (Satisfeito.) - Sim, senhor. Não me
lembrei da aurora!
ALBINO - Vem dando aos horizontes rubra
cor...
MELO - Esse rubra cor não está duro,
Albino?
ALBINO -
-
Duro não, senhor meu amo; É mesmo frase
elegante; Se rubra em vogal termina, Cor
começa em consoante.
MELO (A Laura, que se tem conservado
afastada.) - Que cabeça!...
ALBINO (Lendo.)
-
No carro seu doirado, a roxa aurora Vem dando
aos horizontes rubra cor; Em dia tão gentil
se comemora O aniversário do
Comendador!
MELO - Dá-me um abraço,
vate!...
ALBINO (Modestamente.)
-
Uma honra assim tamanha Eu não mereço
decerto, Mas, enfim, como o deseja, Nos
braços meus o aperto. (Abraça-o.)
MELO (Tomando o papel.) - Agora vou para
a quietude do meu gabinete improvisar as outras
estrofes. Em eu precisando de ti...
ALBINO -
- É
só gritar por meu nome; Lá irei ter às
carreiras, A auxiliar esse
estro...
(Procurando o último verso.)
A
auxiliar-vos o estro...
MELO (Fechando a cara.) - A rima, rima,
ou levas multa!
ALBINO (Vivamente.) - Com meia dúzia de
asneiras.
MELO (Satisfeito.) - Ahn... (Saindo a
ler.)
No
carro seu doirado a roxa Aurora,
etc.
(Perde-se a voz no
bastidor.)
CENA IV
LAURA, ALBINO
LAURA - Forte mania!
ALBINO - Que quer a menina? Aquilo
anda-lhe na massa do sangue! Nunca me hei de
esquecer daquele dia em que li no Jornal do
Commercio um anúncio concebido nos seguintes
termos: "Precisa-se de um criado poeta, que faça
e improvise versos. Quem se achar nas condições
dirija-se à rua tal, número tantos. Paga-se bem,
agradando." A menina quer saber quem eu era? (Ao
repente da orquestra.) Faz o favor de tocar em
surdina a música do "Era no outono quando a
imagem tua."? Aquela? Trá lá lá rá lá rá.
(Recita ao som da música.)
Eu
era um pobre trovador de esquina; Sempre
mofina a minha vida foi; Desenvolvia
inteligência e arte Pra minha parte
conquistar do boi.
Passava as belas noites ao relento, A
chuva e ao vento, e era meu leito o chão, Eu
nisso achava singular delícia Quando a
polícia não me punha a mão.
Mas
não vi nunca no xadrez infame Negro vexame,
ríspido labéu; Olhava o povo a passear na
rua, E olhava a lua a passear no
céu.
Ai!
quantas vezes célicas venturas Lá nas escuras
estações gozei! Mesmo entre ferros negros e
medonhos, Sonhava sonhos que não sonha um
rei!
Nisto, menina, de seu pai o
anúncio Foi o prenúncio de um viver
melhor! Abençoadas estas quatro
linhas! Emprego tinhas, vagabundo
mor!
Vim
para casa de seu pai, menina; Fome canina não
padeço, já... Levo de perna alçada o dia
inteiro; Ganho dinheiro e não me canso -, aí
está!
(Declamando.) Todas essas regalias sob
condição de falar só em verso, quando estiver na
presença dele, já se sabe. Nas respostas, devo
empregar redondilhas em quadras, rimando a
segunda com a quarta. Nos recados, quadras
também, rimando o primeiro verso com o quarto.
Todas as vezes que me faltar a rima, pagarei uma
multa, que será descontada no fim do mês, salvo
o caso do verso solto em hendecassílabos,
admissível nas longas narrações.
LAURA - Não sabia desse
regulamento.
ALBINO - Aceitei contente o meu difícil
papel, e desde então...
A
voz DE MELO - Ó Albino!
ALBINO - Lá está ele a
chamar-me!
A
VOZ - Albino!
ALBINO - Lá vai quadra.
(Gritando.)
Aí
vou, senhor meu amo, Eu não me faço
esperar...
(Sai a correr. Não se ouve o
resto.)
CENA V
LAURA, [só]
LAURA (Vai à janela e volta tristemente
ao proscênio.) - Se papai se lembra de pôr à
prova a veia poética do meu Gilberto, aqui,
antes de lhe conceder a minha mão e sem que ele
tenha tido tempo de se preparar, está tudo
perdido! Oh! Gilberto, Gilberto do meu coração,
por que não és tu poeta? Por que não te aqueceu
no berço o bafejo ardente das Musas? Ingratas
Musas! O meu Gilberto, contudo, faz poemas...
Fá-los no coração... mas não os escreve:
sente-os.
ROMANCE
Infelizmente o meu amor Versos fazer
não sabe... Meu belo sonho encantador
Receio que desabe! Mas diga o velho o que
disser, Dele serei somente; Meu coração
deseja e quer Ser dele eternamente. Ó
Deus, que estais no céu, de mim tem dó! Vê
que o meu coração é dele só.
II
Viver não quero um instante assim,
Longe do meu Gilberto! Eu a seu lado, é
para mim O mundo um céu aberto. Se ele
comigo não casar, Eu perderei a vida, E a
imprensa toda há de falar De mais uma
suicida! Ó Deus, que estais no céu, de mim
tem dó! Vê que o meu coração é dele
só!
CENA VI
LAURA, ALBINO
ALBINO (Falando para
dentro.)
-
Não me deu nenhum trabalho Pedido tão
pequenino; Em precisando outra estrofe É
só chamar pelo Albino.
(Ouve-se tocar uma campainha.) Tocaram.
Quem será tão cedo? (Vai
espreitar.)
LAURA - Dar-se-á o caso que seja ele? (A
Albino.) Quem é?
ALBINO - Um moço.
LAURA - De cabelos pretos?
ALBINO - Sim, senhora.
LAURA - Estatura regular?
ALBINO - Sim, senhora.
LAURA - Bonito?
ALBINO - Sim, senhora.
LAURA - É ele!
ALBINO (Descendo.) - Sim, com certeza não
é ela.
LAURA - Sabes quem é?
ALBINO - Sei; é ele.
LAURA - Ele quem?
ALBINO - Não sei.
LAURA - Sei eu.
ALBINO - Quem é ele?
LAURA - Mais tarde saberás. (Vai ver
também e volta muito contente.) É ele! é ele!
trá lá rá lá rá!... Fá-lo entrar: vem procurar
papai. (Sai a correr.)
CENA VII
ALBINO, depois GILBERTO
ALBINO - É ele, não é ela, quem é, não
sei, sei eu, é ele! Hum... aqui anda coisa...
Meu amo, em vez de se ocupar da família,
ocupa-se da Musa... Há de dar bons burros ao
dízimo! (Novo toque de campainha.) Lá vai! lá
vai! (Vai abrir.)
GILBERTO (Entrando.) - O Senhor
Melo?
ALBINO - Está com a Musa.
GILBERTO - Com a...? (Compreendendo.) Ah!
sim! já sei, faz versos. A fama poética do
Senhor Melo já me chegou aos ouvidos. Faz bem,
faz muito bem... A prosa é terrena e vil, a
poesia é celeste e nobre. (Outro tom.) Posso
falar-lhe, ou o Senhor Melo, quando cultiva as
sete filhas de Apolo, não quer que o
interrompam?
ALBINO - Ainda que não seja costume entre
pessoas de boa sociedade fazer visitas antes do
almoço, o Senhor Melo não o fará
esperar.
GILBERTO - Vã preveni-lo, ande. Não
declino o meu nome. Seria ocioso. O Senhor Melo
não me conhece. (Senta-se.)
ALBINO (Saindo a gritar.)
-
'Stá cá fora um cavalheiro Que lhe deseja
falar.
(Perde-se o resto. Gilberto ergue-se
assustado.)
GILBERTO (Tranqüilizando-se.) - Ah!
sim... aquilo é por obrigação.
CENA VIII
GILBERTO, [só]
GILBERTO [(Só.)] A minha coragem vai a
pouco e pouco afrouxando. Nunca me senti tão
pouco poeta, nem tão apaixonado! Se antes do pai
me aparecesse a filha, ela me daria ânimo... Vem
alguém... É ele, é o Senhor Melo...
CENA IX
GILBERTO, MELO
MELO (Entrando, como na outra cena, a ler
um papel.)
-
Oito lustros há já que veio ao mundo Para a
ventura fazer do povo...
GILBERTO - Senhor Melo...
MELO (Sem se distrair.)
-
Oito lustros já há... Oito lustros há
já... Há já lustros oito. Já há oito... já
oito há... Sebo!... (De mau
humor.)
GILBERTO (À parte.) - Mau! (Alto.) Senhor
Melo...
MELO - Lustros oito já há.
(Atrapalhando-se.) Já há lustros
oitos...
(De
mau humor.) - Pílulas...
GILBERTO - Senhor Melo...
MELO -
-
Já lustros oito há... Há oito lustros
já...
(Agrada-lhe o verso.) Hein? Ora graças!
(Repete.)
Há
oito lustros já me veio ao mundo Para a
ventura deste povo fazer...
Está comprido!
GILBERTO - Senhor Melo...
MELO (Sem desviar os olhos do papel.) -
Viva! (Contando as sílabas nos dedos.)
Pa-ra-a-ven-tu-ra-des-te-po-vo-fa-zer. Tem uma
silaba de mais. (Poetando.) Para a ventura...
(Contando as sílabas como acima.)
Pa-ra-a-ven-tu-ra-fa-zer-do-po-vo.
Tem
uma sílaba de menos!
GILBERTO - Senhor Melo..
MELO (Como acima.) - Viva
(Poetando.)
Para a ventura... realizar o
povo.
(Agrada-lhe muito o verso, e fala
rapidamente sem desviar os olhos do papel.)
Depressa, senhor, depressa! Uma rima para povo.
(Estende os braços para Gilberto como para
receber a rima, e estala os dedos com
impaciência.)
GILBERTO (Atarantado.) -
Hein?
MELO - Uma rima para povo.
GILBERTO - Ovo!
MELO (Olha admirado para Gilberto, cai em
si, guarda os versos, e cumprimenta-o.) -
Senhor...
GILBERTO - Senhor Melo. (À parte.) - Com
esta é a sétima vez que digo Senhor
Melo!
MELO - Desculpe-me se o fiz esperar. A
Musa deu-me uma esfrega que me deixou a suar!
(Repete vagarosamente.)
A
Musa deu-me uma esfrega, Que me deixou a
suar...
GILBERTO (À parte.) - É
doido!
MELO - Como são as coisas! (Conta as
sílabas.)
A-mu-sa-deu-me-u-ma-es-fre-ga, Que-me-dei-xou-a-su-ar!
Batalho o dia inteiro para arranjar um
verso, ao passo que agora, involuntariamente,
improvisei dois. Sente-se, meu caro senhor, e,
antes de dizer o que o trouxe a esta sua casa,
permita que eu tome nota do
improviso.
GILBERTO - Pois não, à vontade.
(Senta-se.)
MELO (Indo escrever os dois versos e
repetindo-os.)
- A
Musa deu-me uma esfrega, Que me deixou a
suar...
(Guarda o que escreveu, e vai sentar-se
perto de Gilberto.) Nós, os poetas, devemos ter
sempre bem presente o adágio: guarda o que não
queres...
GILBERTO - E acharás o que
precisas.
MELO - Quem sabe se estes dois versos não
me poderão servir nalguma oportunidade? (Outro
tom.) Estou às suas ordens.
GILBERTO (À parte.) - É agora! (Alto,
tossindo.) Hum! Hum! Hum!
MELO - Hum! Hum! Hum! (À parte.) Vem
pedir-me versos!
GILBERTO - Senhor Melo, há três meses eu
estava na Rua da Candelária...
MELO - Foi comprar chá?
GILBERTO - Não fui comprar coisa alguma.
Estava sem dinheiro, e não tinha onde cair
morto. Ora, achando-me na Rua da Candelária,
lembrei-me de atravessar a Rua da Alfândega.
Atravessei. Quando cheguei à Rua Direita, tinha
cinqüenta contos de réis. Tornei a passar pela
Rua da Alfândega em sentido contrário e, quando
cheguei à da Quitanda, essa fortuna estava
duplicada.
MELO - Com efeito, foi uma fortuna
rápida... mas não admira, porque hoje arranja-se
com mais facilidade quinhentos contos que um
soneto.
GILBERTO - Autorizado por sua filha, a
Senhora Dona Laura, venho pedir-lha em
casamento.
MELO - Quer casar-se com minha filha?
Homem! por esta não esperava eu.
GILBERTO - Sou de boa família, tenho
perto de duzentos contos, gozo saúde, nunca fui
preso, e sou republicano histórico.
MELO - Faz versos?
GILBERTO - Hein?
MELO - Pergunto se é poeta.
GILBERTO - Sou... Sou... (Gesto de
satisfação de Melo.) Isto é... (Melo encara-o
muito sério. Com resolução.) Sou.
MELO - Ainda bem!
GILBERTO - A prosa é terrena e vil, a
poesia é celeste e nobre. Pois sua filha, a
filha de um poeta, era lá capaz de gostar de
quem não soubesse cultivar as sete filhas de
Apolo?
MELO - Sete?
GILBERTO - Sim, sete, pois não são sete?
(À parte.) Ai! Ai!
MELO - As Musas são nove, meu caro
senhor!
GILBERTO - Nove?
MELO - Não me consta que alguma tenha
morrido.
GILBERTO - Eu não quero teimar, mas
contemos. (Conta nos dedos.) Dó, ré, mi,
fá...
MELO - Isso são notas de
música!
GILBERTO - Ah! tem razão! tem razão! Onde
tenho eu a cabeça!
MELO (Naturalmente.) - Uma vez que o
senhor é poeta, peça-me a mão da pequena em
verso.
GILBERTO (À parte.) - Oh!
diabo!
MELO - Vamos! Ande! Improvise! Não esteja
a estudar.
GILBERTO - Mas...
MELO - Ah! Não há mas nem meio mas! É
poeta ou não é poeta!
GILBERTO - Sou assim um poeta da força do
Senhor Melo.
MELO - Pois bem, venha o pedido! Se o não
fizer, grogotó...
GILBERTO - Grogotó?
MELO - Galhetas. Grogotó galhetas, que é
o legítimo grogotó!
GILBERTO (À parte.) - E eu, que nunca fiz
um verso!
MELO - Então? Em que
ficamos?
GILBERTO (À parte.) - Ora! Saia O que
sair! (Atrapalhado.)
Eu
venho pedir-lhe a mão Da senhora sua filha,
Porque bate por ela o meu
peito...
MELO - Está duro.
GILBERTO - O meu peito?
MELO - Não, o verso. Diga outra vez do
princípio.
GILBERTO
-
Eu venho pedir-lhe a mão Da senhora sua
filha. Porque bate por ela o meu
peito...
MELO -
-
Aposto que vai concluir assim: E ela é uma
maravilha...
GILBERTO - Não, senhor.
Eu
venho pedir-lhe a mão Da senhora sua
filha, Porque bate por ela o meu peito E
quero pertencer à família.
MELO - Isso nunca foi verso, nem aqui nem
na casa do diabo!
GILBERTO - Mas, Senhor
Melo...
MELO - Pois bem, vai ver como sou
condescendente. Faço-lhe uma concessão. Vou
fechá-lo durante um quarto de hora nesta
sala.
GILBERTO - Fechar-me!
MELO - Durante este tempo há de escrever
uma poesia em que me peça a mão da pequena com
todos os ff e rr. Se, ao cabo de um quarto de
hora, não tiver feito nada, jamais será meu
genro. (Fecha as portas e a janela.) Aqui tem
papel e tinta! Até logo! São sete horas e um
quarto. Voltarei às sete e meia.
GILBERTO - Mas, Senhor Melo.
MELO - Olhe... ali está a deusa Vênus...
Peça-lhe que o inspire: é a Vênus de Milo. (Sai
e fecha a porta.)
CENA X
GILBERTO, só
GILBERTO [(Só.)] - Que situação! Enfim...
(Senta-se à mesa e escreve.) "Senhor Melo..."
Ora, Senhor Melo! "Senhor Melo" é o começo de
uma carta, e não o de uma poesia! (Depois de
pensar alguns instantes, ergue-se e atira fora a
pena.) Não arranjo nada!... (Dirigindo-se à
estatueta.) Ó Vênus de Melo... quero dizer, de
Milo... de Milo e de Melo... tu, que és a deusa
do Amor, concede-me o dom da poesia! Tira-me
desta entalação!
(Abre-se ao fundo, no lugar da estatueta,
uma gruta florida por onde entra Cupido,
acompanhado de Amores.)
[Quadro 2]
CENA I
GILBERTO, CUPIDO, Amores
GILBERTO (Estupefato.) - Oh!
...
Coplas
I
CUPIDO -
Eis
o trêfego Cupido, Filho de Vênus e Marte!
Sou bastante conhecido, Conhecido em
toda parte... Tenho fama universal! Faço o
bem, promovo o mal Pois domino as
multidões, Sou senhor dos corações, Ah!
Ah! É o deus Cupido que aqui
está!
II
No
mundo, todos os peitos, Quer dos homens, quer
dos bichos, 'Stão mais ou menos
sujeitos, Aos meus múltiplos
caprichos... Todos se hão de
sujeitar! Ninguém me pode escapar! Tudo,
seja como for, Obedece ao deus do Amor!
Ah! Ah! etc.
GILBERTO - Cupido! Tu és Cupido? Pois
Cupido existe?
CUPIDO - Certamente. Eu sou Cupido, e
este é o meu estado-maior... Existo, como vês.
Há mais tempo não aparecia, por não haver
liberdade de cultos. Hoje, que todas as
religiões são livres, aqui estou. Vênus, minha
mãe, ouviu a tua invocação... e mandou-me tratar
dos teus interesses. Senta-te àquela mesa, e
escreve o que te vou ditar. (Gilberto obedece.)
"Senhor Melo".
GILBERTO - "Senhor Melo" já
está.
CUPIDO (Continuando.) - "Vossa Senhoria
sabe que o estro não aceita imposições. Dentro
de quinze dias voltarei à sua casa e
submeter-me-ei a todas as experiências."
Assina.
GILBERTO - Pronto!
CUPIDO - Agora vem comigo!
GILBERTO - Aonde me levas?
CUPIDO - A presença de Apolo; só ele te
poderá conceder o que o pai da tua namorada
exige. Irás nas asas do amor.
GILBERTO - Vamos?
TODOS - Vamos! (Repetem o estribilho) e
saem todos pela gruta, que desaparece, ficando a
cena como estava dantes.)
CENA II
[MELO, só]
MELO (Entrando.) - Passou o quarto de
hora. (Vendo a cena vazia.) Hein? Já não está!
Por onde passaria ele?! (Examinando em baixo da
mesa.) Nada! E esta?... Temos bruxaria!
(Saindo.) Ó menina! Ó Albino!... (Sai.
Mutação.)
CENA III
[JOSÉ, só]
(Ao
levantar o pano ouve-se o coro dos poetas,
cantado na Cena VI. Cessado o coro, José sai do
palácio e fecha cuidadosamente a porta. Traz um
molho de chaves na cinta e algumas liras de ouro
debaixo do braço.)
JOSÉ -
-
Até que finalmente Eu por hoje estou livre
desta gente! Diabo leve o Parnaso! Se não
fujo daqui, vai tudo raso! Meus senhores, eu
chamo-me José; Vou dizer onde estou, e isto
o que é, Porém com muita pressa, Pois que
esta entrada nada tem com a peça. Este país,
da natureza um mimo, Chama-se Fócida. Isto
aqui é o cimo Do Parnaso, a montanha mais
famosa, Onde ninguém pode falar em prosa,
É dos poetas hospício Aquele imenso e
fúlgido edifício, E é curiosa a
história Desta fonte marmórea. Apolo, o
meu patrão, é das arábias: Mas que ninguém
tem lábias... E, se elas não lhe prestam
atenção Vinga-se o maganão! Era uma vez
uma mulher bonita Que pôs muita alma aflita,
Muita cabeça à roda; Deu que falar,
enfim, e andou na moda; Apolo um dia a vê, e,
de repente, O coração lhe abrasa amor
ardente. Ele, a princípio, mostra que
concorda, Mas, passado algum tempo, rói a
corda. Sente Apolo a mostarda no nariz, E
transforma a pequena em chafariz! Que
graçola de bruxo! Um deidade foi, e hoje é
repuxo! Para ser mais pungente a
represália, O nome dela, o nome de
Castália Ficou à fonte. Singular
virtude Têm estas águas: não é dar
saúde. Não são de Caxambu nem de
Vizela; Mas quem delas beber, sem mais
aquela Fala em verso, quer queira, quer não
queira! Eu cá poeta me fiz desta maneira!
Ser poeta eu não queria, Porque sempre
embirrei com a tal poesia... Mas, quando cá
cheguei, quis beber água: Imaginem que
mágoa Ao dizer-me o patrão: - Beba
dali! Resisti... não bebi!... Mas, no dia
seguinte, O patrão, por acinte, Pôs-me os
bofes a arder, a língua seca, E uma
enxaqueca... Safa! que enxaqueca!... Vede,
senhores, que suplício! vede!... Ou fazer
versos, ou morrer de sede! Preferi fazer
versos... Desde então não consigo Falar em
prosa vil... Sim! Quereis ver?...
(Esforça-se por falar em
prosa.)
Quero em prosa falar... mas do
querer Vai ao poder uma distância
enorme! A gente aqui faz versos quando
dorme!
(Ouve-se rumor.)
Apolo, o meu patrão, aí vem de
volta, Trazendo as nove Musas por
escolta. Ele e elas aí vêm! Eis que
começa! Esta entrada a cantar pertence à
peça.
CENA IV
JOSÉ, APOLO, as MUSAS
Coplas
I
APOLO -
-
Eu sou filho de Júpiter, O grande Apolo
sou! Na ponta, na pontíssima, Eternamente
estou!
As
MUSAS -
-
As nove Musas clássicas Estão aqui
também; Saracoteando, gárrulas, Do seu
passeio vêm. Zim lá lá! Oh! que bela
funçanata! Zim lá lá! Que agradável
passeata! 'Stou satisfeita,
olá!
II
APOLO -
- O
deus mais xispeteófero, O deus melhor cá
está, Não há deus mais simpático, Deus
mais gentil não há!
AS
MUSAS -
-
Quando acordamos lépidas, Tomamos o
café, Montou Apolo o Pégaso, E nós fomos
a pé. Zim lá lá! etc.
APOLO - Cessem os cantos! -
José.
JOSÉ -
-
Pronto, senhor! O serviço?
APOLO -
-
'Stá feito? Não penso nisso.
JOSÉ - Há muito tempo que
está.
APOLO - 'Stáo almoçados os
poetas?
JOSÉ -
-
Sim, meu senhor. Foi precisa Mais meia
arroba de brisa Perfumada com
violetas.
APOLO -
-
Vai lavar o meu cavalo; Quero o Pégaso bem
limpo. Tenho de ir logo ao
Olimpo.
JOSÉ - Sim, senhor, eu vou lavá-lo.
(Sai.)
TÁLIA (A Apolo.) -
-
Vê lá! vê lá se imaginas Quem vem
subindo!
APOLO - Que vejo!
TODAS - Cupido!
APOLO -
-
Nem por gracejo Estejam perto,
meninas.
TODOS - Vamos embora!
APOLO
APOLO -
- E
depressa!... Nada, que ele é bem capaz De
querer brincar e... zás!
(Gesto de quem arremessa uma
seta.)
Só
me faltava mais essa.
(Empurra as Musas, que
saem.)
CENA V
APOLO, CUPIDO
CUPIDO - Viva o seu Apolo!
APOLO -
-
Olá! Que grande ausência, Cupido! Sejas
bem aparecido! Há muito não vinhas
cá!
CUPIDO -
-
As minhas ocupações Não me permitem... -
Brejeiro, Que levas o dia inteiro A
maltratar corações.
CUPIDO -
-
Pois enganas-te, meu bem; Eu tornei-me um
deus pacato: Já corações não maltrato, Já
não maltrato ninguém!
APOLO -
-
Não esperava por esta! Tu, outrora tão
ferino, Tornares-te um bom menino E
divindade modesta! Quem operou tal
milagre? Deixaste de ser cruel?! O fel
transformou-se em mel.
CUPIDO -
-
Eu bem quisera, e não posso Recuperar a
maldade... O desalento me invade, O mundo
já não é nosso... Há lá na Terra
mesquinha (De todos os olhos salta) Uma
potência mais alta Do que a tua e do que a
minha.
APOLO -
-
Amor! Que dizes? Blasfemas! Que enorme
potência é essa? Vamos! Dize-me depressa,
Com setecentos mil poemas!
CUPIDO -
-
Ele é o deus mais adorado; Todo mundo lhe
obedece...
APOLO - Por Jove! que deus é
esse?
CUPIDO - É o dinheiro.
APOLO - Estou calado.
CUPIDO -
-
Sim, o dinheiro; por ele, Perdi minha força
imensa; Não tenho seta que o vença Nem
sopro que o esfacele! Quem já eu fui, e quem
sou!
APOLO - Quem tu já foste, e quem
és!
CUPIDO -
-
Anda agora aos pontapés Quem já aos beijos
andou!
APOLO -
Pois comigo é o mesmo caso; Tudo o que
vês to confirma... E é só por honra da
firma Que não liquido o Parnaso. Sempre o
dinheiro a fugir - De quem poesias
escreve! Raro é o tipo que se atreve
Minhas graças a pedir!
CUPIDO -
-
Mas afinal tem razão; Pois, na sociedade
abjeta, Não consta que houvesse um
poeta Morrido de indigestão. - Mas não
falemos em tal, Pois melhor assunto
tenho. Sabes de onde agora venho?... Da
Capital Federal.
APOLO - Desse país não me
lembro.
CUPIDO - Ora! é o Rio de
Janeiro.
APOLO - Então mudou de
letreiro?
CUPIDO - Desde Quinze de
Novembro.
APOLO -
-
Do deus Apolo merece Encômios mudança tal,
Pois Capital Federal Se não é verso,
parece.
CUPIDO -
-
Um moço dessa cidade Sente no peito um
afeto, Sagrado, puro, discreto, Por uma
doce beldade. Quer esposá-la.
APOLO - E depois?
CUPIDO -
-
Mas o pai da rapariga (Sempre a mesma
história antiga!) Não quer casados os
dois.
APOLO - Por quê?
CUPIDO -
Talvez tu te rias... Não é pra menos o
caso... Porque o moço, por acaso, Não sabe
fazer poesias. O apaixonado galã Teve a
lembrança excelente De pedir
ardentemente A proteção da mamã.
APOLO - Deveras?
CUPIDO -
- E
Vênus bela Ficou muito satisfeita, Porque
viu que, desta feita, Alguém se lembrava
dela; Quis ao mancebo agradar E
recomendá-lo a ti; Vim hoje te
incomodar.
APOLO -
-
Pois não ponhas mais na carta: Vieste buscar
a este monte Um pouco da água da
fonte Castália. Espera. Vou
dar-ta.
(Dá
dois passos para o fundo.)
CUPIDO (Retendo-o.)
-
Não! não! não! Comigo veio O protegido de
Vênus; De súcia com os meus pequenos Lá
mais abaixo deixei-o.
APOLO -
Vai
buscá-lo; e, já que tenho Um candidato a
poeta, Quero que seja completa A
patacoada!
CUPIDO - Já venho. (Sai.)
CENA VI
APOLO, depois as Musas, JOSÉ, depois
CUPIDO, GILBERTO, Amores
APOLO (Só.)
-
Façamos deste caso o caso mais solene!
(Chamando.)
Terpsícore! Tália! Erato!
Melpômene! Calíope! Euterpe! Clio! Urânia...
Falta alguém?... Polímnia!... Venham cá!
Então? vêm ou não vêm?
(Entram as Musas e José.)
Coro
Por
que tanta algazarra? Que foi?... que
sucedeu?... Há novidade na
barra?... Alguém morreu? Que
sucedeu? Que aconteceu?
(Continua a música em surdina na
orquestra.)
JOSÉ (Vindo ao proscênio,
confidencialmente ao público.)
- O
Pégaso também devia estar presente, E à peça
o chamariz daria mais cem casas, O
empresário, porém, não pôde, infelizmente, No
mercado encontrar um cavalo com asas.
APOLO -
-
Meninas, todo recato! E não se ponham a rir!
Vai ao Parnaso subir, Neste instante, um
candidato!
(Entra Cupido trazendo Gilberto pela mão
e acompanhado pelos Amores, que ficam ao fundo,
enquanto os dois dão uma volta pela cena,
cumprimentando Apolo e as Musas.)
CUPIDO - Dás-me licença?
APOLO - Tens toda.
TÁLIA - Ai! é Cupido que o
traz!
MELPÔMENE - É bem bonito
rapaz!
CLIO - Quero beijá-lo!
ERATO - Estás doida!...
APOLO -
-
Mancebo, quem quer que sejas Que ao monte
Parnaso ascendes, Explica-me o que pretendes
E dize-me o que desejas.
GILBERTO - Meu caso Senhor Apolo, não vê
que eu...
(As
Musas, ouvindo prosa, dão um grito e tapam os
ouvidos.)
APOLO - Nem mais uma palavra! a prosa é
proibida!
GILBERTO - Perdão, mas eu...
APOLO -
Silêncio! ou já arranco a vida. As
nove Musas, vi! os seus ouvidos
fecham.
AS
MUSAS - Apolo, compaixão!
APOLO - Não vês como se
queixam?
CUPIDO -
-
Grande Febo, consente eu diga o que pretende
O pobre que das leis do verso não
entende.
APOLO -
-
Cupido, o que ele quer sei eu, sabem-no as
Musas. Portanto, ó deus do amor, de te
explicar escusas!
GILBERTO (À parte.) - Se sabia, por que
perguntou?
APOLO -
José, ligeiro vai dar liberdade aos
poetas, E que tragam consigo as liras
irrequietas.
(José vai abrir o edifício do fundo.
Entrada de um aluvião de poetas.)
Coro
Nós
todos, que subimos Ao apolíneo monte, E na
Castália fonte Bebemos uma vez, Sentimos,
sim, sentimos O sacro fogo ardente Que nos
escalda a mente E que tão bem nos fez. Um
dom não há mais nobre Que a cândida
poesia; As almas inebria Da poesia a
voz; É pobre, é mais que pobre Quem
desgraçadamente No cérebro não sente O que
sentimos nós!
PRIMEIRO POETA (Destaca-se do grupo que
ficou ao fundo, vem à boca de cena e declama,
apontando para a cúpula do ponto.)
-
"Eis ali o lugar onde eclipsou-se O meteoro
fatal às régias frontes!"'
SEGUNDO POETA (Destacando-se do grupo
arrebatadamente.)
-
"Eu amo a noite, quando deixa os montes,
Bela, mas bela de um horror
sublime!"
TERCEIRO POETA - "Perdoa, ó virgem, se te
amar é crime!"
PRIMEIRO POETA -
-
"Dormes? Eu velo, sedutora imagem, Grata
miragem que num ermo vi! Quem pode ver-te sem
querer amar-te? Quem pode amar-te sem morrer
por ti?"
QUARTO POETA - "Eu, Marília, não sou
nenhum vaqueiro!"
SEGUNDO POETA - "Adeus, Teresa, adeus, eu
vou-me embora."
QUINTO POETA -
-
"Minh'alma é triste como a rola aflita Que o
bosque acorda desde o albor da
aurora."
SEGUNDO POETA
-
"Coração, por que palpitas? Por que palpitas
em vão?"
(Mudando de tom, ao primeiro
Poeta.)
PRIMEIRO POETA - "É Gonzaga!
Maldição!"
QUARTO POETA
-
"Se eu morresse amanhã, viria ao
menos Fechar-me os olhos minha irmã... co
dedo..."
TERCEIRO POETA
-
"Se de ti fujo, é que te adoro, e louco! És
bela, eu moço; tens amor, eu medo!"
PRIMEIRO POETA
-
"Vai, Colombo! abre a cortina Da minha
eterna oficina! Tira a América de
lá!..."
QUINTO POETA
-
"Minha terra tem palmeiras Onde canta o
sabiá."
APOLO
-
Basta de dizer asneiras! Ponham-se em linha
acolá!
QUINTO POETA (Naturalmente.)
-
"As aves que aqui gorjeiam Não gorjeiam como
lá!..."
APOLO
-
Ah! pois vocês não receiam Que eu?... Ora
esperem!... Vou já...
(Ergue-se ameaçador. Os Poetas correm
para os seus lugares.)
Silêncio! cesse a desordem! A meus
pés, Clio, te deita! Tália, fica à
direita... Ponham-se todas em ordem! Vou
fazer poeta este jovem... Ajoelha-te,
cidadão!
(Gilberto ajoelha-se ao pé do
trono.)
A
minha resolução Conto que todos
aprovem. Musas e Poetas que
aprovam Queiram sentar-se.
(Sentam-se todos no chão, menos Cupido e
José.)
Aprovado.
CUPIDO (A José.) - Bravo! está tudo
sentado!
JOSÉ - (A Cupido.) - As Musas nada
reprovam.
APOLO - Como te chamas?
GILBERTO - Gilberto.
APOLO
-
Pois, Gilberto, eu te vou dar O dom de
metrificar. Chega-te mais para
perto.
(José traz da fonte uma ânfora cheia de
água.)
Bebe!
(Gilberto bebe, e, no mesmo instante,
fica inspirado. Corre de um lado para outro,
olhando para o céu, esbugalhando os olhos e
apartando os cabelos com os dedos.)
GILBERTO
- O
sol da inspiração Sobre o meu cérebro
atua!
JOSÉ (À parte.) - Será o Sol ou a
Lua?
CUPIDO - Foi muito rápida a
ação!
GILBERTO
-
Quero uma lira também! Vou cantar a minha
amada, De saudades torturada... Quero
uma lira!
JOSÉ (Dando uma lira.)
-
Aqui tem.
APOLO (Interpondo-se.)
-
Basta, meu caro senhor! Deixe em paz o bem
amado! Terpsícore, anda, um bailado, Que
o bailado é de rigor!
(Terpsícore e as outras Musas dançam um
bailado.)
APOLO (A Gilberto.)
-
Eu vou fazer-te um favor
Excepcional!
GILBERTO - Sim? qual é?
APOLO - Uma garrafa, José!
JOSÉ. - Eu vou buscá-la, senhor! (Sai.)
APOLO
-
Vais para a Terra levar Uma garrafa desta
água. Queres ou não queres?
GILBERTO - Pago-a!
APOLO - Não é preciso pagar.
GILBERTO
- O
senhor enriquecia (Que a palavra o não
afronte!) Se, pra explorar esta
fonte, Formasse uma companhia! Não me
chamasse eu Gilberto, Quando todo o
capital Não fosse na empresa tal No mesmo
dia coberto! Olha, se quer ser meu
sócio...
(Apolo sorri, encolhe os ombros e
dirige-se à fonte.)
CUPIDO (A Gilberto.)
-
Gilberto, que fantasia! Ele é o deus da
poesia, Não é homem de negócio!
JOSÉ (Entrando com uma garrafa, que
entrega a Apolo.) - Pronto, senhor.
APOLO (Depois de encher a garrafa na
fonte, dando-a a Gilberto.) - Aqui
tens.
GILBERTO
-
Muito obrigado, senhor, Por tão precioso
favor.
APOLO
-
Não há de quê. - Parabéns.
JOSÉ (Baixo, a Gilberto.)
-
Se alguma coisa me dá, Leva mais uma
garrafa, Ou mesmo um garrafão!
GILBERTO - Safa!
JOSÉ - Cuidado, que Apolo aí
está!
APOLO
-
Se nunca falar ouviste De Apolo, meu bom
rapaz, De agora em diante dirás Que lhe
falaste e que o viste, E me obsequiarás com
isto, Porque, segundo presumo, Ninguém,
por aquele rumo, Sabe ao certo que eu
existo.
GILBERTO
-
Se eu com isto te consolo, Sabe: na minha
cidade Vão abrir com brevidade Um Teatro
chamado Apolo.
APOLO
-
Um Teatro, Apolo chamado! Um Teatro Apolo, ó
delícia! Pois tinhas essa notícia A
dar-me, e estavas calado? Não vês como estou
contente? Oh! doce alegria infinda! Vejo
que há na Terra ainda Quem faça caso da
gente! Ó José! Depressa! Manda Aparelhar o
meu carro, Que do Parnaso desgarro Por
alguns dias.
As
MUSAS e os POETAS - Oh!
APOLO - Anda! (José sai.)
CUPIDO - Quê! vens conosco?
APOLO
-
Vou, sim! Quero ver o meu teatro, E farei
o diabo a quatro, Se não for digno de
mim!...
AS
MUSAS (Rodeando Apolo.) - Papai!...
Papai!...
APOLO
- Ó
meninas, Tenham muito juizinho!
JOSÉ (Voltando.)
-
'Stá pronto o carro. O caminho Meu bom
Cupido, me ensinas.
APOLO (Às Musas)
-
De novo lhes recomendo Que tenham muito
juízo, Todo o recato é preciso Nos
tempos que vão correndo.
GILBERTO
-
Grande Apolo, não te rales, Trarás da Terra o
magnífico E celebrado específico Do S'or
Doutor Costa Sales.
Canto
AS
MUSAS
-
Papai vai fazer viagem! Sozinhas vamos
ficar! Talvez nos falte a coragem Para a
ausência suportar! Ai! ai! Papai. Lá
vai.
APOLO
-
Não chorem, senão eu choro, E não desejo
chorar! Sosseguem! Não me demoro, Em
breve hei de cá voltar.
AS
MUSAS
-
Ai! ai! Papai Lá vai!
APOLO e CUPIDO
-
Adeus! Adeus! (Saem.)
As
MUSAS e os POETAS
-
Que bom! foram-se embora! Caiamos no cancã!
Dancemos nós agora - Até pela
manhã!
(Cancã muito animado.)
Quadro 3
(Rasga-se o fundo, e vê-se no espaço o
carro de Apolo dirigido por ele. Cupido e
Gilberto vão dentro do carro. Os Amores formam
grupos voando.)
(Cai o pano.)
ATO
SEGUNDO
Quadro 4
Praça pública na ilha de
Pandigônia
CENA I
APOLO, CUPIDO, GILBERTO, depois UM
TRANSEUNTE
CUPIDO (Entrando.) - Oh!, que grande
estopada!
GILBERTO (Entrando.) - Não há maior
maçada!
APOLO (Entrando. Ao
público.)
-
Toda a atenção, que eu narro O que nos
sucedeu nas regiões aéreas, E ter podia
conseqüências
serias! (Naturalmente.) Partiu-se uma das
rodas ao meu carro.
CUPIDO - Foi brincadeira de algum deus
vadio!
APOLO
-
Bóreas, talvez, que quis roubar-me Clio, E um
dia aos pontapés desceu do monte.
CUPIDO - Não foi outro!
APOLO
-
Julguei me acontecesse agora O mesmo que a
meu filho Faetonte, Quando a boleeiro se
meteu outrora.
GILBERTO
-
Mas, graças às cabaças, Não há que lamentar
grandes desgraças.
CUPIDO
-
Eu mandei para o Olimpo os meus
pequenos Tranqüilizar a Vênus.
GILBERTO
-
Felizmente encontramos um ferreiro, Que
consertando está da roda o eixo.
APOLO
- E
temos que passar um dia inteiro Aqui nesta
cidade!
CUPIDO
-
Eu não me queixo: Parece-me lindíssima a
cidade! Não a conheço.
APOLO
-
Pra falar verdade. Eu mesmo ignoro em que
pais estamos. Lá vem um tipo. Interrogá-lo
vamos. Mas falemos-lhe em prosa, Pois em
verso tornamo-nos suspeitos.
CUPIDO
-
Coisa dificultosa! A água da fonte faz os
seus efeitos!
GILBERTO
-
Em prosa, meu amigo, Dizer duas palavras não
consigo!
CUPIDO
-
Talvez que se precise De outra água que os
efeitos neutralize...
APOLO (Interrompendo.)
-
De nada mais preciso
Do
que a própria vontade e o próprio juízo Eu
posso, quero e mando! E agora conto Que
falemos em prosa! Um! Dois!
Três! Pronto!...
(Indo ao Transeunte que aparece.) Meu
caro senhor, dá-nos duas palavras.
O
TRANSEUNTE - Quantas queira.
APOLO - Nós andamos a correr
mundo.
O
TRANSEUNTE (Examinando-os.) - Naturalmente são
saltimbancos... A julgar por esses
trajes...
APOLO - Adivinhou. Somos saltimbancos. Eu
faço exercícios de força muscular.
CUPIDO - Eu danço na corda
bamba.
GILBERTO - E eu sou o secretário da
companhia.
APOLO - Como ia dizendo, andamos a correr
mundo, e por acaso viemos ter a esta cidade. O
senhor muito me obsequiaria se nos informasse em
que lugar estamos.
O
TRANSEUNTE - Não admira que não o saibam, porque
esta ilha não figura em nenhuma carta
geográfica, nem nunca foi visitada por
estrangeiros. Os senhores estão na
Pandigônia.
OS
TRÊS - Na Pandigônia?
APOLO - E quem governa a Pandigônia? Um
rei? Um imperador? um presidente? um
cônsul?...
O
TRANSEUNTE - Nada disso. A Pandigônia é
governada por famílias e não por
indivíduos.
CUPIDO - Por famílias?
O
TRANSEUNTE - Sim, mas uma de cada vez, já se
sabe. Como o governo é periodicamente renovado,
há probabilidade de contentar a todos. Aqui onde
me vêem, já estive e ainda conto estar no poder
com minha mulher e meus filhos.
APOLO - É original! (Vozeria
dentro.)
CUPIDO - Que bulha é esta?
O
TRANSEUNTE - Uma pequena insurreição política.
São mulheres que protestam por lhes ter sido
negado o direito do voto. Elas aí
vêm!
CENA II
OS
MESMOS, algumas Mulheres Políticas
Coro das Mulheres Políticas
Não
há maior iniqüidade Do que este ataque à
liberdade! Deve a mulher, Haja o que
houver, Votar e ser também votada! Se
nada se alcançar, Um rolo aqui se
faz! Zás! Trás!
UMA
DAS MULHERES - É uma tirania! Não há razão que
se oponha a que nós votemos!
OUTRA - Protestemos com toda a
energia!
TODAS - Protestemos!
CUPIDO - Então, minhas senhoras? Perdem o
seu tempo! Do que servem esses protestos! Há um
meio muito mais eficaz de conseguirem o que
desejam...
TODAS - Qual é? qual é?...
CUPIDO - Façam greve!
TODAS - Greve?
CUPIDO - Recusem os seus serviços, e
diabos me levem se dentro em três dias não lhes
fizerem todas as concessões.
APOLO - Naturalmente. O gênero feminino é
em toda a parte um gênero de primeira
necessidade.
PRIMEIRA MULHER - É exigir muito de
nossas forças. Passar a vida inteira sem votar,
isso passamos; mas levar três dias sem fazer o
serviço de casa... hum!... é muito
difícil.
SEGUNDA MULHER - A greve seria
imediatamente furada.
CUPIDO - Nesse caso, minhas senhoras,
protestem... e não façam caso da opinião do
Amor.
TODAS - Do Amor?
APOLO (Baixo, acotovelando Cupido.) - Ó
diabo! não te dês a conhecer!
CUPIDO - Sim, façam de conta que o Amor
lhes fala pela minha boca... E, para dizer-lhes
toda a verdade, lhe pesaria, a ele, ao Amor,
vê-las deputadas e senadoras. Nem a mulher foi
feita para a política, nem a política foi feita
para a mulher.
APOLO (A uma das Mulheres.) - Eu já não
penso assim, minha senhora; não se me dava de
vê-la na... Câmara.
PRIMEIRA MULHER - Minhas amigas, estes
senhores estão zombando de nós. Vamos levar mais
longe os nossos protestos.
TODAS - Vamos! (Saem.)
CENA III
APOLO, CUPIDO, GILBERTO, o TRANSEUNTE,
depois os Aposentados
PRIMEIRO APOSENTADO (Entrando e abraçando
o Transeunte.) - Ah!, meu amigo! que felicidade!
dá cá um abraço!...
O
TRANSEUNTE - Como estás contente! Que te
sucedeu?
PRIMEIRO APOSENTADO - Fui
aposentado!
GILBERTO - Aposentado! Mas o senhor não
parece ter mais de quarenta anos!
PRIMEIRO APOSENTADO - Tenho apenas trinta
e quatro, e gozo uma saúde de ferro! É por isso
que estou contente.
CUPIDO - Já vejo que não há país como a
Pandigônia!
SEGUNDO APOSENTADO (Entrando.) - Oh, que
ventura! que ventura! fui
aposentado!...
GILBERTO - Também este!
CUPIDO - É quase uma
criança!
O
TRANSEUNTE - Não fez ainda vinte anos, mas tem
prestado muitos bons serviços ao país. (Entra o
terceiro Aposentado; é um menino de dez
anos.)
TERCEIRO APOSENTADO - Estou
contentíssimo! fui aposentado!...
APOLO - É extraordinário! pois esta
criança!
TERCEIRO APOSENTADO - Já não há crianças,
meu caro senhor!
GILBERTO - Decididamente venho para a
Pandigônia depois de casado! (Entra o quarto
Aposentado, é um menino de seis anos; vem
montado num cavalinho de pau.)
QUARTO APOSENTADO - Que bom! que bom!...
fui aposentado!...
APOLO, CUPIDO, GILBERTO - Oh!... (Entram
outros meninos também montados em cavalinhos de
pau.)
OS
MENINOS - Fui aposentado, fui
aposentado!...
PRIMEIRO APOSENTADO - Bem! - e agora,
como ainda temos forças para o trabalho, vamos
tratar da vida!
SEGUNDO APOSENTADO - Qual há de
ser?
PRIMEIRO APOSENTADO - Proponho que nos
façamos todos zangões!
TODOS - Apoiado! apoiado!...
PRIMEIRO APOSENTADO - Ao
Encilhamento!
TODOS - Ao Encilhamento...
(Os
meninos fazem roda e executam uma dança
infantil. Saem dançando e
cantando.)
APOLO (Ao Transeunte.) - Eles falaram em
Encilhamento; que diabo quer isto
dizer?
O
TRANSEUNTE - Pois o senhor não sabe o que é o
Encilhamento? É o lugar onde se encilham
animais.
CUPIDO - Quê? pois ser zangão é encilhar
animais?
O
TRANSEUNTE - Não senhor; aqui a coisa é tomada
em sentido figurado. A cilha é o jogo da
Bolsa.
APOLO - Ah! - e os animais?
O
TRANSEUNTE - Naturalmente são os que se deixam
encilhar. E na realidade muitos de lá saem com a
cilha na barriga.
GILBERTO - Por falar em animais: vou ver
se o carro está pronto.
CUPIDO - Vai. (Gilberto
sai.)
O
TRANSEUNTE - Sou obrigado a deixá-los: vou ao
Encilhamento.
APOLO - Também o senhor?
O
TRANSEUNTE - Aqui na Pandigônia todo o cidadão
que se respeita vai ao Encilhamento.
(Cumprimentando.) Adeus, caros artistas,
adeus... Estimo que sejam felizes.
APOLO, CUPIDO - Adeus. Obrigado. (O
Transeunte sai.)
CENA IV
APOLO, CUPIDO, depois os Homens
Barbados
APOLO - Foi o diabo esta demora! Tarda-me
ir ao Rio de Janeiro ver o tal teatro
Apolo.
CUPIDO - Olha, filho, não vás julgar que
isto é inveja; seria mais justo que o teatro se
chamasse Cupido.
APOLO - Ora essa! Por quê?
CUPIDO - Cupido, ou, a rigor, Baco. Hás
de ver por que.
APOLO - Xi! que coleção de barbaças aí
vêm! ...
(Entram os Homens Barbados, trazendo
chapéus Chile.)
Coro
Valha-nos Deus! que cacetada! Que
cacetada se apanhou! Foi muito longa a tal
maçada, Mas felizmente já passou. Eu vou
deixar de ser barbado; Não uso mais destes
chapéus! Por causa disto, Deus
louvado, Todos andamos aos boléus!... Que
cacetada!...
PRIMEIRO HOMEM - De boa
escapamos!
SEGUNDO HOMEM - Quem diria que as nossas
barbas e os nossos chapéus do Chile nos
tornariam suspeitos!
CUPIDO - Contem-nos isso.
PRIMEIRO HOMEM - Imaginem que há aí um
criminoso, um grande criminoso que ninguém sabe
quem é. Sabe-se apenas que é um homem barbado, e
usa um chapéus destes.
SEGUNDO HOMEM - Por conseguinte, foram
chamados à presença da autoridade todos os
habitantes da Pandigônia que se acham nessas
condições.
PRIMEIRO HOMEM - Felizmente podemos com
facilidade provar a nossa inocência... mas lá
ficaram ainda detidos uns trinta. Pudera! estes
chapéus estão agora em moda!
APOLO - Olhem que brincadeira!
SEGUNDO HOMEM - Vamos tranqüilizar nossas
famílias.
PRIMEIRO HOMEM - E fazer a barba... Vou
deitar tudo isto abaixo! Nada, que me vi deveras
abarbado!
TODOS - Vamos! (Saem.)
GILBERTO (Entrando a correr.) - Fujamos,
senão estamos perdidos! Está pronto o carro!
Fujamos!
CUPIDO - Mas... por quê? por
quê?
GILBERTO - Vem aí o Intendente de
Polícia; disse-me um habitante da ilha que ele
anda à procura dos indivíduos sem profissão para
prendê-los e deportá-los. Ora, nós não temos
profissão... nem passaporte, nem
nada!
APOLO - Sim, o caso não é para
graças...
CUPIDO - Não faltava mais nada!
Vamos!
Os
TRÊS - Vamos! (Saem.)
CENA V
O
INTENDENTE DE POLÍCIA, depois um
PRIMO
O
INTENDENTE (Falando para dentro.) - Leve-o!
leve-o para o gaiola! É tão bom como os outros!
Coplas
I
Não
é bom que a sociedade Veja impune um
vagabundo! Não posso limpar o mundo, Porém
limpo esta cidade! Sem profissão
decorosa Ninguém devo tolerar, E mando
catrafilar Toda a gente perigosa! Muita
gente está zangada, Pelas costas me quer
ver; Mas, confessa a gente honrada, Sei
cumprir o meu dever!
II
Sujeito que não trabalha, Parasita ou
ratoneiro, Manejador de navalha, Beberra-o
ou desordeiro... Devem ser todos
punidos, E deles não tenho dó! Vão todos
pro xilindró, Apesar de
protegidos... Muita gente está zangada,
etc.
O
PRIMO (Entrando.) - Senhor, meu primo acaba de
ser preso por sua ordem. Peço-lhe que o não
deporte.
O
INTENDENTE - Não peça: perde o seu tempo. Seu
primo é tão bom como os outros que já lá
foram.
O
PRIMO - Mas...
O
INTENDENTE - Não insista! O que disse está dito!
E não me aborreça! (Sai)
O
PRIMO (Só.) - E é assim que me tratam, a mim,
que tantos serviços prestei! Pois vingo-me,
abandonando o país!
(Sai. Mutação.)
Quadro 5
No
jardim do Teatro Apolo
CENA I
ARTISTAS, CORISTAS, músicos, empregados
do teatro
(É
dia. Tem acabado o ensaio. Os personagens saem
do interior do teatro.)
Coro
Está o ensaio terminado, Agora, vamos
esperar Que o nosso público ilustrado Seu
parecer nos venha dar.
UMA
ATRIZ
- A
peça vai fazer furor, Pois não lhe falta um
matador!
OUTRA
-
Tem muita, muita graça a peça; Nem um
instante o riso cessa. E a partitura é de
primor!
UM
ATOR
-
Que novidade dá você! Não fosse a música de
Hervé!
OUTRO
- A
peça agradará, Pois bem montada
está.
UM
CORISTA
-
De mais a mais, o teatro é novo E atrai o
povo!
UM
DOS ATORES - É peça que não cai!
OUTRO - Sim, a Nitouche um dinheirão dar
vai!
CORO - Está o ensaio terminado,
etc.
PRIMEIRA ATRIZ - Estou muito contente com
o meu papel, e conto agradar muito esta
noite.
PRIMEIRO ATOR - Que bela peça é Mam'selle
Nitouche! Não troco por nenhum outro aquele meu
papelinho!
SEGUNDA ATRIZ - A casa está completamente
tomada!
SEGUNDO ATOR - Ih! há de ser uma
enchente!
PRIMEIRA ATRIZ - Adeus; tenho ainda que
ver umas coisas que me faltam para logo à
noite.
SEGUNDA ATRIZ - Espera. Eu vou
contigo.
PRIMEIRO ATOR - Eu também me vou embora.
(Saem todos.)
CENA II
A
ARTE DRAMÁTICA NACIONAL
Que
gente aquela será? Ah! já vejo... São
artistas... Empregados e coristas... O
ensaio acabado está.
(Descendo ao proscênio. Ao
público.)
Senhores, esta figura Pouco atraente e
simpática, Saibam, é a Arte
Dramática Deste pais sem ventura. Nasci
quando florescia João Caetano, esse
portento No Largo da Academia, Mas que, se
vivo estivesse, Viveria na desgraça, Pois
aqui por ela passa O artista quando
envelhece. Já fui formosa e chibante Tive
mil adoradores Que suspiravam de
amores Quando eu passava arrogante; Mas
tanto me maltratou A sorte, e fui tão
caipora, Que da beleza de outrora Nem
vestígio me ficou. Sabendo que se
inaugura Este teatro, aqui venho, Pelo
interesse que tenho Guardado nest'alma
escura. Dá idéia de uma nau O novo
edifício, e eu acho Ter ficado um tanto
baixo, Mas não é de todo mau. Entretanto,
meus senhores, 'Stou convencida que o
povo, Em vez de um teatro novo, Quisera
novos atores, Pois, pelos modos,
parece Que se vai findando a lista, E em
breve o último artista Do palco
desaparece. Sim, senhores, porque, em
suma, Nos teatros, infelizmente, Vejo sair
muita gente, E não vejo entrar
nenhuma, Mas basta de dar à língua, Eu vou
para aquele canto, E, dando largas ao
pranto, Lastimar a minha míngua.
CENA III
O
SUTIL, APOLO, CUPIDO, GILBERTO
O
SUTIL - Ora está feita a vontade aos
cavalheiros. Mostrei-lhes todo o teatro à
exceção do salão do público, porque ainda não
está pronto.
APOLO - Não é mau, não é mau, mas que
diabo! um teatro que se chama Apolo devia ser
todo de mármore e ouro!
CUPIDO - A inauguração é hoje
impreterivelmente?
O
SUTIL - Impreterivelmente.
APOLO - Não há meio de arranjar um
camarote?
O
SUTIL - Nem uma cadeira!
GILBERTO - Hão de ver que nas mãos dos
cambistas...
O
SUTIL - Quais cambistas! Pois o senhor não sabe
que a Polícia acabou com eles? Já não há
cambistas! (Um cambista que entra chama Gilberto
de parte o oferece-lhe bilhetes.) Podem os
senhores ficar certos de que não há mais um
cambista no Rio de Janeiro!
GILBERTO - Apenas este...
O
SUTIL (Zangado.) - Oh! (Corre para o cambista,
que desaparece.)
GILBERTO - Quer os olhos da cara por três
cadeiras... Viremos noutra ocasião.
O
SUTIL - Os senhores acordaram tão
tarde!
APOLO - Se eu cheguei hoje!
O
SUTIL - Ah! é de fora?
APOLO - Sim, senhor. (Cupido
acotovela-o.) Sou da Bahia.
CUPIDO - É uma vítima do
Tabuão.
O
SUTIL - Pois estimo que o teatro lhes tenha
agradado... Eu cá por mim gosto dele... Apenas
embirro com o nome.
APOLO - Perdão, mas o nome...
Apolo...
O
SUTIL - Já ninguém sabe quem foi Apolo... é um
deus muito rococó. Podiam ter escolhido coisa
melhor. (Apertando-lhes as mãos.) Adeus, tenho
muito que fazer... Quando quiserem... sou o
administrador do teatro. Chamo-me Sutil.
(Sai.)
Os
TRÊS (Arremedando-o.) - Sutil... (Gilberto
sai.)
CENA IV
APOLO, CUPIDO, GILBERTO
APOLO - Um deus rococó! Rococó será
ele!
CUPIDO - Viste o teu retrato no pano de
boca!
APOLO - Vi... a tocar rabeca... Uma
pilhéria do Senhor Rafael... Onde ficou a
clássica lira de Apolo?
GILBERTO (Descendo.) - Quem dirá que isto
aqui já foi a casa do Braga Júnior?
CUPIDO (A Apolo.) - Quando tencionas
voltar ao Parnaso?
APOLO - Tencionava voltar imediatamente,
mas uma vez que estamos enroupados à moda da
terra...
CUPIDO - Providência de que me lembrei
para não darmos na vista...
APOLO - ... ficaremos mais alguns dias.
Valeu?
CUPIDO - Valeu.
APOLO - Já agora quero ver a Capital
Federal.
GILBERTO - Eu é que peço licença para
deixá-los. Vou...
APOLO - Não tens que ir a parte alguma.
Serás o nosso cicerone.
GILBERTO - Perdão, mas a minha namorada e
o meu futuro sogro esperam-me.
APOLO - Pois que esperem! Se teimas,
tomo-te essa garrafa!
GILBERTO - Isso não!
CUPIDO - E o espalhafato que causou o teu
carro quando apareceu na cidade.?
APOLO - Mas eu disse que era um argentino
que vinha a toque de caixa de Buenos Aires, e
engoliram a pílula. Aonde vamos
agora?
CUPIDO - Sei lá! Vamos por aí... por
essas ruas... (Vão saindo; a Arte Dramática
Nacional entra e embarga-lhes o
passo.)
CENA V
OS
MESMOS, a ARTE DRAMÁTICA NACIONAL
APOLO - Quem é esta velha
andrajosa?
CUPIDO - Que horror!
GILBERTO - Quem é a senhora?
A
ARTE - Eu sou a Arte Dramática
Nacional.
APOLO - A Arte? Ninguém o
dirá!
GILBERTO - Eu vou recomendá-la ao Doutor
Pires de Almeida; é digna de figurar na
Artilheria Histórica, da Gazeta. - Vamos, diga,
que quer?
A
ARTE - Sei que este senhor deseja ver os teatros
do Rio de Janeiro, e não dispõe de muito tempo.
Quero mostrá-los, sem que para isso sejamos
obrigados a arredar pé daqui.
CUPIDO - Boa idéia.
APOLO - Bem lembrado!
GILBERTO - Não se me dá de ver
isso!
A
ARTE - Apareça em primeiro lugar o mais velho, o
São Pedro.
CENA VI
OS
MESMOS, SÃO PEDRO, depois o RECREIO, depois o
SANTANA, depois a FÊNIX, depois o LUCINDA,
depois o VARIEDADES, depois o POLITEAMA, depois
uma ATRIZ, ATORES ESPANHÓIS, depois o LÍRICO,
depois JAPONESES
O
SÃO PEDRO - Ora deixe-me com a minha vida! Estou
desesperado!
TODOS - Por quê?
O
SÃO PEDRO - Pois não sabem? fui
vendido.
TODOS - Vendido?
O
SÃO PEDRO - Sim, vendido, eu, o teatro mais
glorioso do Brasil, o teatro de João Caetano!
Vão transformar-me num grande estabelecimento de
modas!
TODOS - Deveras?
O
SÃO PEDRO - É o que lhe digo.
CUPIDO - Também você ultimamente só
servia para bailes mascarados.
GILBERTO - E espetáculos impossíveis...
aos sábados e domingos... com uns dramalhões
levados de todos os diabos!...
O
SÃO PEDRO (Fazendo da mão trombeta acústica.) -
Como?
APOLO - E depois, vejam! é surdo! Os
teatros surdos não prestam!
CUPIDO - É verdade que este não é um
teatro de música...
O
SÃO PEDRO - De música? Perdão, eu tive os Três
Bemóis!
GILBERTO - Ora os Três Bemóis! Um
espetáculo de circo!
A
ARTE - Venha outro? - Qual há de
ser!
APOLO - Veja se vem algum mais
divertido.
CUPIDO - O Recreio!
A
ARTE - Pois venha o Recreio!
O
RECREIO - (Entra dançando a polca Vamos para
Mato Grosso executada em surdina pela orquestra.
Dá algumas voltas pelo palco, pára, e diz muito
sério.) - A variedade deleita... por isso, não
faço outra coisa senão variar.
CUPIDO - Está variando.
O
RECREIO - Hoje, O dramalhão; amanhã, a comédia;
depois, a revista; depois, a peça literária...
Molière e Offenbach!... Sganarello e o Sarilho.
(Continua a dança interrompida. Todos
dançam.)
A
ARTE - Este conhece perfeitamente o
público.
O
SÃO PEDRO - Conhece, e por isso
enriqueceu.
APOLO - Venha outro!
A
ARTE - Apareça o Santana!
O
SANTANA (Entrando.) - Eu sou, meus senhores, o
teatro mais caluniado do Rio de
Janeiro.
TODOS - Como assim? Por quê?
O
SANTANA - Pois não! Dizem todos que sou um
teatro de opereta. Pois bem, não ponho opereta
que não caia -, ao passo que ultimamente
hospedei uma companhia dramática, e o povinho
não me abandonou uma noite...
O
RECREIO - Mas agora voltaste aos teus antigos
amores.
O
SANTANA - Voltei... tenho uma nova edição da
Companhia Heller.
APOLO - E que tem feito?
O
SANTANA - Têm sido umas em cheio, outras em
vão... vou vivendo... Mas com que saudades da
Fênix!
A
ARTE - A propósito, venha a Fênix!
GILBERTO - Pois ainda existe a
Fênix?
A
FÊNIX (Entrando.) - Se ainda existo? Ora
ouve!
Copla
Eu
estava pro canto atirada, Já tinham rezado
por mim, E há muito era coisa provada Que
próximo estava o meu fim. O público vendo
remisso, Confesso: dispunha-me até A
transformar-me num cortiço, Que muito bom
negócio é. Uma bela opereta A situação
salvou, E me encheu a gaveta, E o público
voltou!
A
ARTE - Bom! Agora venha o Lucinda.
O
LUCINDA (Entrando e abraçando a Arte.) - És tu
que me chamas, ó minha adorada amiga? Cá
estou... Mas que é isso? que andrajos são
esses?... (A Arte faz uma careta para não
chorar. O Lucinda cobre o rosto com as mãos. A
orquestra executa em surdina a melodia da
Dalila.) - Não venho diretamente da Rua do
Espírito Santo. Negócios de interesse me
chamaram à Rua do Ouvidor, e vi a Imprensa, que
me fez carga por eu ter dançado o cancã. Que
queres? Um dia, lembras-te? tu me disseste: -
Meu filho, tenho dois favores a pedir-te. O
primeiro é que me dês um ar de riso. Eu tentei
sorrir-me. Depois, continuaste tu, é que me
representes hoje o Carnioli. - Não, não, disse
eu com voz pungente, querendo simular uma
alegria, no dia do teu casamento... Agora
falta-me a Dalila... Vou representar outras
peças igualmente literárias... as Duas
Diplomatas... Meter-se a Redentor... o Bandido
de Casaca... Representei!... Enquanto
representei, não tive senão vazantes...
Enchia-se o Santana, enchia-se o Recreio,
enchia-se o Variedades; só eu não me enchia
porque não dançava o cancã! (Todos os
personagens enxugam silenciosamente as lágrimas.
A melodia da Dalila vai a pouco se transformando
numa toada alegre e saltitante.) Então não
podendo encher-me de público, enchi-me de
coragem, mandei para o diabo todos os meus
escrúpulos, e comecei a dançar o cancã...
Principiei a dançar o cancã com o Crime do Padre
Amaro... A princípio assim... (A música vai
crescendo. O Lucinda dança. Todos os personagens
o imitam.) ... assim... meio envergonhado...
meio corrido... e depois assim... assim...
mais... mais! ... (Com explosão.) E, finalmente
hoje, danço o cancã desenfreado, louco,
infernal! (A orquestra executa o cancã a toda a
força. Todos dançam
entusiasticamente.)
APOLO - Silêncio! Isto vai desandando em
pândega! (A música vai diminuindo, e a dança vai
arrefecendo também, até acabar de todo. O
Lucinda e a Arte lançam-se nos braços um do
outro, chorando.) Venha outro teatro! (Indo
bater no ombro da Arte.) Psiu! Olá! Chama
outro!
A
ARTE (Chorosa.) - Venha o
Variedades.
O
VARIEDADES (Entra e canta.)
Valsa
Se
eu vivo feliz e contente, É graças à bela
Mimi; Risonho me afaga o presente, E o
futuro me sorri! Do fundo d'alma detesto,
Desejo peça faceta, Quero a opereta E
o vaudeville exp'rimentar. Eu sei que ao
público agrada Mais da Leonor a pernada Do
que a virtude premiada Do final de um drama
bom, Sei que uma valsa bonita Todo este
público agita Mais do que uma peça
escrita Por Dumas ou Pailleron! Se eu
vivo feliz e contente, etc.
O
RECREIO - Aí está um Colega que tem sido
feliz.
O
VARIEDADES - Pudera! Comecei por onde os outros
acabam.
TODOS - Como assim?
O
VARIEDADES - Comecei pela Meia-noite... mas a
minha mascote foi Mimi Bilontra.
O
SANTANA - Uma peça estupefaciente!
O
VARIEDADES - Estou lançado!
A
ARTE - Agora apareça o Politeama.
O
POLITEAMA (Entrando.) - Lá lá lá lá lá lá lá!
(Entrada de clown.)
CUPIDO - Este parece
contente!
O
POLITEAMA - Estou na realidade contente, graças
a uma companhia eqüestre.
APOLO - Tinha bons artistas?
O
POLITEAMA - Nem por isso; o que ela tinha eram
magníficos bichos? Um elefante, duas focas,
alguns cavalos e outros bichos fizeram a minha
fortuna.
A
FÊNIX - Mas a menina dos teus olhos foi o
Blondin...
O
POLITEAMA - Oh! Blondin, o famoso cavalo
equilibrista!...
APOLO - Um cavalo
equilibrista...
O
RECREIO (Com desprezo.) - Equilibrista é um modo
de dizer.
O
POLITEAMA - Ora essa! Pois se ele atravessava
uma corda... Ora atravessava! atravessava! Um
metro... dois metros, quando muito.
O
SÃO PEDRO - E a corda era multo
larga...
O
POLITEAMA - Sim, convenho, era bastante
larga.
O
SANTANA - Nem era uma corda, era uma
prancha...
O
POLITEAMA - Sim, uma prancha, reconheço, mas
multo estreita.
CUPIDO - Em que ficamos? Era estreita ou
larga?
O
POLITEAMA - Como corda era larga, mas como
prancha era estreita.
O
VARIEDADES - E o cavalo passava muito
devagar...
O
SÃO PEDRO - Doucement, Blondin...
Doucement...
GILBERTO - Assim como se pisasse
ovos...
APOLO - E é com isso que se atrai o povo?
Ah, seu Politeama, se você apanhasse um cavalo
que tenho lá no Parnaso...
TODOS - No Parnaso?
CUPIDO (Vivamente, disfarçado.) - Parnaso
é uma fazenda que ele tem lá na
Bahia.
APOLO - Isso é que era obra! Um cavalo
que voa!...
TODOS - Que voa?!...
CUPIDO (Disfarçando.) - Vamos... venha
outro teatro!
O
POLITEAMA - Perdão, é preciso que saibam: não me
presto exclusivamente aos cavalinhos... tenho
uma companhia de zarzuelas. Ei-la. (Entram
alguns artistas mal vestidos.)
APOLO - Por Júpiter! que pobreza
franciscana!
O
POLITEAMA - A pobreza não é vicio.
UMA
ATRIZ - Nosotros somos pobrecitos, pero una
compensación: cantamos muy bien.
CUPIDO - Pois dêem-nos uma amostra dos
seus talentos!
A
ATRIZ - Con mucho gusto. (Canta um tango
espanhol com acompanhamento de
coros.)
APOLO - Outro teatro!
A
ARTE - Apareça agora o Pedro II.
O
LÍRICO (Entrando.) - Perdão; o Pedro II, não;
agora chamo-me Teatro Lírico.
O
LUCINDA - Aderiu.
CUPIDO - Lírico por quê?
O
LÍRICO - Naturalmente porque deixei de ter
companhias líricas.
APOLO - Deixou por quê?
O
LÍRICO - Porque o público não quer.
A
FÊNIX - Pobre público! tem costas
largas!...
A
ARTE - Tem razão: o público não quer senão
lunduns!
CUPIDO - Pelo amor de Deus, não fale mal
dos lunduns.
A
ARTE - Pois defendes essa vergonha
musical?
CUPIDO - Defendo, sim, senhora, e por
solfa. Ouça.
Lundum
I
Embora haja quem diga Do gênero tão
mal, Não sei de outra cantiga Que tenha
tanto sal. Sujeito já sem bola, Que esteja
pra morrer, Ouvindo uma viola, Começa a
reviver. Iaiá! laiá! Como um lundum
não há! Iaiá! laiá! Vida e calor nos
dá!
II
Ouvindo cançonetas E pândegos
couplets, Não sinto malaguetas Arderem-me
nos pés; Mas se um lundum brejeiro Acaso
ouço cantar, Jesus! que
formigueiro Obriga-me a saltar! Iaiá!
etc.
CORO - Iaiá! etc.
A
ARTE - Dize a estes senhores o que tiveste este
ano.
O
LÍRICO - Em primeiro lugar, uma companhia de
cavalinhos.
APOLO - Oh! oh! no Teatro
Lírico!
O
LÍRICO - Depois um grande artista italiano, que
passou quase despercebido: o
Novelli.
TODOS - Viva o Novelli!
O
LÍRICO - Depois, a célebre Judic!
TODOS - Viva a Judic!
O
LÍRICO - E o grande Coquelin!
TODOS - Viva o Coquelin!
O
LUCINDA - Infelizmente o Coquelin que veio ao
Rio de Janeiro não é o mesmo da Comédie
Française.
TODOS - Não é o mesmo?
O
LUCINDA - Sim, é um Coquelin de exportação, um
Coquelin preparado especialmente para o
estrangeiro.
CUPIDO - Em todo o caso, é o Coquelin da
Casa de Molière. Chapeau bas!
O
LÍRICO - Por último tive a companhia de
ópera-cômica inglesa, que só deu dois
espetáculos.
APOLO - Só dois! Por quê?
O
LÍRICO - Não sei. Eram ingleses: ficaram talvez
com medo do batalhão patriótico. Viram o Micado?
Não sabem o que perderam! Vou dar-lhes uma
amostra. (Entra um coro de japoneses. Dançam
todos os personagens ao som da música do
Micado.)
Coro
Eis
alguns tipos do Micado, Eis alguns tipos do
Japão; É cada qual mais engraçado, É cada
qual mais folgazão!
UM
TEATRO
-
Se o tal Micado se demora, O que há de ser,
meu Deus, de nós!
OUTRO
-
Mas felizmente vai se embora, E em campo
aqui ficamos nós.
CUPIDO
-
Música assim tão saltitante É rara em terras
de Albion! Isto seduz qualquer dançante!
Isto é xpto London?
CORO - Eis alguns tipos do Micado, etc.
(Saida geral.)
CENA VII
APOLO, CUPIDO, GILBERTO
APOLO - Agora vamos ver a
cidade.
GILBERTO - Se me deixassem dar um pulo à
casa do meu futuro sogro...
CUPIDO - Já se te disse que não! Tens
muito. tempo! Anda daí! (Saem.
Mutação.)
Quadro 6
Na
Praça Quinze de Novembro, ao fundo o barracão do
Panorama do Rio de Janeiro, visto de muitos
lados.
CENA I
APOLO, CUPIDO, GILBERTO, depois o PINTOR
[e o TESOUREIRO]
GILBERTO (À parte.) - Que grandes
cacetes! Estou tão perto da minha Laura, e não
posso vê-la!
APOLO (Olhando para o barracão.) - Que
espantalho é este?
CUPIDO - Dir-se-ia uma enorme forma de
pudim.
GILBERTO - É o barracão do Panorama do
Rio de Janeiro, visto do Morro de Santo Antônio,
pintado na Europa por dois artistas
ilustres.
O
PINTOR (Aprovando.) - Sim, meus senhores, é o
meu Panorama, o meu infeliz
Panorama!
CUPIDO - Infeliz por quê?
O
PINTOR - Pois não sabem que o pobrezinho estava
na chuva, e por causa disso ficou
estragado?
APOLO - É; não há nada para estragar como
a chuva.
O
PINTOR - Felizmente o desastre está remediado.
Ah! meus senhores, nós vivemos numa época cheia
de dissabores para os velhos
artistas.
CUPIDO - Deveras?
O
PINTOR - Os rapazes reuniram-se no Derby Club,
pediram a extinção da Academia de Belas-Artes
(Tira respeitosamente o chapéu.), e fundaram um
ateliê livre noutro barracão, no Largo de São
Francisco.
GILBERTO - É uma coisa esquisita. Nesta
cidade é sempre em nome da arte que se levantam
os barracões.
O
PINTOR - Havemos de ver que obras-primas sairão
dali!
APOLO - Quando se inaugura a Exposição do
Panorama?
O
PINTOR - Só em janeiro.
CUPIDO - Nós estamos de passagem... Se o
senhor consentisse que déssemos uma vista de
olhos...
O
PINTOR - Pois não! com todo o prazer! venham
comigo.
OS
TRÊS - Vamos. (Vão saindo, e esbarram-se no
Tesoureiro da Sociedade dos Homens de
Letras.)
O
TESOUREIRO - Não posso! não posso! Decididamente
resigno o meu cargo!
APOLO - Que cargo? (Ao Pintor.) Vá indo;
já lá vamos.
O
PINTOR - Quando quiserem, batam à porta... Lá os
espero. (Sai.)
CENA II
APOLO, CUPIDO, GILBERTO, o TESOUREIRO DA
SOCIEDADE DOS HOMENS DE LETRAS
O
TESOUREIRO - Façam os senhores uma pequena
idéia: eu sou o tesoureiro da Sociedade dos
Homens de Letras. Os senhores são
sócios?
CUPIDO - Não, senhor.
O
TESOUREIRO - Admira. É difícil encontrar no Rio
de Janeiro alguém que não seja
sócio.
GILBERTO (à parte.) - Não sou, mas hei de
ser. (Aponta para a garrafa.)
O
TESOUREIRO - Nós temos uma quantidade infinita
de sócios, mas até hoje (e a Sociedade já está
fundada há dois meses) apenas oito pagaram a
jóia. Tenho suado o topete a andar atrás dos
remissos! Não há meio! Os literatos não se
explicam!
CUPIDO - Mande-lhes os
meirinhos.
APOLO - E como são escritores e poetas,
muito prazer terão em ser citados.
O
TESOUREIRO - Qual! Não têm por onde se lhes
pegue. - Adeus, meus senhores, vou até à Praia
Grande comprar um vidro de óleo de São Jacó para
fazer umas fricções... políticas. Estou aqui,
estou eleito. Adeus. (Sai.)
APOLO - Que linguagem sibilina! Então
ele, para sei eleito, precisa de fricções de
óleo de São Jacó?
CUPIDO - Vamos ao Panorama!
Os
TRÊS - Vamos! (Vão saindo) mas detém-se vendo
entrar a sogra, o noivo e a noiva.)
CENA III
APOLO, CUPIDO, GILBERTO, uma SOGRA, um
NOIVO, uma NOIVA
A
SOGRA - Hão de ir à igreja! hão de ir à
igreja!
O
Noivo - Não vou! não vou! Estamos casados e bem
casados.
A
NOIVA - Naturalmente não há necessidade alguma
de ir à igreja!
A
SOGRA - Pois olhem, seus pelintras, que se vocês
não vão à igreja, não os deixo um momento
sozinhos! Não serei uma sogra: serei um
obstáculo vivo! Nada de consummatum est!
CUPIDO - (Interpondo-se.) - Então que é
isso? que é Isso?
A
SOGRA - Não há nada mais incivil que o tal
casamento civil! E demo-nos por felizes por não
terem decretado o casamento militar, a ponta de
baioneta!
APOLO - Que asneira, senhora! Baioneta! A
arma seria imprópria.
CUPIDO - Deixem-se disso, não façam
questão da forma.
O
NOIVO - Apoiado! No casamento só se deve fazer
questão do fundo!
A
SOGRA - Ah! coisa ruim!
CUPIDO - O casamento civil é tão bom como
o religioso, desde que seja purificado pelo
amor. Sem amor é que não há união decente. O
casamento sem amor é uma prostituição, quer seja
feito por um padre, quer por um
juiz.
APOLO (A parte.) - O tratante está a
puxar a brasa para a sua sardinha!
O
NOIVO - Eu amo minha mulher!
A
NOIVA - Eu adoro meu marido!
CUPIDO - Pois então vão para casa, sejam
felizes e tenham muitos filhos!
A
SOGRA - Não! não consinto que minha filha
coabite com um homem que não é seu marido à face
da Igreja.
O
NOIVO - Ai, que a senhora já me vai amolando!
Sou marido de Quinota à face do Doutor Salvador,
e é quanto basta!
APOLO - Ele está dentro da
legalidade.
A
SOGRA - Pode ser, mas está ofendendo a Deus! Se
o pai desta menina fosse vivo, não consentia
nisto.
CUPIDO - Talvez consentisse... quem
sabe?
A
SOGRA - Não consentia, não, senhor; o pai dela
era cônego.
APOLO - Ah! nesse caso não consentia por
espírito de classe.
A
SOGRA (Agarrando a filha pela mão.) - Você com
minha filha não vai!
O
NOIVO - Eu fico doente!
A
NOIVA - Me larga, mamãe!
O
NOIVO - Esta mulher faz-me ir para a cama!
GILBERTO - É justamente o que ela não
quer!
O
NOIVO (Segurando a noiva Vela outra mão.) -
Largue minha mulher, Dona Procópia!
A
SOGRA - Largue minha filha, seu
Cazuza!
Os
TRÊS - Então? Então?
O
NOIVO - Ah! não larga? (Dá-lhe um murro.)
Toma!
A
SOGRA - Ah! (Desmaia nos braços de
Apolo.).
CUPIDO - Fujam, e vão tratar da vida, que
a morte é certa. (Os noivos
fogem..)
APOLO - Ora não me faltava mais nada!
Volte a si, Senhora Dona Procópio! (A Gilberto.)
Dá-lhe a beber um pouco dessa água!
GILBERTO - Boas! (Aperta a garrafa com
ciúmes.)
A
SOGRA (Voltando a Si.) - Não é preciso. Por
donde foram eles?
CUPIDO (Indicando a direção contrária.) -
Por aqui.
A
SOGRA - Hei de empatar-lhe as vasas! (Vai
saindo.)
APOLO - Qual! Agora só o especifico do
Doutor Costa Sales!
A
SOGRA (Voltando.) Que época desgraçada! Até já
se vê um genro dar pancada na sogra!
(Sai.)
GILBERTO - O Cazuza foi
bruto.
CUPIDO - Isso foi. Não se bate numa
mulher nem com uma flor.
APOLO - Numa mulher, sim, mas numa sogra
bate-se até com um pau! - Vamos ao
Panorama!
GILBERTO - Que é isto? (Atravessa a cena
um Adivinho com os olhos vendados, levado pela
mão de um Sujeito.) CENA IV
APOLO, CUPIDO, GILBERTO, um ADIVINHO, um
SUJEITO, depois: IRMÃS DE CARIDADE,. depois um
MEMBRO DO PARTIDO CATÓLICO
OS
TRÊS - Ora esta!
O
SUJEITO - Psiu... psiu... Não o
perturbem!
CUPIDO - Que quer isto
dizer?
O
SUJEITO - Ele vai adivinhar onde pus o meu
charuto...
GILBERTO (Ao ouvido do Sujeito.) - E onde
o pôs você?
O
SUJEITO - Atirei-o ao mar... (Saem o Adivinho e
o Sujeito.)
CUPIDO - Vão cair n'água!
GILBERTO - Se ele adivinhasse o número da
sorte grande da Bahia, e mo
dissesse...
APOLO - Que fazias tu?
GILBERTO - Comprava o bilhete. Por
quê?
APOLO - Espera, deixa-me acabar: - Serias
muito tolo se não comprasses também as
aproximações!
GILBERTO - Vamos ao
Panorama.
Os
TRÊS - [Vamos!]
APOLO - Ainda não é desta vez.
Olhem!
(Entram algumas Irmãs de Caridade com
malas e outros preparativos de viagem. Uma delas
traz um papagaio.)
Coro
Amigas, vamos, que outro ofício
Podemos ter, E não devemos lá no Hospício
Permanecer! Nós não levamos dor profunda,
Mágoa iracunda No coração! Achamos
coisa divertida Esta partida De
supetão! Adeus, ó Rio de
Janeiro, Hospitaleiro País,
adeus! Adeus! Adeus!
GILBERTO - Então vão se
embora?
UMA
IRMÃ - Sim, senhor, nós vamos embora, porque não
consentimos que ninguém mande mais do que nós! -
Allons!
As
OUTRAS - Allons! (Vão saindo. Entra um membro do
Partido Católico.)
O
CATÓLICO (Vendo as Irmãs.) - Oh! fui procurá-las
para dizer-lhes adeus! Estive uma hora ali no
cais. (Abraçando uma por uma.) Adeus, Irmã
Maria! Adeus, Irmã Inês! Adeus, Irmã Suzana e do
Coração de Jesus! Adeus, Irmã Cunegundes do
Amor! Adeus, Irmã Bertolesa das Cinco Chagas de
Nosso Senhor Jesus Cristo! Adeus! Adeus!
Adeus!
(As
Irmãs saem sucessivamente depois de abraçadas.)
Deus as conduza!...
CUPIDO - Maganão... Abraçando as
mulheres...
O
CATÓLICO - Religiosamente, irmão. Já viram o
telegrama?
Os
TRÊS - Que telegrama?
O
CATÓLICO - O telegrama do Papa. (Tirando-o da
algibeira.) Ele cá está! Digam agora que é
mentira.
APOLO - Antes de mais nada, diga-nos:
quem é você?
O
CATÓLICO - Um membro proeminente do Partido
Católico.
CUPIDO - Sim, senhor, o Partido Católico
é um bom partido. Como vai essa
católica?
O
CATÓLICO - Com a graça de Deus, irmão. Mas
sabem? Nós formamos o nosso Partido, e o Papa
abraçou-o pelo telégrafo.
APOLO - E que temos nós com
isso?
O
CATÓLICO - Atreveram-se a dizer que não havia
tal... que o Papa não abençoara coisa alguma! Cá
está o telegrama de Roma, afirmando o
contrário... Vejam! é letra de Sua Santidade.
Vou expô-lo na Rua do Ouvidor.
CUPIDO - Na Rua do Ouvidor? Oh! Devia ser
em algum estabelecimento religioso!
O
CATÓLICO - Pois bem, vou expô-lo na Notre Dame.
Adeus, irmão. A paz do Senhor seja
convosco.
Os
TRÊS - Amém. (O Católico sai.)
CUPIDO - O tal partido tem tanto de
católico como eu, que já existia antes de
Cristo.
APOLO - Por isso, não: podias ter
aderido.
GILBERTO - Sim, não creio que essa gente
esteja... quero dizer - seja muito
católica...
CENA V
APOLO, CUPIDO, GILBERTO, depois
Operários
CUPIDO - Bem; creio que desta vez podemos
ir ao Panorama.
APOLO - Qual! Decididamente não podemos
arredar pé daqui! Aí vem um mundo de gente!
(Entram muitos operários com suas mulheres e
seus filhos. Vêm muito alegres. Entrada
animada.)
O
OPERÁRIOS - Viva o Ministro da Fazenda!
Viva!
CUPIDO - Bravo! que alegria!
PRIMEIRO OPERÁRIO - Hoje é dia de
festa!... Vamos tomar parte na grande
manifestação das classes operárias, feitas ao
Senhor Ministro da Fazenda.
APOLO - Manifestação bem merecida. O
Ministro é um brasileiro digno de todos os
louvores...
GILBERTO - Levam discurso
engatilhado?
SEGUNDO OPERÁRIO - Não, senhor; o
discurso é chapa... Levamos uma
cantiga...
OS
TRÊS - Uma cantiga?
TERCEIRO OPERÁRIO - Sim, senhor, e
podemos cantá-la aqui, para dar-lhes uma
mostrinha da fazenda.
OS
TRÊS - Valeu! Ouçamos.
Coro
Nós
vimos em coro, Contentes saudar Quem sabe
o Tesouro Com jeito levar! Ministro
excelente, De tanto valor, Merece da
gente Sincero louvor! (Os operários
saem.)
CENA VI
APOLO, CUPIDO, GILBERTO
APOLO - Estou entusiasmado! Que belo, que
opulento, que futuroso país, e como são felizes
esses operários, que às vezes se queixam sem
outro motivo senão essa nevrose da queixa, que
acomete a todas as classes! No Brasil o trabalho
e a fortuna estendem os braços a todos os
indivíduos!
CUPIDO - Como estás verboso!
APOLO - Palavra que, se eu não fosse
Febo, filho de Júpiter e de Latona, irmão de
Diana, pai das Musas, deus da Poesia, vencedor
da serpente Píton, e se não me desse tão bem no
Parnaso, no Piário e no Pindo, e nas margens do
Hipocrene e do Permesso, ficava nesta terra,
fazia-me brasileiro, mudava de nome, chamava-me,
por exemplo, Joaquim José da Silva, e mandava à
tábua a minha divindade, o Pégaso, as Musas, os
poetas e os deuses!
CUPIDO - Apolo, essa
linguagem...
APOLO - É a linguagem da franqueza e da
sinceridade. Gosto do Brasil.. Adoro o Rio de
Janeiro, apesar dos bondes, dos quiosques, dos
cortiços e dos cem sonetos do Diário do
Commercio.
CUPIDO - Lembra-te que tens uma grande
responsabilidade...
APOLO - Ora não me aborreças! Estou farto
de ser deus!
GILBERTO - Bom, não briguem... vamos ver
esse encantado Panorama!
APOLO - Qual Panorama nem meio Panorama!
Querem ver o que ali está dentro? Subam ao tal
Morro de Santo Antônio! Escusam de ver pintado o
que têm diante dos olhos, palpável, movimentado,
eterno, perfumoso, belo! O que eu queria, o que
esses dois ilustres artistas deviam ter pintado,
era o Rio de Janeiro como há de ser no futuro,
quando desaparecerem os estafermos dos morros, e
as ruas se alargarem, e novas praças se abrirem,
e os casebres desaparecerem para dar lugar a
verdadeiros primores de arquitetura! E porque
eu, Apolo, o deus das Belas-Artes, não lhes hei
de mostrar esse panorama do futuro? Tudo pode a
minha fantasia! Tudo obedece à minha
onipotência!
CUPIDO - Vais dar-nos um
panorama?
APOLO - Vou.
GILBERTO - Mesmo porque é um bom final de
ato!
APOLO - Vejam! O Rio de Janeiro daqui a
vinte e nove anos. (Aponta para o fundo.
Mutação.)
Quadro 7
O
Rio de Janeiro do futuro
[(Cai o pano.)]
ATO
TERCEIRO
Quadro 8
No
Largo da Carioca
CENA I
O
SEIXAS, PRIMEIRO ARGENTINO, SEGUNDO ARGENTINO,
uma SENHORA ARGENTINA, ARGENTINOS,
POVO
(Ao
levantar o pano, a cena está cheia de povo. Os
Argentinos entram como quem vem de viagem. Entre
eles, algumas senhoras, uma das quais traz
alguns quadros debaixo do braço.)
Bolero dos Argentinos
Coro
Viva la bella Guanabara, Cándida ninfa
del Brasil, Patria feliz, hermosa y
rara, Fúlgida perla tan gentil. Amo el
calor de tus montanas, Amo tu cielo
abrasador! Tierra de luz, de luz me
bañas Y me haces palpitar de amor. Que
cosa rara Es Guanabara Trá lá lá
lá!
A
SENHORA ARGENTINA
-
Viva la bella Guanabara! etc.
Ai
que montanas Ai que calor! De luz me
banas, Tierra de amor! - Trá lá lá lá!
Viva la bella Guanabara) etc.
SEIXAS - Ora vivam, monsiús. Então que
lhe parece a cidade?
PRIMEIRO ARGENTINO - Muy mona, muy mona.
SEIXAS - Mona!
UM
SUJEITO - Mona em espanhol quer dizer bonita.
SEIXAS - Pois mona aqui é mulher de
macaco ou bebedeira.
SEGUNDO ARGENTINO - Buenos Aires es
también muy monita, pero después de la
revolución no se puede vivir allá. No hay
plata.
PRIMEIRO ARGENTINO - Principalmente en La
Plata.
A
SENHORA - Yo trago unos cuadros a ver se los
puedo vender.
SEIXAS - Talvez venda,
talvez...
A
SENHORA - Me dicen que en Rio de Janeiro el
gusto por las bellas- artes se va
desarrolíando... que son mui concurridas las
exposiciones de pintura.
SEIXAS - Não, madama; gosto não há
muito... mas, enfim, como dizem que agora o que
não falta é dinheiro...
PRIMEIRO ARGENTINO - En Buenos Aires
también no faltaba el dinero... pero un dia se
cayó la casa!
A
SENHORA - Y si no fuera haber faltado la
pólvora, como faltá la plata, no sé que seria de
nosotros. Adiós, caballero!
Os
ARGENTINOS - Vamos?
SEIXAS - Adeus, Senhores Argentinos...
Argentinos... sempre às ordens. Eu chamo-me
Seixas... o célebre cobrador.
Os
ARGENTINOS - Gracias... Adiós... (Saem repetindo
um motivo do bolero.)
CENA II
POVO, o SEIXAS, um MONARQUISTA, depois um
JOGADOR
SEIXAS (Indo ao encontro de um
Monarquista, que atravessa a cena com um
embrulho debaixo do braço.) - Ó seu Faria, que
leva você aí?
MONARQUISTA - Uma relíquia. Vim do leilão
do paço de São Cristóvão.
SEIXAS - Ah!
O
MONARQUISTA - Queria comprar um objeto de uso
particular do meu amado ex-monarca... mas um
objeto que não fosse muito caro. O que pude
arranjar, e assim mesmo por duzentos mil réis,
foi isto... Tem se vendido tudo por um
dinheirão.
SEIXAS - E isto que é? (Apalpando.) Ah!
Já sei, já sei! É um objeto de uso muito
íntimo.
O
MONARQUISTA - Imaginem o valor histórico que
isto há de ter mais tarde! (Beijando o
embrulho.) Meu pobre ex-monarca! Adeus, seu
Seixas!
SEIXAS - Cuidado com a terrina. (O
Monarquista sai, entra o Jogador.) Oh! diabo!
que cara traz você!
O
JOGADOR - Deixe-me! Fui apanhado pela Polícia
numa roleta!
SEIXAS - Estão agora a perseguir outra
vez o jogo?
O
JOGADOR - O jogo, não: as casas de jogo. As
loterias continuam, na Rua da Alfândega joga-se
desesperadamente, e já este ano se inauguraram
mais dois prados de corrida! E não imagina você
com que caiporismo eu estava hoje. Eu só jogo no
23, no 26 e no 29. Pois nem uma vez saiu nenhum
desses números! Desapareceram!
Lundu
Ai!
todos três foram-se embora de uma vez! O
Vinte e Seis, o Vinte e Nove e o Vinte e
Três! Dizei-me, olá, se há por aí quem
desencove O Vinte e Três, o Vinte e Seis e o
Vinte e Nove.
SEIXAS
- O
vinte e Seis foi suprimido, O Vinte e Três
foi revogado, E o Vinte e Nove foi
corrido Porque era muito
desbocado.
JUNTOS - Ai! todos três foram-se embora
de uma vez! etc.
O
JOGADOR - Adeus.
SEIXAS - Vamos juntos. Aonde vai
você?
O
JOGADOR - A Intendência Municipal pagar mil e
quinhentos réis por um sermão que não
encomendei.
SEIXAS - Como assim?
O
JOGADOR - Uma chapa de numeração que me pregaram
à porta.
SEIXAS - Amigo, pague e não bufe. A
Intendência, quando cobra, é pior que eu.
(Saem.)
CENA III
CUPIDO, APOLO, GILBERTO, depois o HOMEM
DOS ÓCULOS
APOLO - Ora que idéia! pôr a estátua de
Colombo no cume do Pão de Açúcar! Esta não
lembrava ao diabo!
CUPIDO - O autor da idéia devia ir para o
Bico do Papagaio.
GILBERTO (Consigo.) - E eu nada de ir ter
com a minha Laura! Que deuses
impertinentes!
APOLO - Oh! a manifestação é uma velha
mania dos brasileiros.
GILBERTO - Parece que, depois de
proclamado o regime da liberdade e da
independência, as manifestações deveriam cessar
ou, pelo menos, diminuir de intensidade. Deu-se
exatamente o contrário; nunca o Farani e o Luís
de Resende cravejaram de brilhantes tantas
condecorações de ouro, nunca no Globo foram
encomendados tantos banquetes, nem ao Petit
tantos retratos a óleo! (Nisto, os três
personagens, ouvindo ao fundo prolongados psius,
voltam-se muito intrigados. É o Homem dos Óculos
que vende uma seringuinha que, apertada entre os
dedos, dá esse som.)
APOLO, CUPIDO e GILBERTO (Dando pelo
engano.) - Ah!
O
HOMEM DOS ÓCULOS - Compre! Compra um pra
eu!
(Aproximando-se dos três.) Meus senhores,
vejam isto!
Coplas
Uma
bela novidade Tenho aqui para vender! É
provável que isto agrade, Porque tem graça a
valer! Meus ilustríssimos senhores, Façam
favor de examinar... Reparem bem pra estes
primores E queiram todos três comprar, Tão
curiosa descoberta Descanso dar à língua
vem... Isto com os dedos aperta Quem
quiser chamar alguém! Vejam
lá! Psiu! Meu bem, vem cá! Meu bem, vem
cá! Teu amor cá está Quando eu te vejo,
faço assim: Psiu! Não fujas de mim! Meu
bem, vem cá! etc.
OS
TRÊS
II
Este pândego assobio Se é verdade o
que se diz, Invenção foi de um vadio, Que
os há muitos em Paris, Como no Rio de
Janeiro Também os há e em profusão, Eu vou
ganhar muito dinheiro, Eu vou ganhar um
dinheirão! Tão curiosa descoberta,
etc.
APOLO - Bem... vá vender mais longe a sua
gaita.
(O
Homem dos Óculos afasta-se apregoando sempre, e
desaparece.)
CUPIDO - Que misteriosas mulheres aí
vêm!
CENA IV
APOLO, CUPIDO, GILBERTO, PRIMEIRA MULHER,
SEGUNDA MULHER, MULHERES
(Entra um grupo de mulheres embuçadas de
modo que ninguém as possa
reconhecer.)
CORO DE MULHERES
-
Que lei tirânica! Que coisa exótica,
Vândala, bárbara E despótica! Não há
mais para onde ir! Um lugar não achamos
Onde possamos Nos distrair!
UMA
DAS MULHERES - E agora, minhas amigas, que
havemos nós de fazer?
CORO
-
Ai! meu Deus! Não pode haver maior
maldade! Oh! que calamidade! Oh! que
homens tão judeus!
A
MULHER - É tratar de arranjar outra
coisa...
CORO - Que lei tirânica!
etc.
GILBERTO - Quem são Vossas Excelências?
PRIMEIRA MULHER - Somos senhoras da
melhor sociedade, casadas, mães de família...
não queremos que nos reconheçam.
APOLO - E por que se lamentam desse
modo?
CUPIDO - Naturalmente por causa da
carestia da carne.
SEGUNDA MULHER - Não senhor;
lamentamo-nos porque havia aí umas casas onde
costumávamos a passar algumas horas divertidas,
e a Polícia acabou com elas. Perdemos o único
refúgio que tínhamos contra a sensaboria do lar
doméstico.
GILBERTO - Mas que faziam as senhoras
nessas casas?
CUPIDO - Ora que pergunta!
PRIMEIRA MULHER - Nada de
mais...
APOLO - Jogavam a bisca...
SEGUNDA MULHER - Cantávamos
duetos...
PRIMEIRA MULHER -
Brincávamos.
CUPIDO - E privam-nas desses eldorados!
Que gente má!
SEGUNDA MULHER - E acabaram também com as
cartomantes! Só nos falta agora que acabem com
as modistas!
(Saem repetindo um motivo do
coro.)
GILBERTO - Pobres senhoras! Também já não
existe o Cassino. Tiram-lhes tudo!
CENA V
APOLO, CUPIDO, GILBERTO, um CARROCEIRO,
depois a IMPRENSA FLUMINENSE
(O
Carroceiro entra e fala para dentro. Tem a
cabeça amarrada com um pano manchado de
sangue.)
O
CARROCEIRO - Nã senhor, nã trabalho (Apontando
para a cabeça.) à vista deste argumento.
(Descendo.) Arre! desta vez é que se vai ver o
que é uma greve!
GILBERTO - Quê! há greve?
O
CARROCEIRO - Sim, senhor, uma greve de cocheiros
e carroceiros... e como eu sou carroceiro para
servir a Vossa Senhoria, já deixei a carroça e
mal o burro.
APOLO - Mas qual é o motivo desta
greve?
O
CARROCEIRO - O motivo não mo disseram, e como eu
o perguntasse, arrumaram-me com uma pedra que me
abriu esta brecha no casco... Motivo creio que
nã há... só sei que há greve e que não devo
trabalhar.
CUPIDO - Que diabo! Se não há razão para
a greve, os animais serão os únicos a lucrar com
ela.
O
CARROCEIRO - Eu cá não sei disso... Os meus
colegas fizeram parede, e nanja eu que a fure!
(Sai)
APOLO - Ora aí está um sujeito que não
fura paredes.
GILBERTO - Uma greve de veículos! Que
bom! Enquanto isso durar, o Rio de Janeiro será
uma cidade ideal! Aí vem a Imprensa
Fluminense!
A
IMPRENSA (Entrando.) - Estou desesperada!
APOLO - Por quê, minha
senhora?
A
IMPRENSA - Por causa do ataque à Tribuna... A
solidariedade!...
CUPIDO - Pois sim, mas não se incomode; a
senhora este ano tem tido uma felicidade
brutal!
A
IMPRENSA - Sim, graças ao anúncio... mas a
solidariedade! ...
CUPIDO - E há outros motivos para estar
contente... A senhora tem grande cotação na
praça... foi vendido o Jornal... foi vendido o
País... e o Novidades... e o Correio do Povo...
e vai ser vendida a Gazeta...
APOLO - Tudo se tem vendido este ano... o
Palácio de Nova Friburgo, o Teatro São Pedro, o
Variedades, a fábrica de flores da Rua do
Passeio...
A
IMPRENSA - Sim, estou satisfeita... mas vou
também fazer greve, porque a solidariedade!...
Oh! a solidariedade!...
Os
TRÊS - Sim, a solidariedade!... (Passa pelo
fundo um grupo de homens disputando-se um enorme
par de sapatos.)
OS
TRÊS - Que é aquilo?
A
IMPRENSA - Aqueles sujeitos brigam por causa de
uns sapatos de defunto. Foi o que deixou o
Ferreira boticário. Vou apreciá-los.
(Sai.)
CENA VI
CUPIDO, APOLO, GILBERTO, os
NOVOS
Coro dos Novos
I
Eis
os tais chamados Novos Estupenda
legião, Que é o assombro destes povos, Que
é o orgulho da Nação! Acabou-se a noite
escura Que ensombrava este País! Vamos ter
literatura Muito mais que em Paris. Abaixo
a velhada Que está rococó Viva a
meninada E viva ela só!
II
Atiremos para um canto Nossos trêmulos
avos... Nenhum deles teve tanto Talentinho
como nós! Vai o mundo ver em guerra, Os
filhotes contra os pais! Quem dá regras nesta
terra Somos nós, e ninguém mais! Abaixo a
velhada, etc.
APOLO - Então os meninos são os
Novos?
PRIMEIRO NOVO - Sim, senhor. Na
literatura brasileira só nós valemos alguma
coisa. Tudo o mais é imprestável!
SEGUNDO NOVO - Os velhos são
inúteis!
APOLO - Oh! que bonitinho! (Pega o
segundo Novo ao colo.)
TERCEIRO NOVO - Dos vinte e cinco anos
para cima os literatos brasileiros não prestam
para mais nada!
PRIMEIRO NOVO - Da geração passada não há
um literato que se salve.
CUPIDO - E Gonçalves Dias?
PRIMEIRO Novo - É um fóssil!
GILBERTO - Otaviano?
TERCEIRO NOVO - Um tolo.
APOLO - Alencar!
SEGUNDO Novo (Sempre ao colo de Apolo.)
Uma besta!
PRIMEIRO Novo - Só nós, os Novos, fazemos
alguma coisa com jeito... Vamos deitando abaixo
tudo quanto é velho!
APOLO - Bonito! (Deita vivamente o menino
no chão.)
TODOS - Que foi?
APOLO - Uma arte deste Novo! Bem diz o
ditado: Quem se mete com crianças... Ora
esta!
PRIMEIRO NOVO - Aí vem o batalhão
patriótico!
CENA VII
OS
MESMOS, o COMENDADOR, PRIMEIRO, SEGUNDO,
TERCEIRO, QUARTO, QUINTO SOLDADOS,
SOLDADOS
(O
batalhão entra marchando com o Comendador na
frente, a servir de baliza.)
CORO DOS SOLDADOS
-
Rataplã! Rataplã! Rataplã!
Plá! O batalhão patriótico Ei-lo,
cá está! cá está! Que lá nas terras de
África A manta pintará! A valorosa
espada Que ao nosso lado cai, Batendo na
calçada Sonoramente vai Assim: Tlin!
Tlin!
O
COMENDADOR
-
Eu tenho uma comenda, Mas longe estou de ser
um homem rico, Porém me sacrifico Por este
batalhão! Acompanhá-lo agora Eu vou até
Lisboa, E há de a Inglaterra, a proa Logo
abaixar, verão!
PRIMEIRO SOLDADO
Pra
minha terra Quero ir me embora... Não
tenho agora Nem um tostão... Ai! se não
fosse Pr' economia, Eu não iria Co
batalhão!
CORO
-
Ah! Ah! Ah! Ah! Viaja de graça! Que
espertalhão!
SEGUNDO SOLDADO - Eu fui
caixeiro.
TERCEIRO SOLDADO - Fui
carroceiro.
QUARTO SOLDADO - Fui
chacareiro.
QUINTO SOLDADO
-
Pois eu cá fui vagabundo Desprezou-me todo o
mundo... E é por Isto Que me
alisto...
CORO
-
Nosso belo batalhão Vai fazer um figurão,
Pois nós afirmamos Que, dentro em dois
meses, Matamos Duzentas, Trezentas, Quinhentas, Seiscentas, Centenes Apenas De
Ingleses! Plã! Rataplã! Plã! Plã! (Saem
todos.)
CENA VIII
CUPIDO, GILBERTO, APOLO
APOLO - Bem! É tempo de voltar para o
Parnaso.
CUPIDO (A Gilberto.) - É sim! Vais ver a
tua namorada.
APOLO - Quando chegares ao corredor da
casa em que ela mora, bebe um gole valente dessa
garrafa. Adeus! Sê feliz!
(Abraça-o.)
CUPIDO - Adeus! (Abraça-o.)
GILBERTO - Não sei como agradecer tantos
obséquios...
APOLO - Não agradeças. Adeus. (A Cupido.)
Vamos tomar o carro!
CUPIDO - Vamos!
GILBERTO - Adeus! (Apolo e Cupido
saem.)
GILBERTO (Só.) - Só! Ainda me parece um
sonho! Corramos à casa de minha querida Laura!
(Sai. Mutação.)
Quadro 9
A
mesma cena do primeiro quadro
CENA IX
MELO, ALBINO, depois LAURA
(Melo entra, trazendo na mão uma lista do
recenseamento. Albino acompanha-o.)
MELO - Ela só pelo diabo! Não entendo
esta maldita lista do recenseamento! Nunca vi
coisa tão complicada! (Senta-se.) Vem cá!
(Albino aproxima-se.) Ajuda-me a encher isto. É
em prosa, mas é muito difícil! (Lendo.) "Nome...
Já está. "Estado..." "Município..." Já está.
"Idade..." Já está. "Sexo..." Ora, dize-me cá:
uma vez que eu já declarei que me chamo Bernardo
Vítor de Melo, que necessidade tenho de dizer
que sou do sexo masculino?
ALBINO
-
Sempre é bom, senhor meu amo... Fica claro
como o dia... Eu conheci um sujeito Que se
chamava Maria.
MELO - Pois sim, mas o que ninguém
conheceu foi uma sujeita que se chamasse
Bernardo Vítor de Melo. Enfim... (Escrevendo.)
"Masculino"... (Continuando a ler.) "Cor"...
Branca. "Defeitos físicos"... "Cego"... Não sou.
"Surdo-mudo"... Deus me livre! "Surdo"... Credo!
"Idiota"... (Encara Albino.) Por que é que olhas
para mim? Então eu sou idiota?
ALBINO
-
Nessa casa, meu bom amo, Cabem dizeres
diversos... Não diga "sou idiota", Mas
escreva "faço versos".
MELO - Ora vai para o diabo! Fazer versos
não é defeito físico! (Continuando a leitura.)
"Filiação..." Legítima... Duvido que nestas
listas apareça um filho natural. "Estado
civil"... Viúvo. Tudo o mais já está. (Passando
uma página.) Esta página é para os casados.
(Indo á página seguinte.) Tenho agora que
repetir a mesma cantiga. Isto me põe doido!
"Nome"... "Nacionalidade"... "Relação com o
chefe da casa"... O chefe da casa sou eu. "Sabe
ler e escrever"... "Culto..." Tudo isto já está
"Profissão" Achas que eu escrevo "poeta"? Ah!
Não! (Escrevendo.) "Proprietário"... "Poeta"
fica para esta outra casa: "Título científico,
literário ou artístico"... "Renda"... Olha,
sabes que mais? Vai encher isto. Eu perco a
cabeça! (Dá a lista a Albino. Laura entra muito
triste.) Então, ó pequena, ainda estás triste?
Ainda não te desenganaste? Duvido que o tal
Gilberto apareça, assim como sempre duvidei que
desaparecesse, estando as portas tão bem
fechadas como estavam!
LAURA - Papai está enganado; se houvesse
fechado as portas, ele não
sairia...
MELO - Pode ser: eu estava naquele dia
com a musa, e quando estou com a musa, não
respondo por mim. A propósito: ouve esta quadra
que fiz ontem à noite. (Tirando um papel da
algibeira.) É o princípio de uma ode.
(Lê.)
"Honra à poesia, a deusa augusta e
altiva, Honra à poesia, a deusa
divinal!
O
povo elegeu muitos poetas, Mandou-os ao
Congresso Nacional."
LAURA (Friamente.) - Muito
bem.
MELO - Estes foram feitos sem o adjutório
do Albino.
ALBINO (À parte.) - Vê-se.
MELO - Menina, isto de fazer versos fica
muito fino. O dom da poesia não é coisa que se
arranje do pé para a mão. Enfim, se o rapaz
prometeu voltar, lá tinha as suas
razões.
LAURA - Ah! papai! se soubesse como
sofro! (Albino tem um estalar de
língua.)
MELO (A Albino.) - Ainda aí
estás?
ALBINO
-
Eu acho bem razoável De sua filha a
quizília. Não é preciso ser poeta Para ser
pai de família.
MELO - Também tu?
ALBINO
-
Sonetos, décimas, quadras - Concorde, ó flor
dos patrões! - Nunca deram para aquilo Com
que se compram melões.
MELO - Pois tu de que vives, animal? Com
que profissão vais figurar nessa lista de
recenseamento?
ALBINO
-
Vivo de versos, é certo... Que
descoberta!... ora bolas... Mas, se não
fosse o patrão, Eu estava a pedir
esmolas!
MELO - Péssima quadra, Senhor Albino.
Esse "ora bolas" e uma muleta. Uma muleta e uma
insolência!
LAURA - É escusado, Albino! por mais
muletas que ponhas nos teus versos, papai não
nos atende! Ninguém o demove! Quer um genro
poeta! (Chora.)
ALBINO (A Melo.)
-
Daquele pranto sincero Piedade o patrão não
tem! A menina chora tanto, Que me faz
chorar também!
MELO (Sempre sentado, impassível, a reler
os versos.)- Honra à poesia, a deusa augusta e
altiva, etc.
LAURA (Chamando Albino com um gesto.) -
Vê se te lembras de um estratagema qualquer...
ALBINO
-
Não há menina, decerto, Estratagema
nenhum...
LAURA - Podes falar em
prosa.
ALBINO - Que quer? O
costume...
LAURA - Mas dizias?
ALBINO
-
Estratagema não vejo, Estratagema não
há...
LAURA - Fala em prosa,
Albino!
ALBINO - Desculpe... Aqui não há
estratagemas possíveis: seu papai quando
embirra, é o mesmo que um sendeiro
velho.
LAURA - Isso agora é prosa demais. Mas
experimenta. Tens tanta influência sobre
ele...
ALBINO - Distingamos. Tenho muita
influência sobre o poeta, mas não sobre o pai.
Ah! quem me dera a mim que seu marido não fosse
poeta!
LAURA - E a mim também! Um marido maluco!
ALBINO - Em havendo poeta na família, seu
pai dispensa os meus serviços.
LAURA - Qual! Tu fazes-lhe muita falta.
ALBINO - Ninguém faz falta neste mundo. A
menina não viu o que fez o imperador da
Alemanha?
LAURA - Que foi?
ALBINO - Dispensou os serviços de
Bismarck. Ora, se Bismarck foi dispensado, que
direi eu?
LAURA - Meu pobre Gilberto! (Vai
sentar-se.)
MELO (Que tem estado a reler os seus
versos.) - Vem cá, Albino. (Albino aproxima-se.)
Senta-te, e dize-me cá, em vez de:
Honra à poesia, a deusa augusta e
altiva,
Não
seria melhor:
Honra à poesia, a deusa altiva e
augusta?
(Albino franze a testa, toma o papel e
vai responder, quando todos os instrumentos da
orquestra soltam um nota uníssona e estridente.
Ao mesmo tempo, Gilberto entra com
impetuosidade. Melo e Albino assustam-se e caem
por terra, Laura levanta-se
contentíssima.)
CENA II
MELO, ALBINO, LAURA e
GILBERTO
MELO e ALBINO - Ai!...
LAURA - Ele!
GILBERTO (Com muito fogo.)
-
Qual saudoso passarinho Que o abandonado
ninho Vai procurar com carinho, Cidadão
Melo, aqui estou! Um genro poeta
queria? Pois bem, senhor, hoje em dia Já
tenho o dom da poesia Com que Apolo me
dotou!
(Melo e Albino erguem-se
boquiabertos.)
Eu
trago um estro luzente! Eu trago um estro
potente! Eu trago um estro esplendente! Eu
trago um estro titão!
ALBINO (A Melo.)
-
Traz quatro estros na mente... E uma garrafa
na mão!
MELO (Muito interessado.) - Espera,
homem!
GILBERTO
-
Quando os meus versos vomito, Quando despeço
o meu grito, Abalo todo o infinito, Comovo
toda a amplidão!
ALBINO (A Melo.)
-
Ele é poeta, tenho dito; E é gongórico,
patrão!
MELO (Repreensivo.) - Oh!
GILBERTO (Sempre com muito
fogo.)
-
Cupido levou-me ao colo Aos pés do divino
Apolo, E eu pedi-lhe a inspiração! Por um
mágico processo Fiquei poeta! Outra vez
peço Esta alva e mimosa mão.
(Corre para Laura, beija-lhe a mão e
fala-lhe baixo.)
ALBINO (A Melo.)
-
Senhor meu amo, uma idéia De repente me
ocorreu...
MELO - Dize qual foi... em
prosa.
ALBINO
-
Em prosa, senhor meu amo! A prosa é terrena e
vil.
MELO - Em prosa, sim! Pois hei de estar
sempre a ouvir versos! Tomei agora uma
barrigada, que me empanturrou!
ALBINO (A parte.) - Hum... Cá está o
Bismarck, e (Apontando para Gilberto.) ali está
o Caprivi... (Alto.) É que pode bem ser que
aquilo viesse estudadinho de casa.
MELO - Sim senhor! bem lembrado!... Foi
pena ser em prosa! (A Gilberto.)
-
Psiu, ó amiguinho, mais devagar... Faça favor
de fazer um improviso já.
GILBERTO (Com muita
volubilidade.)
-
Oh! pois não! é só pedir! Rimo com
facilidade, Metrifico sem vontade,
Versejo sem sentir!
LAURA - Mas não te podes exprimir senão
em verso?
GILBERTO
Não
posso. Nem me recorda Como é que em prosa
falei! Meu doce amor, tenho corda, Por
quanto tempo não sei!
MELO (A Albino, com muita convicção.) -
Parece-me que o rapaz é poeta, e poeta às
direitas! Façamos uma experiência definitiva e
suprema. Ó seu Gilberto, faça favor de glosar um
mote... (Pensando.) Que há de ser? Dá-lhe um
mote, Albino! Quero ver como se
sai!
ALBINO
-
Esse mesmo: Quero ver como se
sai.
GILBERTO (Repetindo.) - Quero ver como se
sai.
(Depois de pequena pausa.)
Amor é uma cidadela Onde eu entrei
facilmente, E fiquei, preso e
contente, Nos braços de Laura bela; Mas
como, se me quer ela, Não me deseja seu
pai, Em fugir do que me atrai Meu desejo
se concentra; Eu já sei como se entra, -
Quero ver como se sai.
MELO - Lança-te nos meus braços, meu
genro! (Entusiasmadíssimo.) Bocage! Bocage
puro!... Vou ter em casa um novo Elmano!...
Minha filha, dá-me a tua mão. (Pega, por engano,
na de Albino.) Então! temos brincadeira, seu
poetastro? (Toma a mão de Laura.) Gilberto,
dá-me a tua mão! (Pega outra vez, por engano, na
mão de Albino, que tem passado para o lado
oposto.) Adeus, viola!... (Toma a mão de
Gilberto e une-o à filha.) Casem-se e sejam
muito felizes! Tenho pena de não lhes poder
dizer isso em bonitos versos...
ALBINO (Insinuando.) - Se o patrão
quiser...
MELO (Vivamente.) - Não. (Continuando.)
Tenho pena de não poder empregar aqui essa
linguagem maviosa com os sons de longínqua
flauta que suspira uma endeixa repassada de
melancolia e de amor, branda como o sopro da
brisa que às ave-marias cicia por entre os
arbustos orvalhados pelo crepúsculo. - Vai em
prosa, meus filhos, vai em prosa... poética!
(Gilberto e Laura ajoelham-se.)
Tableau!
ALBINO (Ao público.) - A vista disto e
dos autos, Bismarck vai tratar de arrumar a
trouxa! (Sai. Gilberto e Laura
erguem-se.)
CENA III
MELO, LAURA, GILBERTO, depois
ALBINO
GILBERTO - Adivinhe se é capaz O que esta
garrafa traz?
LAURA - MELO (Tomando a garrafa.) - É o
quê? Sabes lá o que é! (Cheira.) Parece água
pura! (Depois de cheirar.) É; cheira a
água.
LAURA (Tomando a garrafa.) - Deixe ver.
GILBERTO (Tomando a garrafa da mão de
Laura, a Melo.)
-
Muito bem. Um gole beba, E o dom das Musas
receba!
MELO - Olhe, não vá fazer mal!
GILBERTO
-
Beba um gole bem taludo, E me dirá se o
iludo!
MELO (Toma a garrafa, hesita) bebe
afinal, e fica como Gilberto no
Parnaso.)
-
Em meu cérebro se opera Singular
transformação! O meu miolo é cratera E a
minha bola, vulcão!
LAURA - Meu Deus! papai ficou maluco!
(Gilberto tranqüiliza-a com um
gesto.)
-
Será isto uma quimera? Será isto uma
ilusão? Faço versos de improviso! Do
Albino já não preciso! Este líquido me
afoga! Tenho cá dentro uma
brasa!
(Noutro tom.)
Onde se vende essa droga? Eu quero ter
dela em casa! Minha filha bebe um
gole...
(Laura hesita.)
Vai! Não tenhas medo.
Engole!
(Laura bebe.)
LAURA (Com os mesmos sintomas do
pai.)
-
Ai meu Deus! que coisa estranha! Sonora fonte
desliza E tenros arbustos banha Ao som do
sopro da brisa Hei de repetir a dose, Que
a droga é mais papa-fina Do que a célebre
cocoquina Que cura a tuberculose! Filhos,
por este sistema, Poderão dar-me vocês De
vez em quando um poema...
GILBERTO (Atalhando.)
- E
um poeta de quando em vez. Esta garrafa
guardada Com mil cuidados vai ser: Toda a
nossa filharada Versinhos há de
fazer.
LAURA (A Albino, que entra com uma trouxa
debaixo do braço.)
-
Não sabes? Eu sou poetisa... Sei a linguagem
da brisa, Conheço o idioma da flor... Meu
Gilberto, de hoje em diante, Serei muito mais
amante, Amar-te-ei com mais
fervor.
ALBINO - Que é isso, Mãe Santíssima!
MELO (A Albino.)
-
Sou poeta! Foi benefício De uma droga que
bebi, Vai procurar outro ofício, Já não
preciso de ti.
ALBINO (À parte.) - Nem eu ficava nesta
casa de orates.
(A
Melo.) Adeus! Bem vê: já tenho as malas
prontas.
MELO - Queres dizer: a
trouxa.
ALBINO
-
Sim, senhor. Mais tarde voltarei pra ajustar
contas, Pois deve ter um saldo a meu favor.
(Sai.)
GILBERTO (Tomando Laura pela mão e
conduzindo-a ao proscênio.)
-
Agora o couplet final, Pois com uma
apoteose Esta peça se descose E termina
muito mal.
(A
orquestra executa a introdução da copla, e Laura
começa a cantar, mas é interrompida por vozes
que se levantam de todos os ângulos da sala,
protestando.)
ESPECTADORES - Fora o couplet: venha a
apoteose!
MELO
- A
apoteose o povo exige! A apoteose é de
rigor!
LAURA - Tem razão: noblesse
oblige...
(Apontando para o fundo.)
Aquele é o reino do Amor!
(Mutação. Apoteose)
Quadro 10
[(Cai o pano)]
Fonte: Teatro de Artur Azevedo - Tomo
III - Coleção Clássicos do Teatro Brasileiro
vol. 7 - INACEN - 1987
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