
O autor com Ombra do Chuí.
CAÇANDO COM POINTER I
Estou me apresentando para quem não viveu as épocas prósperas quando éramos 12.000 caçadores registrados no RGS., muito poucos caçavam no Uruguai e a caça era abundante no nosso Estado, como ainda o é. Não sou saudosista. Longe disso. Mas a gente lembra com prazer os tempos em que as coisas eram mais fáceis, embora as estradas mais difíceis, mas os companheiros amigos e os amigos companheiros.
Iniciei-me na caça com onze anos levado pelo tio materno Ruy Weber Dias. Como todos, na época, ele caçava com cruza Bracco-Pointer, considerados os melhores para rastrear perdizes. Sim, porque ventores que amarravam por cima e seguiam a emanação de nariz alto havia muito poucos e, na maioria importados. Os caçadores não davam valor aos cães ligeiros que exigem preparo físico de quem leva a arma e apurado adestramento. Preferiam animais lerdos que proporcionavam quantidade de peças abatidas. Também fui um desses caçadores durante alguns anos. Comecei a mudar quando obtive a primeira cadela pointer pura de origem. Ainda que fosse linhagem inglesa, pesada e lenta, já notava-se uma grande diferença dos Bracco-Pointer da minha juventude. Na época, os cães da raça Pointer Inglês predominavam.
Na década de 60, apareceram então, vindos da Itália e Argentina, linhagens de pointers leves, rápidos, estilo apurado, impetuosos. Para dar maior mobilidade, melhor performance e obter maiores emoções, os criadores do Pointer Inglês iniciaram cruzamentos das duas linhagens, obtendo ótimos resultados. As experiências foram promissoras eis que o fruto do acasalamento dos dois produtos foram excelentes no campo e muito bons em exposições de beleza.
Com o tempo fomos verificando que nenhum dos cães obtidos do cruzamento das linhagens inglesa e italiana conseguiam imprimir suas características aos filhos embora muitos caçadores e pointeristas ainda insistam nisso. Eu mesmo passei pela experiência. Comprei a Boneca em 1962, era inglesa. Meu canil do Chuí é de 1966, ano em que a Boneca teve sua primeira ninhada em Santa Vitória do Palmar(RS), resultado do cruzamento com Pelé de Fram (de origem Argentina). Nasceu o Bamba, pointer pesado, que manteve a característica inglesa. Boneca morreu em Uruguaiana(RS) em 1970. Em 1971 adquiri em Castelar, Província de Buenos Aires, Argentina, a Lia de Small, linhagem italiana, a única Campeã Brasileira de Field Trial, reconhecida pela CBKC. Com os cruzamentos da Lia com o Bamba tivemos muitos anos de domínio em provas de campo e exposições de beleza. E quem não lembra os sucessos da Campeã Internacional Casca de Small do Chuí? Da Campeã Dama do Chuí? De Farol do Chuí? E de tantos outros que obtiveram mais de uma centena de troféus para o Canil do Chuí de 1975 a 1981?
A partir de 1980 nossa preferência de pointer mudou e nossa maneira de caçar também. Com a participação desde 1976 em Provas de Campo na Argentina, Uruguai e Chile, fomos aprofundando nossos conhecimentos do standard de trabalho da raça pointer e as emoções que o desempenho deste cão provoca com a busca e o aponte nas caças de pena. Tal foi nosso entusiasmo que alcançamos a condição de jurado para competições de campo pelo Pointer Clube Argentino, julgando provas oficiais durante vários anos naquele país, reduto da maior concentração de criadores da raça na América do Sul. O Brasil, representado pelo Rio Grande do Sul, participou da Copa Sudamericana a partir de 1975. Tal oportunidade abriu a cabeça dos pointeristas brasileiros e estabeleceu o início de uma fase áurea que durou 10 anos, pelo menos.