Chegou domingo a noite e, como de costume, comecei a me preparar para pegar o ônibus de Santa Cruz para Porto Alegre, onde estudo. É... mais um fim-de-semana se passou.
Como meus pais estavam em Capão da Canoa, foi o Pilha que me levou até a rodoviária.Era verão, o sol se recolhia mais tarde, resolvi pegar o bus das 22 horas. Mochila nas costas, passagem na mão, finalmente, com atraso, o ônibus TUPANCIRETÂ-PORTO ALEGRE encostou na rodoviária.
Logo quando encostou, já subi, me acomodei, puxei meu walkman e fechei os olhos. Não deu 1 minuto fui incomodado por alguém que dizia ser aquela sua poltrona. Mostrei minha passagem ao indivíduo, ele mostrou a sua, e realmente o lugar pertencia aos dois. Porém como havia lugares sobrando isso não foi motivo de pancadaria.
O rapaz se acomodou em outra poltrona e eu voltei a fechar os olhos e curtir o som que estava rolando na Atlântida.
O ônibus começou a se locomover, as luzes se apagaram, e instantaneamente peguei no sono.
Algumas horas de viagem se passaram até que reabri os olhos e comecei a olhar pela janela para me localizar. Que vila é aquela?? Que ponte é essa?? Eu pensava tentando descobrir por onde estava. Até que passei por uma fábrica que tinha certeza nunca existir naquele trajeto. Não tive como não cutucar o rapaz que estava dormindo ao meu lado e lhe perguntei para onde estávamos indo.
- TUPANCIRETÃ - foi a resposta.
Vocês não imaginam como essa palavra, "Tupanciretã", conseguiu botar terror em mim. A notícia caiu feito uma bomba, tipo se ele acabasse de me informar que eu estava com Aids ou algo assim.
Sim... a realidade é que eu havia pego o ônibus errado. Não era TUPANCIRETÃ - PORTO ALEGRE, e sim PORTO ALEGRE - TUPPANCIRETÃ.
Para quem não sabe onde fica Tupanciretã, é passando de Santa Maria, totalmente pro outro lado de Porto Alegre.
Peguei minha mochila e corri até o motorista. Expliquei minha situação a ele, e ele tentou me acalmar, achando alguma solução.... mas no fundo no fundo percebi que ele quis dizer GURI..... TU TÁ NA MERDA.
Ele começou a fazer sinal de luz para todos os ônibus que vinham em sentido contrário na esperança de um ser da mesma empresa e me levar de volta a Santa Cruz, mas nada. Então ele propôs eu ir até Tupanciretã, onde chegaria pelas 3 da manhã. Nesta hora estaria saindo outro ônibus pra Santa Cruz, onde chegaria pelas 5 e meia da manhã e então seguir para Porto Alegre onde eu chegaria pelas 8 da manhã. Seria uma viagem e tanto, mas eu propus ele me largar num posto de gasolina ou qualquer lugar onde tinha um telefone para mim telefonar pros meus pais e eles virem me buscar.
Foi o que fizemos. Andamos mais alguns quilômetros sem achar nada, e no primeiro posto que apareceu o motora parou e eu desci. O ônibus continuou seu rumo. Porém foi ele arrancar me lembrei que meus pais estavam na praia. Tentei correr atrás ainda mas não tinha mais volta. Mas isso não era o fim do mundo... poderia ligar para um amigo, e em troca, sei lá, pagar um churrasco um dia desses.
Então comecei a caminhar em direção ao posto de gasolina. Chegando mais perto percebi que ele estava fechado. Fiz a volta em todo o posto a procura de um orelhão, de alguém, e nada.
É.... agora eu tava literalmente na merda. Com a mochila nas costas caminhei até a beira do asfalto, olhei para os dois lados da reta e pensei: "Bom, se é para caminhar pelo menos vou caminhar em sentido a Santa Cruz".
Isso já era uma 11 da noite, mas a lua iluminava bem meu caminho. De vez em quando, quando não vinha carro de nenhum sentido, eu caminhava sobre a faixa central da estrada.... às vezes abria os braços.... afinal, já que tô na merda pelo menos não vamos perder o momento.
Caminhei, caminhei.... e todo caminhão que passava eu pensava em pedir carona, mas na hora H sempre ficava com medo e continuava na minha caminhada.
Após caminhar alguns quilômetros, avistei uma casinha no meio do campo. Caminhei até lá e muito desconfiado o dono me atendeu. Expliquei toda minha história, mostrei a passagem e tal e pedi para usar o telefone a cobrar. Ele me emprestou o celular e liguei para o Pilha que deveria estar na internet pois só dava ocupado. Com o Fabricio foi a mesma história. Comecei a tentar me lembrar de outros números que podiam me salvar, alguma tia, tio, mas nenhum número vinha à minha cabeça. Liguei para a casa do Rafa, sua mãe atendeu e disse que ele estava na pizzaria. Tentei mais alguns números e após vários enganos parei de tentar números que na verdade eu não tinha a menor idéia.
Vendo que eu realmente estava perdido, o agricultor propôs me levar para Santa Cruz por uma quantia de 30 reais. Bom, em primeiro lugar eu não tinha isso, e se tivesse preferiria dormir na rua mesmo e outro dia me acabar no melhor espeto corrido que achasse pela frente.
Bom, a história até aí tava dramática pois eu não sabia o que ainda tinha por vir. Já era uma meia noite e o agricultor disse que queria ir dormir. Pedi para usar pela última vez o celular, liguei pra casa do Rafa, expliquei mais ou menos onde eu estava pra mãe dele e pedi para ela avisá-lo sem falta para ir me buscar.
Me despedi do agricultor, agradeci, lhe pedi fogo para ascender um cigarro, coloquei a mochila nas costas novamente e retornei à estrada. Bom, agora era só esperar e torcer para que o Rafa viesse, afinal, nem isso eu tinha certeza.
Cheguei na estrada e sentei no acostamento. Passei o tempo jogando pedra nas placas, e para completar a cena, tinha que ascender um cigarro atrás do outro porque eu não tinha fogo e não sabia quanto tempo eu ia passar ali. Às vezes eu ascendia um cigarro e deixava ele ali num canto queimando, só pra ter fogo depois.
Após uma meia hora ali na beira da estrada, me levantei e comecei a caminhar novamente. Dessa vez comecei a retornar para o posto que eu estava no início, afinal, se era pra dormir na rua que pelo menos eu tivesse um banco e um telhado. Porém na volta ao posto, avistei uma parada de ônibus no outro lado da estrada. É para lá que fui. Larguei minha mochila e sentei no banco que de tão escuro tive que apalpar com a mão para achá-lo, e comecei a prestar atenção no barulho dos carros. Minha nova brincadeira era tentar adivinhar que carro era pelo barulho. Já faziam uns 10 minutos que eu estava ali sentado quando ouço um barulho no meu lado. Havia um homem dormindo ali e eu não havia percebido. Num pulo só peguei minha mochila e comecei a andar novamente, e na pressa, acabei esquecendo meu cigarro aceso no banco.
É..... dizer o que da minha situação?
Quando eu estava quase chegando ao posto, vejo mais um farol de carro aparecendo na reta. Porém só muito em cima deu para notar que era o Rafa, e tinha passado lotado por mim. Fui pro meio do asfalto e balancei os braços na esperança que ele me visse pelo retrovisor, mas nada.
Foi então que percebi que ele havia entrado no posto, e comecei a correr para lá. Quando vi que o carro estava saindo do posto, fui para o meio do asfalto novamente.... e finalmente, após horas de angústia, eu estava sentado no carro do Rafa, rumo a minha casa. Junto com ele estava o Cleiton.
Rafa, como me conhece, comentou que quando sua mãe havia lhe dado a notícia ele ainda riu e foi se preparar para dormir. Ela disse que era sério e ele disse: "Pára mãe, isso é trova do Caco". Ele fez o percurso sem acreditar que iria me encontrar.... mas lá estava eu.
Então amigos.... CUIDADO AO PEGAREM O ÔNIBUS.... um destino incerto pode estar esperando por vocês.