Acampamento de Índio



Um belo dia de verão de 2001, Marcelo convida a galera para ir acampar na Barragem Dom Marco, cerca de 60 km de Santa Cruz. Maninho já se encontrava no local pois havia ido um dia antes pescar no rio com um amigo. Então Marcelo falou que não precisaríamos levar nada, barraca, lona, nada.... pois Maninho já estaria bem instalado na beira do rio nos esperando.

Pois bem, entramos no Gol, Caco, Marcelo, Fabricio e Jé, e na Ranger de Bueno foi ele, sua namorada Julia e Gaúcho.
Antes de sairmos de Santa Cruz paramos num mercadinho para comprar alguns salsichões para janta, cachaça, Coca e um galão de 5 litros de água, e partimos para a Barragem pelas 4 da tarde de sexta-feira.

Bueno e Júlia não iriam passar a noite ali e retornaram a Santa Cruz.

Por motivos de segurança, o portão que dá acesso a barragem fecha às 6 da tarde. Quem está dentro fica dentro, quem está fora fica fora. Por sorte nos lembramos disso e fomos até um bar comprar gelo para o samba na noite, pois nem isso tínhamos. No único bar que encontramos, vendiam apenas gelo que eles mesmo faziam em garrafas PET de 2 litros.

- Quanto custa?
- Cinquenta centavos a "carafa" - responde a velhinha dona do bar.

Compramos logo duas para garantir e voltamos para a beira do rio a procura de Maninho, que em momento algum apareceu.
A realidade era: estávamos presos na barragem sem barraca, sem nada.

Bom, pelo menos temos cachaça e salsichão. Vamos aproveitar a noite e começar a fazer o salsichão.
- Quem trouxe espeto??
Um olhou para a cara do outro e tivemos que ir na barraca do lado pedir emprestado. Enquanto uns espetavam os salsichões, outros iam a procura de lenha e gravetos no meio do mato.
- Quem trouxe facão para cortar lenha no mato?
- Ninguém - tivemos que recorrer ao acampamento do lado novamente.
A noite caiu e a escuridão era total.
- Quem trouxe lanterna??
- Ninguém.
Caco foi obrigado a encostar seu carro de ré e deixar a bateria ligada a noite inteira com a ré engatada para pelo menos termos uma luminosidade. Perfeito, problema resolvido.
Pilha de lenhas feitas ao lado da fogueira, salsichões espetados.
- Alguém trouxe jornal ou álcool para fazermos o fogo??
Não deu outra, o tapa sol de papelão da Telefônica Celular do carro de Caco foi uma mão na roda.
O fogo quase apagou... seria nosso fim, só tínhamos aquilo mesmo para fazer fogo.

Então começamos a fazer o samba para animar a galera.
Cortamos as "carafas" em torno do gelo e começamos a quebrá-los. Foi quando constatamos a quantidade de barro que tinha  em seu interior. Deveria ter sido feito com água de açude, e aquilo com certeza não daria para beber.
Solução: Tivemos que recorrer novamente ao acampamento do lado, onde estavam bebendo cerveja, para trocarem o gelo deles com o nosso.

Pronto, agora estávamos bem instalados.
Chegou 11 horas da noite.... comemos o salsichão... e a luz e o som do carro do Caco ligados.
Meia-noite... salsichão já no estômago, e o copo de samba passando de mão em mão.... e a luz e o som do carro ligados
1 da manhã.... 2.......  e a luz e o som ligados
Como num passe de mágicas tudo parou de funcionar..... por que será??  Bateria.
Bêbados, tivemos que empurrar o carro e fazer pegar no tranco. Porém não deu 15 minutos a bateria já morreu novamente. Então como ninguém mais tinha energias,  resolvemos ficar sem som mesmo, e a luz a fogueira dava conta do recado.
Lá pelas tantas a galera começou a ficar cansada e a serração baixou. Cada um puxou o que tinha para se agasalhar do frio. O Jé salvou a pátria com um cobertor, e ficamos Caco e Jé dormindo no relento, enquanto Fabrício, Marcelo e Gaúcho dormiam dentro do carro.
Lá pelas tantas ouvi o último estalo de lenha, e o fogo se apagou....  é... agora só a lua mesmo para iluminar, e nós deitados no chão com um cobertor por cima.

Não dava para ter um sono pesado, pois no silêncio da noite, ao som dos grilos,qualquer estalo no meio da mato já era motivo de olhos bem abertos. Então lá pelas tantas vi movimentos estranhos no meio do mato. Levantei a cabeça do chão e focalizei melhor para enxergar no escuro. Não deu outra, eram dois bixos estranhos, parecidos com lobos, pescoço comprido, vindo em nossa direção. Em um pulo só sai correndo e comecei a bater na porta do carro para entrar desesperado.
Nisso Jé acorda com o tumulto, pega o cobertor e sai correndo também para o carro.
Dentro do carro, Jé comenta:
- Cara, deu muita sorte, eu simplesmente peguei o cobertor e sai correndo, assim como eu vim em direção ao carro eu poderia ter ido pra dentro do rio.

Pronto... estavam 5 manés dormindo apertados dentro do Gol. Cada um enfiava a perna onde conseguia para melhor se ajeitar. Gaúcho, que ficou no banco de trás no meio tinha o direito de encostar a cabeça no ombro do cara do lado por estar no pior lugar. E os lobos não paravam de rondar o carro.
- Vamos embora daqui!!  - Todos concordaram, porém o carro não dava nem sinal de arranque, tava totalmente sem bateria e os lobos a rondar o carro.
Tivemos que dormir ali mesmo.... abrimos uma frestinha das janelas para não faltar ar e as horas não passavam.

Ao sair o primeiro raio de sol, a galera se animou. Porém não tínhamos mais nada para comer nem beber, e resolvemos ir embora.

É....  foi um belo acampamento. Depois de comentar esta história com outras pessoas chegamos a conclusão que os bixos eram cachorros do mato, não raros por ali.

O Marcelo pediu desculpas pra galera pela furada.... mas no fundo ninguém ficou de cara. Foi um ótimo acampamento.

Se alguém quiser acampar com nós algum dia.... estamos aí!!!

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