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| PRECE-POEMA A PAI BENEDITO DE ARUANDA Pai Ronaldo Linares |
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| Meu bondoso Preto-Velho! Aqui estou de joelhos, agradecido constrito, aguardando sua ben��o. Quantas vezes com a alma ferida, com o cora��o irado, com a mente entorpecida pela dor da injusti�a eu clamava por vingan�a, e Tu, oculto l� no fundo do meu Eu, com bondade compassiva me sussurravas: ESPERAN�A. Quantas vezes desejei romper com a humanidade, enfrentar o mal com maldade, olho por olho, dente por dente, e Tu, escondido em minha mente, me dizias simplesmente: "Sei que fere o cora��o a maldade e a trai��o, mas, responder com ofensas, n�o lhe trar� a solu��o. P�ra, pensa, medita e ofere�a-lhe o perd�o. Eu tamb�m sofri bastante, eu tamb�m fui humilhado, eu tamb�m me revoltei e tamb�m fui injusti�ado. Das savanas africanas, mo�o, forte, livre, num instante transformado em escravo acorrentado, nenhuma oportunidade eu tive. Uma revolta crescente me envolvia intensamente, porque algo me dizia, que eu nunca mais veria minha Aruanda de ent�o, n�o ouviria a passarada, o bramir dos elefantes, o rugido do le�o, minha ra�a de gigantes que tanto orgulho tivera, jazia despeda�ada, nua, fria, acorrentada num infecto por�o. Um �dio intenso o meu peito atormentava, por que OI� n�o mandava uma grande tempestade? Que Xang� com seus raios partisse aquela nave amaldi�oada, que matasse aquela gente, que t�o cruel se mostrara, que at� minha pobre m�ezinha, t�o fr�gil, j� t�o velhinha, por maldade acorrentara. E Iemanj�, onde estava que nossa desgra�a n�o via, nossa dor n�o sentia, o seu peito n�o sangrava? Seus ouvidos n�o ouviam a s�plica que eu lhe fazia? Se Iemanj� ordenasse, o mar se abriria, as ondas nos envolveriam; ao meu povo ela daria a desejada esperan�a, e aos que nos escravizavam, a necess�ria vingan�a. Por�m, nada aconteceu, minha m�ezinha n�o resistiu e morreu; seu corpo ao mar foi lan�ado, o meu povo amedrontado, no mercado foi vendido, uns pra c�, outros pra l� e, como gado, com ferro em brasa marcado. Onde � que estava Ogum? Que aquela gente n�o vencia, onde estavam as suas armas, as suas lan�as de guerra? Por�m, nada acontecia, e a toda parte que olhava, somente um coisa via... terra. Terra que sempre exigia mais de nossos corpos suados, de nossos corpos cansados. Era a senzala, era o tronco, o gato de sete rabos que nos arrancava o couro, era a lida, era a colheita, que para n�s era estafa, para o senhor era ouro. Quantas vezes, depois que o sol se escondia, l� no fundo da senzala, com os mais velhos aprendia, que o nosso destino no fim n�o seria sempre assim, quantas vezes me disseram que Zambi olhava por mim... Bem me lembro uma manh�, que o rancor era grande, vi sair da casa grande, a filha do meu patr�o. Ing�nua, desprotegida, meu pensamento voou: eis a hora da vingan�a, vou matar essa crian�a, vou vingar a minha gente, e se por isso morrer, sei que vou morrer contente. E a pequena caminhava alegre, despreocupada, vinha em minha dire��o, como a fera aguarda a ca�a, eu esperava ansioso, minha hora era chegada. Eu trazia as m�os suadas, nesse momento odioso, meu cora��o disparava, vi o tronco, vi o chicote, vi meu povo sofrendo, apodrecendo, morrendo e nada mais vi ent�o. Correndo como um possesso, agarrei-a por um bra�o e levantei-a do ch�o. Por�m, para minha surpresa, mal eu ergui a menina, uma serpente ferina, como se fora o pr�prio vento, fere o espa�o, errando, por minha causa, o seu bote t�o fatal; tudo ocorreu t�o de repente, tudo foi de forma tal, que ali parado eu ficara, olhando a serpente que sumia no matagal. Depois, com a crian�a em meus bra�os, olhei meus punhos de a�o que deviam mat�-la... olhei seus lindos olhinhos que insistiam em me fitar. Fez-me um gesto de carinho, eu estava emocionado, n�o sabia o que falar, n�o sabia o que pensar. Meus pensamentos estavam numa grande confus�o, vi a corrente, o tronco, as minhas m�os que vingavam, vi o chicote, a serpente errando o bote... senti um aperto no cora��o, as minhas m�os calejadas pelo machado, pela enxada, minhas m�os n�o matariam, n�o haveria vingan�a, pois meu Deus n�o permitira que morresse essa crian�a. Assim o tempo passou, de rapaz forte de antes, bem pouca coisa restou, at� que um dia chegou, e Benedito acabou... Mas, do outro lado da morte eu encontrei nova vida, mais longa, muito mais forte, mais de amor e de perd�o, os sofrimentos de outrora j� n�o importam agora, por que nada foi em v�o... Fomos m�rtires nessa vida, desta Umbanda t�o querida, religi�o do cora��o, da paz, do amor, do perd�o". |
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| (Escrito por Pai Ronaldo Linares, em 20 de Outubro de 1964, entregue em m�os, por ele, ao Jornal de Umbanda Sagrada e publicado no mesmo em Maio de 2005). Notas: Pai Ronaldo Ant�nio Linares, presidente da Federa��o Umbandista do Grande ABC, � respons�vel pelo Santu�rio Nacional da Umbanda. |
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