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A VOZ DO SIL�NCIO

- Por Vov� Benta -
(Texto Publicado originalmente no Jornal de Umbanda Sagrada* � N�mero
63 � Julho de 2005)

O atendimento da noite agora se encerrava naquele terreiro de Umbanda. Alguns dos pretos velhos que haviam trabalhado se desligavam de seusaparelhos, n�o sem antes equilibr�-los com energias edificantes e
benfazejas. Um dos m�diuns, ap�s praticamente "despachar" seu protetor, apressou-se em ajoelhar-se aos p�s da preta velha que ainda permanecia incorporada, para solicitar aconselhamento.
O bondoso esp�rito acolheu amorosamente suas lamenta��es como o fez com todos os outros que haviam passado por ela naquela noite. Ouviu tudo fumegando seu cachimbo, por�m nada falou. Saravou aquele filho,agradecendo-o pela caridade que havia prestado e assim se despediu,  largando seu aparelho. O m�dium por sua vez, desajeitadamente se retirou sem conseguir entender o sil�ncio da Preta Velha. Um misto de rejei��o e indigna��o passou a povoar seus sentimentos.- "Ent�o � assim! Eu fico fazendo caridade por horas a fio e quando solicito ajuda o que recebo?"
Enquanto a corrente medi�nica realizava as preces de encerramento da sess�o, ele sentiu uma inexplic�vel sonol�ncia que o obrigou a dirigir-se diretamente para casa, ignorando o programa pr�vio de sair com os amigos para mais uma noitada de lazer em bares da cidade.
Mal adormeceu, em corpo astral, atrav�s do desdobramento, percebeu estar ajoelhado sobre folhas verdes e cheirosas num ambiente simples, cujas paredes eram feitas de bambu, o teto de folhas de coqueiro e o ch�o de terra batida. Algumas tochas iluminavam o local, e havia uma cantiga no ar que ele bem conhecia. Sentindo a presen�a de algu�m, virou-se e o viu sentado em seu tosco banco com aquele sorriso matreiro e cachimbo no canto da boca. Sua roupa, bem como seus cabelos brancos contrastavam com a pele negra. Os p�s descal�os e calejados. No pesco�o um ros�rio cujas contas eram pura luz. Sim, era ele, Pai Benedito, seu protetor.

-  Sarav� zin fio!
-  Sarav� meu Pai!
-  Pai Benedito chamou o filho at� sua tenda para poder explicar tudo aquilo que voc� n�o conseguiu entender com a orienta��o da mana l� no terreiro da terra.
-  Meu Pai, ela nada falou...
-  E sunc� se magoou, n�o foi?
-  �... n�o compreendi...
-  Por isso Pai Benedito o trouxe at� aqui e vai explicar. Os filhos da terra ainda n�o conseguem compreender a mensagem do sil�ncio devido �s suas mentes aceleradas pelo imediatismo, pela falta de concentra��o e pelo v�cio de "receitas prontas". A mana que nada disse ao filho, agiu assim justamente para incentivar a sua busca das respostas. Queria que o filho, instigado pela falta do aconselhamento a que vinha se acostumando, pudesse parar e pensar. Pensar em todos os conselhos que seu protetor, atrav�s de seu aparelho, havia passado para as pessoas que atendera l� no terreiro h� momentos atr�s.
O sil�ncio da preta velha, quis dizer ao filho que o primeiro e maior beneficiado da aben�oada tarefa medi�nica � o pr�prio mediador. A sua caracter�stica de m�dium consciente permite que receba e transmita os  nossos pensamentos e os bons flu�dos dos quais se torna canal. Para que o interc�mbio "m�dium-esp�rito" aconte�a, pela bondade divina, o corpo astral do mediador � previamente preparado antes de reencarnar atrav�s da "sensibiliza��o fluido-medi�nico" de seus centros de for�as para que assim se d� a afiniza��o com seus protetores
Durante toda a vida encarnada, � ainda alertado e amparado para que possa exercer o mandato dentro do programado. No entanto, existe um carma envolvendo tudo isso, e o fato dos filhos prestarem a caridade n�o os isenta dos entrechoques a que est�o sujeitos na mat�ria, que nada mais s�o do que ensinamentos necess�rios do certo e do errado.
Respeitando as escolhas feitas, esses protetores tantas vezes perdem seus pupilos para os descaminhos da vida, mesmo e apesar de todo esfor�o, e ent�o lhes resta aguardar que o rel�gio do tempo os traga de volta pela m�o da dor.
Pai Benedito n�o se entristece se o filho por vezes o dispensa ou n�oentende suas mensagens. Nem mesmo quando o filho desfaz as energias recebidas ap�s o trabalho de caridade atrav�s da busca de prazeres ilus�rios e moment�neos. Apenas ajoelha diante do cong�, que no plano astral fica sempre iluminado pelas velas da caridade prestada nas poucas horas em que a corrente de m�diuns se re�ne na terra, e implora ao Pai Oxal� a suacompreens�o para todos os esp�ritos que ainda teimam em permanecer colados �s suas mazelas no p lano terreno.
Por isso filho, estando aqui em frente a este esp�rito que tanto o ama e cuja liga��o perde-se no tempo, pe�o que desabafe suas dores, que tire as d�vidas que angustiam seu cora��o.
Agora o sil�ncio era todo seu. Apenas as grossas l�grimas que desciam de sua face falavam de sua pouca f�, de seu descr�dito at� ent�o, da pr�pria mediunidade. De seus momentos de incertezas quanto a estar servindo realmente de canal para Pai Benedito, de seus medos em rela��o ao animismo e da confus�o que fazia dele com a mistifica��o.
Mas principalmente de sua vontade de largar tudo pelos prazeres do mundo, afinal era muito jovem ainda para levar uma vida regrada em fun��o da mediunidade.

- Pai Benedito compreende a ang�stia do filho, mas pede que revise os tantos avisos que recebeu em seus sonhos, nas palestras instrutivas que ouviu l� no terreiro, nos livros que chegaram at� suas m�os e nas tantas vezes que a Preta Velha o instruiu, o aconselhou. Onde est�o estas informa��es? Para quem eram dirigidas nossas palavras nos atendimentos, sen�o para voc� que as ouvia antes de repass�-las? Nada � proibido aos filhos no est�gio da mat�ria, mas em tudo dever� existir o equil�brio. O sil�ncio da Preta Velha havia sido traduzido, e agora ele conseguia compreender que fora o melhor, dos tantos conselhos que ouvira dela.
Fechando seus olhos, agradeceu a ela mentalmente e quando os abriu, al�m do cheiro de incenso e da claridade que se instalara naquele ambiente, percebeu que tudo modificara. A humilde tenda agora era um templo iluminado por vitrais coloridos que formavam filetes de luz que se entrecruzavam num quadro de beleza estonteante. No ch�o, ao centro, em esplendoroso piso vitrificado havia o desenho de uma mandala, que de seu centro irradiava luz dourada. J� n�o estava mais diante daquele Pai Velho em humildes trajes, pois ele havia se transfigurado num ser de caracter�sticas orientais, de olhar penetrante.
Nada pode pronunciar, sua voz embargou. Havia que se fazer o sil�ncio para que s� ele traduzisse a mensagem agora recebida.
Naquela manh� acordou muito cedo, tendo plena lembran�a de seu "sonho". No ar, ainda o cheiro do incenso. N�o fosse a exig�ncia da vida f�sica, ficaria o dia todo calado, saudando o sil�ncio da Preta Velha.

"Que nos ou�a, quem tem ouvidos de ouvir". Sarav� aos filhos da Terra

(Recebido espiritualmente pela m�dium Leni W. Saviscki)
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