PAPO-CABEÇA: A FUNÇÃO SOCIAL DO VOTO
11.Mai.2006

Há menos de cinco meses para as eleições, intensificam-se os movimentos nos bastidores políticos em buscas das famigeradas alianças partidárias. As agremiações realizam prévias, escalam seus times em nomes das plataformas e também das estratégias traçadas para o grande jogo, que na verdade só vai ter inicio mesmo após o término de um outro grande campeonato, agendando para o próximo mês de junho, a milhares de quilômetros daqui, num país bem diferente do nosso, sobretudo quanto aos aspectos sócio-econômicos.

Pelo menos para a grande maioria dos eleitores, antes da Copa do Mundo de Futebol, na Alemanha, falar sobre política e procurar se informar sobre os eventuais candidatos que já se apresentam para disputa eleitoral, parece ser um assunto um tanto quanto indigesto, quase como a cobrança de um pênalti mal batido na decisão do campeonato.

Para não desperdiçar o chute, é necessário que reflitamos sobre o atual cenário político brasileiro, uma vez que o país passa por fase turbulenta em meio a denúncias de esquema de financiamento de campanhas eleitorais. Para não repetirmos o mesmo lance de campeonatos anteriores, facilitando a vida dos marcadores, temos que estudar o esquema de jogo das equipes e apostar naquelas que se mostrarem mais consistentes e fiéis a se esquema tático.

No papo-cabeça desta semana, conversamos com a Assistente Social Priscila Medina Pitta, bauruense, casada, mãe de uma filha e formada em Serviço Social pela ITE. Recentemente, teve um artigo seu publicado pelo Jornal da Cidade de Bauru, no qual falava sobre a função social do voto. Preocupada com o futuro do país e consciente de suas obrigações enquanto eleitora ela defende a obrigatoriedade do voto e traça uma analise sobre a política de assistência social praticada pelo atual governo.

Papo-cabeça: Como surgiu a iniciativa de escrever este artigo? Qual foi a motivação central?
Priscila Medina Pitta:
Recentemente, acompanhei artigos publicados por outros leitores nos jornais nos quais enalteciam a figura de um empresário da cidade de Bauru, dando a entender que a cidade necessitava de lideranças daquele tipo na vida política do município. Fiquei um tanto quanto preocupada, pois necessariamente nem sempre um bom empresário, bem sucedido a frente de seus negócios, se converterá num político responsável, com visão administrativa suficiente para gerenciar um município com sérios problemas. As pessoas não podem pautar suas escolhas políticas pelo estigma empresarial, que é o que acontece muito hoje em dia. É necessário avaliarmos melhor tais personalidades e ver qual sua trajetória política e a que grupos estão atreladas.

PC: Você acredita que os eleitores ainda praticam este tipo de “voto útil”, optando por votar em grandes personalidades ou empresários, sem mesmo conhecer suas ideologias, baseando-se em pesquisas encomendadas e em perfis simpáticos aos olhos da maioria?
PMP:
As pessoas não caminham em direção à conscientização. Muitos optam por anular seu voto, sem mesmo discutir as propostas e analisar os candidatos. A palavra voto origina-se do latim (voluntas = vontade). O voto é a forma legal de escolher quem nos representará politicamente e não podemos basear essa escolha num “rosto bonito” ou numa estratégia de marketing bem feita. A escolha de cada eleitor precisa ser livre e cidadã. Para isso, é necessário basear o voto em convicções e em argumentos. Não basta votar por qualquer motivo. É preciso que cada eleitor tenha bons motivos para votar.

PC: Você defende o voto facultativo como estratégia para alavancarmos um processo maior de conscientização?
PMP:
Não. Penso que o voto facultativo apenas faria crescer a omissão quanto ao futuro político do nosso país. Sendo obrigatório, já temos um grande número de justificativas, imagine você se o voto fosse facultativo, opcional. O exercício do voto é a forma mais legítima de se encontrar respostas seguras para as formulações do Governo em busca de soluções para as demandas sociais.

PC: O que o eleitor deve levar em consideração para fazer então uma escolha consciente e não deixar para resolver tudo em cima da hora, optando pelos candidatos às vésperas do dia da eleição?
PMP:
A escolha de cada eleitor precisa ser livre e cidadã. Para isso, é necessário basear o voto em convicções e em argumentos. Não basta votar por qualquer motivo. É preciso que cada eleitor tenha bons motivos para votar. Trata-se de escolher candidatos que efetivamente demonstrem respeito à cidadania e compromisso com a implementação de políticas públicas que venham para atender às necessidades da população. As qualidades dos políticos que devem ser eleitos fazem parte de uma prática cotidiana, continuada, verificada não apenas quando esse cidadão se tornou candidato ou se elegeu para um cargo político. O interesse pelo exercício de serviços em benefício da comunidade deve existir muito antes de qualquer filiação partidária ou campanha em busca de votos. Honestidade é muito mais que uma qualidade a ser procurada em candidatos a cargos eletivos, é um princípio de vida.

PC: Nesse sentido, como você avalia o governo Lula?
PMP:
O governo Lula implantou diversos projetos nas áreas assistenciais, embora eu particularmente acredite que tais programas constituam medidas paliativas. São ações que disponibilizam recursos para sanar problemas emergenciais e contínuos, mas que pouco acrescentam quanto à criação de condições para que as famílias mais carentes efetivamente se desenvolvam e sintam-se parte integrante do processo.

PC: Você acredita que os eleitores encontram-se decepcionados com o atual governo?
PMP:
Acredito que sim, as pessoas estão se cansando cada vez mais. Todos apostavam em grandes mudanças, havia muita expectativa e, em certos aspectos, o governo Lula foi uma continuidade dos anteriores.

PC: Como então acreditarmos em novas propostas se o próprio Lula representava isso há quatro anos? Existe alguma possibilidade efetiva de mudança, ao menos no que concerne ao processo político de votação?
PMP:
A corrupção eleitoral continua solta. Quanto mais aumenta a miséria, mais os pobres são explorados na hora de votar, vendendo seu voto por pequenos favores. Se todos percebessem que é hora de mudar, a mudança deveria começar pela maneira como desta vez vamos votar: dando um chega pra lá a todos que querem comprar nosso voto e nossa dignidade de cidadãos. Nosso país tem uma distribuição de renda muito injusta. Isso quer dizer que toda a riqueza produzida aqui não chega a todos brasileiros. Uns poucos ficam com muito, e milhões vivem na pobreza ou na miséria ou ainda na indigência.

PC: O jovem tem consciência disso? Essa nova geração sabe interpretar essa realidade política de maneira coerente para mudar os rumos do país?
PMP:
Particularmente, acredito no potencial do jovem. Aqui mesmo na universidade cheguei a participar de vários debates políticos, com a presença de lideranças locais. Isso auxilia muito a tomada de decisões na hora de fazermos a escolha pelos candidatos que melhore representem nossos anseios. Existe um ditado de Maquiavel que diz “a realidade é como é, não como gostaríamos que ela fosse”. Essa frase resume muito bem a importância da pesquisa que devemos fazer da vida dos candidatos. Esse processo pode levar gerações, mas não podemos retroceder jamais.

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