Há menos de cinco meses para as
eleições, intensificam-se os movimentos nos bastidores políticos em buscas
das famigeradas alianças partidárias. As agremiações realizam prévias,
escalam seus times em nomes das plataformas e também das estratégias
traçadas para o grande jogo, que na verdade só vai ter inicio mesmo após o
término de um outro grande campeonato, agendando para o próximo mês de
junho, a milhares de quilômetros daqui, num país bem diferente do nosso,
sobretudo quanto aos aspectos sócio-econômicos.
Pelo menos para a grande maioria dos eleitores, antes da Copa do Mundo
de Futebol, na Alemanha, falar sobre política e procurar se informar sobre
os eventuais candidatos que já se apresentam para disputa eleitoral,
parece ser um assunto um tanto quanto indigesto, quase como a cobrança de
um pênalti mal batido na decisão do campeonato.
Para não desperdiçar o chute, é necessário que reflitamos sobre o atual
cenário político brasileiro, uma vez que o país passa por fase turbulenta
em meio a denúncias de esquema de financiamento de campanhas eleitorais.
Para não repetirmos o mesmo lance de campeonatos anteriores, facilitando a
vida dos marcadores, temos que estudar o esquema de jogo das equipes e
apostar naquelas que se mostrarem mais consistentes e fiéis a se esquema
tático.
No papo-cabeça desta semana, conversamos com a Assistente Social
Priscila Medina Pitta, bauruense, casada, mãe de uma filha e formada em
Serviço Social pela ITE. Recentemente, teve um artigo seu publicado pelo
Jornal da Cidade de Bauru, no qual falava sobre a função social do voto.
Preocupada com o futuro do país e consciente de suas obrigações enquanto
eleitora ela defende a obrigatoriedade do voto e traça uma analise sobre a
política de assistência social praticada pelo atual governo.
Papo-cabeça: Como surgiu a iniciativa de escrever este artigo? Qual
foi a motivação central?
Priscila Medina Pitta: Recentemente,
acompanhei artigos publicados por outros leitores nos jornais nos quais
enalteciam a figura de um empresário da cidade de Bauru, dando a entender
que a cidade necessitava de lideranças daquele tipo na vida política do
município. Fiquei um tanto quanto preocupada, pois necessariamente nem
sempre um bom empresário, bem sucedido a frente de seus negócios, se
converterá num político responsável, com visão administrativa suficiente
para gerenciar um município com sérios problemas. As pessoas não podem
pautar suas escolhas políticas pelo estigma empresarial, que é o que
acontece muito hoje em dia. É necessário avaliarmos melhor tais
personalidades e ver qual sua trajetória política e a que grupos estão
atreladas.
PC: Você acredita que os eleitores ainda praticam este tipo de “voto
útil”, optando por votar em grandes personalidades ou empresários, sem
mesmo conhecer suas ideologias, baseando-se em pesquisas encomendadas e em
perfis simpáticos aos olhos da maioria?
PMP: As pessoas não
caminham em direção à conscientização. Muitos optam por anular seu voto,
sem mesmo discutir as propostas e analisar os candidatos. A palavra voto
origina-se do latim (voluntas = vontade). O voto é a forma legal de
escolher quem nos representará politicamente e não podemos basear essa
escolha num “rosto bonito” ou numa estratégia de marketing bem feita. A
escolha de cada eleitor precisa ser livre e cidadã. Para isso, é
necessário basear o voto em convicções e em argumentos. Não basta votar
por qualquer motivo. É preciso que cada eleitor tenha bons motivos para
votar.
PC: Você defende o voto facultativo como estratégia para
alavancarmos um processo maior de conscientização?
PMP: Não. Penso
que o voto facultativo apenas faria crescer a omissão quanto ao futuro
político do nosso país. Sendo obrigatório, já temos um grande número de
justificativas, imagine você se o voto fosse facultativo, opcional. O
exercício do voto é a forma mais legítima de se encontrar respostas
seguras para as formulações do Governo em busca de soluções para as
demandas sociais.
PC: O que o eleitor deve levar
em consideração para fazer então uma escolha consciente e não deixar para
resolver tudo em cima da hora, optando pelos candidatos às vésperas do dia
da eleição?
PMP: A escolha de cada eleitor precisa ser livre e
cidadã. Para isso, é necessário basear o voto em convicções e em
argumentos. Não basta votar por qualquer motivo. É preciso que cada
eleitor tenha bons motivos para votar. Trata-se de escolher candidatos que
efetivamente demonstrem respeito à cidadania e compromisso com a
implementação de políticas públicas que venham para atender às
necessidades da população. As qualidades dos políticos que devem ser
eleitos fazem parte de uma prática cotidiana, continuada, verificada não
apenas quando esse cidadão se tornou candidato ou se elegeu para um cargo
político. O interesse pelo exercício de serviços em benefício da
comunidade deve existir muito antes de qualquer filiação partidária ou
campanha em busca de votos. Honestidade é muito mais que uma qualidade a
ser procurada em candidatos a cargos eletivos, é um princípio de vida.
PC: Nesse sentido, como você avalia o governo Lula?
PMP: O
governo Lula implantou diversos projetos nas áreas assistenciais, embora
eu particularmente acredite que tais programas constituam medidas
paliativas. São ações que disponibilizam recursos para sanar problemas
emergenciais e contínuos, mas que pouco acrescentam quanto à criação de
condições para que as famílias mais carentes efetivamente se desenvolvam e
sintam-se parte integrante do processo.
PC: Você acredita que os eleitores encontram-se decepcionados com o
atual governo?
PMP: Acredito que sim, as pessoas estão se cansando
cada vez mais. Todos apostavam em grandes mudanças, havia muita
expectativa e, em certos aspectos, o governo Lula foi uma continuidade dos
anteriores.
PC: Como então acreditarmos em novas propostas se o próprio Lula
representava isso há quatro anos? Existe alguma possibilidade efetiva de
mudança, ao menos no que concerne ao processo político de
votação?
PMP: A corrupção eleitoral continua solta. Quanto mais
aumenta a miséria, mais os pobres são explorados na hora de votar,
vendendo seu voto por pequenos favores. Se todos percebessem que é hora de
mudar, a mudança deveria começar pela maneira como desta vez vamos votar:
dando um chega pra lá a todos que querem comprar nosso voto e nossa
dignidade de cidadãos. Nosso país tem uma distribuição de renda muito
injusta. Isso quer dizer que toda a riqueza produzida aqui não chega a
todos brasileiros. Uns poucos ficam com muito, e milhões vivem na pobreza
ou na miséria ou ainda na indigência.
PC: O jovem tem consciência disso? Essa nova geração sabe
interpretar essa realidade política de maneira coerente para mudar os
rumos do país?
PMP: Particularmente, acredito no potencial do
jovem. Aqui mesmo na universidade cheguei a participar de vários debates
políticos, com a presença de lideranças locais. Isso auxilia muito a
tomada de decisões na hora de fazermos a escolha pelos candidatos que
melhore representem nossos anseios. Existe um ditado de Maquiavel que diz
“a realidade é como é, não como gostaríamos que ela fosse”. Essa frase
resume muito bem a importância da pesquisa que devemos fazer da vida dos
candidatos. Esse processo pode levar gerações, mas não podemos retroceder
jamais.