
Quando te vejo mocinha,
atenta amarelinha pros galhos tortos meus
Em tua defesa, destrambelho meus maus modos,
deixo de ser esse cara invocado e sozinho,
uma hecatombe, um diabo, um bacante
Quando te percebo assim, fico pleno de vida,
invadir teu róseo conto de fadas
plenos de margaridas e rosas perfumadas,
faceira e feliz com teus botões,
apagada e roxa p'r'o mundo de lá,
mas muito acesa, acesíssima
p'ra todas folhas que não param de cair,
oscilantes, do meu hibisco,
e escassas florescências,
decaem cortinadas minhas crenças
e meus temores - viro arvrinha de natal, amada,
viro um atacante goleador, bólido negro,
um pagão, pagão gordote co'os dentes tortos à mostra
em vasta e santa gargalhada.
fico pronto p'r'investir contra todos moinhos-de-vento
que nos espreitam, mal-intencionados,
em cada esquina do nosso caminho...
Quando te vejo mocinha,
faceira e feliz com teus botões,
sempre me encontro e já não sou mais eu -
esse burguês lamentável, medroso e disfarçado,
sempre à cata de grana, sempre em busca do ouro...
Com minha lança antiga
sou então temível, acredita, meu anjo, acredita;
bravo romano gladiador co'a cota de couro -
(na cara, um ar distante
e avoado, e na cabeça erguida,
repara, querida amiga, repara,
a velha c'roa feita p'routros carnavais,
de louros de papel verde-oliva encerado...)
meu medo cotidiano se fina
meu olhar, 'té então baço, reaviva,
e mostro enfim pro mundo a vera cara
e pronto fico pr'a vadear teus fossos,
penetrar no âmago do teu castelo por ti,
dinamarquesa menina,
e depositar, contrito e mudo,
minha cruz de lenho ao pé de si,
e a antiga lança sobranceira
em teus braços de veludo,
fartos de sempre-vivas risonhas e brejeiras...