“Não aceitamos imposições”

Chávez rechaça neoliberalismo e defende maior integração sul-americana

Partidário dos ideais de Simon Bolívar, mito sul-americano que lutou pela integração orgânica entre as nações do continente, o presidente venezuelano Hugo Chávez concedeu disputada entrevista coletiva num dos salões da Assembléia Legistativa do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, por ocasião do Fórum Social Mundial (FSM). O chefe de Estado não poupou críticas ao atual sistema econômico mundial, considerando-o um obstáculo implacável à condução política dos rumos da América Latina. Eis os temas principais da fala de Chávez:

- Avanços da Venezuela: ”As revoltas populares contra o FMI na Venezuela frearam o neoliberalismo e abriram uma alternativa, que não se viu na Argentina, hoje em crise. Em nosso país, quiseram aplicar semelhante projeto ao do Chile do início dos anos 1970, mas não contavam com o poder das Forças Armadas venezuelanas, que prenderam os generais que se insurgiram tentando um golpe, e com a pressão popular de milhões que foram às ruas em defesa da democracia. Espero que a oligarquia venezuelana se aperceba de que uma revolução pacífica, um conjunto de mudanças democráticas fará bem a todos, inclusive às elites. Desde 1998, a revolução bolivariana tem valorizado a educação integral e a saúde, destinando a elas maior fatia do PIB, reduzido a mortalidade infantil (21 para 17 por 1000), a desnutrição infantil (15%), e aumentado os matriculados (40%), nas universidades principalmente – isso no plano social. No plano político, a revolução tem permitido maior participação comunitária, com mandato constitucional, nos Conselhos Locais de Planificação, com caráter vinculado às decisões do poder político local. Isso que é importante: o poder popular formalizando-se através do mecanismo da participação. Além dessa, há muitas outras iniciativas.O governo está entregando títulos de terras urbanas para a população que circunda as cidades, pequenos e médios produtores, num modelo cooperativista, elemento fundamental do novo modelo econômico que vem sendo implantado.”

- Efeitos do neoliberalismo: “Não firmamos nenhum acordo com o FMI em quatro anos porque não aceitamos imposições, que têm, muitas vezes, causado grandes tragédias. No dia em que o FMI mudar seus métodos, como esses documentos técnicos que permitem apenas observações por parte dos presidentes, aceitando que os países são soberanos, podemos até conversar.
Corresponde aos povos desses países reclamar, aconselhar, participar, como deve ser na tomada dessas decisões. Há um predomínio do poder econômico mundial, representado por instituições financeiras internacionais, que passa por cima da autoridade dos chefes de Estado na tomada de decisões que influenciam toda a nação. A questão da dívida externa, por exemplo, é um mecanismo perverso que não pode ser enfrentado pelo país, senão ele quebra; é um mecanismo imoral ou, como diria Fidel Castro, “eterno”, nunca chegará ao fim. O comércio internacional é injusto: os paises ricos não querem que os pobres subsidiem suas agriculturas, mas o fazem escancaradamente. Assim, como podemos competir? Por isso que não creio no livre mercado, é uma imoralidade que pretendem nos impor. Os povos diretamente interessados e afetados não são consultados sobre os acordos que a OMC e demais organizações estabelecem, impedindo os países de tomarem algumas iniciativas. Com o neoliberalismo, a mão invisível do mercado soluciona todos os problemas mundiais, ignorando o que fizeram todos os pensadores e a ciência política neste último século. A política está na 'retaguarda' da economia, que comanda a 'artilharia' mundial, mas deve reclamar seu lugar principal. Não há outra maneira.”

- Uma outra América: “O posicionamento venezuelano tem sido muito crítico no que concerne ao modelo de integração sul-americano. Temos feito muitas propostas para nos livrarmos desse domínio das organizações mundiais, sobretudo na área econômica. Por que os 12 presidentes não podem tomar decisões? Por que não se consulta todas as populações para referendá-las, dando maior força a elas? E apenas um presidente não pode mudar isso, mas sim 12, ou 40, com apoio popular. Proponho um Fundo Monetário Latino-Americano, voltado para o abastecimento dos países pobres mas falta vontade política para isso. Proponho também que formemos uma Petroamérica. Por que não uma OPEP sul-americana? Teríamos muito mais poder de negociação, podendo começar a reverter essa dependência. É com a integração de nossa força que superaremos a dominação das instituições financeiras mundiais, que querem abocanhar toda a riqueza dos povos latinos.”

-Riscos da pobreza: “Por cada um dólar que os países pobres recebem de ajuda externa, seis vão para o pagamento da dívida. É impossível sanar a pobreza com esse mecanismo de transferência de capitais dos mais pobres aos mais ricos. No mundo de hoje, a cada três segundos uma criança morre de fome. Se no continente não se tentar reduzir a injustiça sofrida por dezenas de milhões de pobres e indigentes, que pacificamente a Venezuela busca incluir em seu governo, com maior participação e direitos, o que implica transformar o sistema econômico e social, mais cedo ou mais tarde esse potencial explosivo irá aos ares, e haverá várias guerras e mortes não só na América. Eu, como cristão, não vejo nem quero isso para a humanidade.”

-Importância do FSM: “Por tudo isso este Fórum é válido, pois enquanto que em Davos reina o neoliberalismo, aqui reina o 'neo-humanismo', a necessidade de um novo homem, uma nova ética, que resgate o ser humano em meio à desigualdade que essa ideologia consumista provoca. Onde estão os valores fraternos? Por que parcelas de gastos comerciais e militares não são destinados ao urgente combate à AIDS na África, por exemplo? Porque não se reduzem gastos desnecessários, as dívidas externas? É preciso que tudo isso seja discutido, e Porto Alegre é um grande epicentro desses debates.”

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