Sustentabilidade: chave para o século XXI

FSM nos convida a olhar para quem precisa de muita atenção: nosso planeta

Em nosso contexto atual, marcado pela expansão das indústrias multinacionais, conflitos regionais e ameaças de ataques devastadores, que, mesmo focalizados num ou noutro continente, não demorariam a afetar todo o planeta, urge perguntar o que se sucede com o meio ambiente. Tanto a floresta afetada pela poluição química quanto a água cada vez mais escassa e mercantilizada nos levam a questionar as condições de vida que, hoje, vemos no espaço global e de que forma outras gerações o herdarão e nele viverão. Tal relevância mereceu destaque em muitas discussões deste Fórum Social Mundial (FSM).

Ao se pensar no modo como se deve aliar desenvolvimento econômico-social e manutenção respeitada do espaço ambiental, fala-se muito em desenvolvimento sustentável. Entretanto, é preciso conhecer de que maneira impõe-se e difunde-se mundialmente a visão sobre “desenvolvimento” e “crescimento”. A recente prática indomável das privatizações de bens públicos, eufemizada pelo discurso modernizador, converte em mercadoria o que antes era gratuito e disponível a todos, o que facilmente se observa na substituição da cultura local pelo entretenimento empresarial, por exemplo. O resultado seria “crescimento”, no entender dos economistas. A questão crucial é que o bem comum está deixando de ser considerado direito e necessidade da população mundial para ser adaptado em fonte garantida de lucro para corporações que habilmente se aproveitam das deficiências dos Estados, especialmente no setor financeiro. A conseqüência é a degradação ambiental que ameaça o bem-estar global, pondo em dúvida a maneira pela qual podemos sustentar nossas condições básicas de sobrevivência. Assim, a palavra-chave para pensarmos nesse século que se inicia seria “sustentabilidade”.

Não por acaso, uma das mesas-redondas do FSM tratou do tema “desafios da sustentabilidade planetária”. Estudiosos e ativistas ambientais abordaram profundamente o assunto, colocando o tipo de relação que se espera entre a humanidade e seu hábitat. Preservando-se as inúmeras formas de diversidade, faz-se necessário entender o território como bem coletivo a despeito do monopólio do capital, o trabalho como atividade digna e recompensadora, livre do estabelecimento de condições mínimas de sobrevivência (ex: salário mínimo), que não permita a exploração, e o tempo como ciclo natural do meio ambiente, agredido quando se acelera a produção ditada pela acumulação (ex: organismos transgênicos), entre outros importantes fatores. De forma geral, é preciso tratar o bem comum com o cuidado que é devido a um elemento indispensável à sobrevivência dos seres vivos. Casos exemplares podem ser vistos no que vem ocorrendo com a água e a terra no mundo atual.

Não é à toa que se paga cada vez mais pelo uso da água, bem literalmente imposto a todos nós. Resoluções no setor ambiental já apontaram a água como commodity, recurso comercializável livremente em transações internacionais. Nos últimos anos, a privatização dos serviços públicos de água e saneamento dos países periféricos tem sido uma das condições para a renovação de empréstimos do Banco Mundial e do FMI a essas endividadas nações. A gestão desse recursos, portanto, baseia-se nas dinâmicas do mercado do aumento de consumo e da maximização de lucros, em vez da sustentabilidade no longo prazo de um bem escasso às gerações futuras. Aos poucos, quanto mais se paga pela água, menos controle se tem por ela, cabendo a nós perguntarmos se ela é parte de um rio ou de uma empresa.

A situação da terra é mais evidente ainda, pela vultosidade atingida por movimentos ligados a ela, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra e a Via Campesina, cujas lutas recebem apoio em diversos países. Em outra mesa temática, o FSM retomou a problemática. O processo de apropriação rural pelo capital monopolista é bastante claro, impedindo a coletivização desse bem público, luta histórica dos movimentos pela terra. Atualmente, o capital internacional não abocanha apenas a propriedade, como também a produção agrícola, prejudicando a diversidade de culturas e o abastecimento das pequenas e médias propriedades. Por mais absurdo que pareça, é fato haver exportação primária de alimentos que não chegam às mesas de milhares de famílias camponesas, atributo histórico do Brasil. Um agravante dos últimos anos foi a descoberta da mina de ouro que os alimentos geneticamente modificados podem trazer às organizações multinacionais do gênero. Obviamente, agricultor e indústria vêem a semente de maneira completamente distinta, notadamente depois que a segunda viu-se possibilitada a aumentar seus lucros com a venda de agrotóxicos por meio dos transgênicos. A questão que aqui se encerra diz respeito à soberania alimentar dos povos mundiais, ameaçada seriamente pelas empresas transnacionais que, com o trânsito livre da política neoliberal, impedem o domínio das terras e sementes necessárias a esse direito universal da humanidade.

Os agravantes se enumeram, mas reações vêm surgindo. O fracasso e a insuficiência das políticas internacionais no setor ambiental (Rio-92 e Rio+10 não surtiram os efeitos desejados) e a crítica degradação dos bens públicos e ambientais nas mais distintas nações têm reacendido preocupações cabais para com a sustentabilidade do planeta. Atualmente, inúmeras discussões e manifestações brotam pelo mundo e já alguns governos demonstram que estão ouvindo, como o presidente Lula, muito citado e elogiado nesse FSM. Resta transformar, agora, discursos e propostas em atos e realidades, antes que cheguemos a uma Terra insustentável para nós e nossos descendentes.

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