| Serviço vital
Entre conferências, oficinas e
mesas de discussão e controvérsia, o III
Fórum Social Mundial (FSM) abre espaço
para que conheçamos experiências e histórias
de vida marcantes, por meio de testemunhos. Não
nos cabe aqui, porém, apenas ressaltar a figura
de Samuel Ruiz e seu trabalho como bispo no pobre estado
mexicano de Chiapas, mas sim olhar com mais atenção
para os indígenas lá presentes e as lições
derivadas desse fardo histórico de injustiças
e sofrimentos.
Tendo dedicado 40 anos de uma vida de serviço
à diocese de San Cristóbal de las Casas,
Samuel Ruiz Garcia conhece como poucos a trajetória
e a condição humana da população
de Chiapas, em sua maioria nativos paupérrimos.
Da antiga civilização maia, restaram diversas
heranças, sobretudo no campo da arquitetura e
da cultura, com destaque para o conhecimento da matemática
e das leis da natureza. Segundo Ruiz, os indígenas
mantêm um sistema de numeração vintesimal,
diferente do decimal, nossa referência (para contar,
utilizam dedos das mãos e dos pés) num
exemplo que nos sugere a existência de uma cultura
própria com seus valores, perfeitamente compreensível
se relebrarmos que os nativos já viviam organizadamente
antes da chegada européia ao continente.
Pois é justamente esse contato a raiz da hoje
critica situação dos indígenas,
produzindo choques culturais até os dias atuais,
conforme nos diz o ex-bispo. Tão logo os espanhóis
tomaram a América Central, os missionários
europeus tratavam de promover a conversão religiosa
dos nativos pagãos, não hesitando em derrubar
sangue para tanto, de forma semelhante ao que se viu
nos primeiros tempos de Brasil colonial. Classificados
como demônios condenados a não entrar no
Reino de Deus por desconhecer o cristianismo, os índios
deveriam ser “ocidentalizados” para obter
a “salvação”, submetendo-se
ao universo cultural europeu numa condição
brutalmente humilhante, a ponto de assistirem ao esmagamento
de seus hábitos e tradições. Este
é o legado ainda vivido em regiões como
Chiapas, ignoradas e excluídas do cenário
global como periferia do capitalismo internacional.
Conhecendo-se um pouco da cultura indígena, observamos
que a religião ocupa papel central na organização
desse modo de vida. Ruiz parte dessa importante observação
para nos apresentar outra dimensão de vivência
religiosa, afirmando que Deus, desejoso da salvação
de todos os povos, está presente em todas as
culturas. Desse modo, é preciso verificar de
que modo isso se processa, e aqui está um valioso
apontamento que situa a expressão própria
da identidade da comunidade anteriormente ao contato
com a outra cultura – no caso da religião,
a formação de igrejas autóctones.
Tendo observado o sentimento solidário, de forte
carga comunitária, mais forte nas crianças
indígenas do que nas mestiças, Ruiz realça
ainda mais a injustiça social contida na evangelização
que destrói culturas, pelo monopólio do
aculturamento. Retomando o pensamento do bispo de Chiapas
de meados do século XVI Bartolomeu de las Casas,
ousado defensor dos indígenas, crê na igualdade
perante Deus entre os diferentes grupos humanos, chamados
à conversão pacífica pela pregação
da palavra. Aqui, o ex-bispo, indicado duas vezes ao
Prêmio Nobel da Paz, traz-nos uma regra básica
para um convívio intercultural harmonioso, independentemente
de sua abordagem e direcionamento religiosos.
Entretanto, essa postura não se restringe a uma
interpretação histórica, possuindo
seu valor na atualidade. Não bastando o alerta
para o condenável processo histórico que
segue reduzindo os indígenas a parias da sociedade,
muito em virtude da aproximação com os
malvistos zapatistas, Ruiz vai mais além, clamando
pelo diálogo inter-religioso que não vimos
em 500 anos no continente, e não só nas
Américas. Especialmente no instável Oriente
Médio, reforça a mesma atitude na conjuntura
que aproxima religião e política, sob
a delicada ameaça representada pela intolerância,
radicalizada nos fundamentalismos e terrorismos que
atemorizam o planeta. Mais do que instrumento para a
tão urgente paz mundial, o relacionamento fraterno
coloca-se como condição premente para
que ainda haja respeito e, conseqüentemente, vida
nas tantas aldeias perdidas por uma história
que insiste em não lhes sorrir.
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