Dois negros, duas realidades, o mesmo alerta

Extremamente rico nas conferências que traz aos participantes, pela diversidade cultural oriunda dos variados países representados, o Fórum Mundial da Educação foi capaz de agregar, abordando distintas temáticas, realidades que refletem o mesmo cenário crítico estabelecido pelos agentes máximos do poder político e econômico no mundo inteiro.

Diante das palavras firmes do professor doutor Wayne Russell, o público ouvinte não conteve certa admiração. Este norte-americano saiu do principal alvo das críticas, denúncias e protestos que seguidamente observam-se no Fórum para dar sua contribuição nesse caldeirão anti-EUA.
Obviamente, foi muito aplaudido. Ao destacar a importância do conhecimento como meio de libertação ou opressão popular, defendeu a primazia dos valores e necessidades básicos da população, atacando desde a ingerência externa até o tecnicismo do cotidiano, além do isolamento da intelectualidade. Dizendo "temos que nos preocupar com o que vamos comer", aproxima-se de Lula. Porém, volta seu foco à "escravização pela doutrina e sistema imperialistas" promovida pelos Estados Unidos em todo planeta, prática que atualmente atende sob o nome de globalização. Para ele, a educação subjuga-se aos interesses do lucro e do poder, no interior de um processo colonizatório que não preserva nem os próprios norte-americanos, "escravos desprovidos de valores sociais". Relembrou a crise democrática embutida no conturbado pleito que elegeu George W. Bush, o líder que tem a guerra como arma em seu favor, por um colégio eleitoral que falou mais alto do que o povo. Sua postura pode soar simplista na análise do complexo fenômeno da globalização, portando algum traço de xenofobia e "américa-centrismo".
Entretanto, Russell merece atenção, não tanto pelo carisma de quem se despede com "Power to the People" à platéia, mas por expor o receio de que a supremacia dos interesses dos grandes do neoliberalismo continue contribuindo para o agravamento da situação da educação em âmbito global.

Poucas horas depois, a ministra da educação e cultura de São Tomé e Príncipe Maria Fernanda Pontífice apresentou uma visão abrangente do que se passa com a educação do outro lado do Atlântico. Refém dos inúmeros problemas estruturais e conjunturais existentes na maioria de seus países, o continente africano sofre para se aproximar das metas estabelecidas para o setor. Epidemias, fome e conflitos tornam a condição da educação um "desafio dramático" para a África, a ponto de não evitar a dependência das grandes instituições mundiais de financiamento como FMI e Banco Mundial. Assim, observa-se o enfraquecimento do Estado na garantia da qualidade do ensino e políticas implementadoras de congelamento salarial (há mais de 15 anos, segundo a ministra) e redução de pessoal, trazendo desemprego. A grande estabilidade de que goza o menor país de língua portuguesa do mundo, exemplo para o continente, está seriamente ameaçada, e a população conscientemente aponta a crise na educação como a maior responsável pela difícil situação. São Tomé e Príncipe, pelo relato de Pontífice, pode reunir as condições para sanar as deficiências do ensino, visto que a economia obteve novo impulso com a recente descoberta de petróleo, inclusive contando com a solidariedade internacional, já manifesta na implementação de iniciativas brasileiras, como os programas Alfabetização Solidária e Bolsa Escola. Todavia, em um país muito prejudicado pela descontinuidade administrativa, a convergência entre projeto político e pedagógico faz-se urgente, e efeitos positivos somente poderão ser viabilizados se os interesses nacionais estiverem em primeiro lugar. Novamente, constata-se a encruzilhada representada pela opção de se contar com apoio externo, e até aqui se percebe que o capital internacional não tem rendido bons frutos às crianças do país de Pontífice.

Um personagem está nos EUA, outro na África. Muitas das circunstâncias vividas posicionam-se de maneira oposta, talvez até conflitiva. Entretanto, olhando para os dois casos no conjunto da obra construída pelas discussões do FME, chega-se às questões cruciais que ficam de reflexo inevitável para todos os que se ocupam em pensar e fazer a educação na atualidade: com quem o setor deve se comprometer e para quem deve se voltar?

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