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Fazendo parte da Trindade, Shiva, encarnação divina da filosofia hindu, incorpora o lado material da destruição. Habita as montanhas, veste-se com peles de tigre e carrega um emblema característico o tridente. O terceiro olho no meio de sua testa abrasa os inimigos. Conhecido também como o Rei dos Dançarinos ( Natarãja), destruidor dos mundos pelo fogo, mas também o Semideus que preside ao renascimento de todas as coisas. É o deus transformador, que destrói para renovar. Maltrapilho e nu, com seus longos cabelos soltos e o corpo coberto de cinzas, Shiva vivia na floresta . Mas sua aparência, em vez de causar repulsa, atraía o amor das mulheres e das deusas. Sua primeira esposa foi uma mortal, Shakti, a fiel, que se lançou à pira funerária quando foi falsamente informada da morte do marido. Desesperado, Shiva chorou, até que Brahma recriou Shakti, fazendo-a renascer como várias deusas- todas elas esposas de Shiva. Assim Shiva se casou com Parvati, a virtuosa; Kali, a negra; Gauri, a de beleza dourada; e Durga, a amante. |
A Dança de Shiva
A dança é uma ancestral forma de magia. O dançarino ganha novas e maiores dimensões, torna-se um ser dotado de poderes sobrenaturais. Sua personalidade se transforma. Como a ioga, a dança leva ao transe, ao êxtase, à vivência do divino, à compreensão da própria e secreta natureza individual e, por fim, à fusão com a essência divina. Por isso, na Índia, a dança conviveu lado a lado com as severas práticas acépticas dos eremitas.
Numa escala universal, Shiva é o dançarino Cósmico; em sua manifestação dançante incorpora em si mesmo a energia eterna que, simultaneamente, torna manifesta. As forças reunidas e projetadas no seu girar frenético e incessante são os poderes de evolução, preservação e dissolução do universo.
A natureza e todas as suas criaturas são efeito dessa dança eterna. Em Shiva-Natarãja, ver-se-á que a mão direita superior porta, para a marcação do ritmo, um pequeno tambor, cuja forma sugere uma ampulheta. Ele sugere o som, veículo da fala e portador da revelação, tradição, encantamento, magia e verdade divina.
No lado oposto, a mão esquerda superior, cujos dedos formam uma meia lua, mostra na palma uma língua de fogo. O fogo é o elemento da destruição do mundo. No término do Kali-Yuga, o fogo aniquilará o corpo da criação, sendo ele próprio então apagado pelo oceano do vazio. O equilíbrio das mãos ilustra o equilíbrio criação-destruição no bailado cósmico.
O gesto de não temas que confere proteção e paz, é feito pela segunda mão direita, enquanto a outra mão esquerda, na extremidade do braço transversal ao peito, aponta para baixo, para o pé esquerdo erguido. Este pé significa a libertação; nele o devoto encontra refúgio e salvação. Deve ser venerado, para que seja alcançada a união com o Absoluto. O gesto da mão que aponta imita a tromba distendida ou a “mão” do elefante, lembrando-nos do filho de Shiva, Ganesha, o removedor de obstáculos.
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A divindade é representada dançando sobre o corpo prostado de um anão-demônio. Este é o Homem ou demônio, chamado “Esquecimento” ou “Imprudência”. Simboliza a cegueira da vida, a ignorância humana. Subjuga-o a obtenção da verdadeira sabedoria. Nesta está a libertação do mundo.Um anel de chamas e luz emerge do Semideus e o circunda. Diz-se que significa os processos vitais do universo e de suas criaturas, e a natureza em sua dança, a mover-se como se a impulsionasse um Semideus a dançar dentro dela. Ao mesmo tempo, diz-se que significa a energia da sabedoria, a luz transcendental do conhecimento da verdade, cuja dança emana da personificação do todo. Outro significado alegórico atribuído ao halo flamejante, refere-se à sílaba sagrada AUM ou OM. É provável que a origem do anel flamejante se refira ao aspecto destrutivo de Shiva-Rudra; mas a destruição, em Shiva, é, afinal, idêntica à libertação. |