UM MARIDO FIEL
Ou o Culpado Inocente
Não
estranhem. Há, realmente, coisas que se não dizem. Tenho-me na conta de pessoa
discreta. Mas é-me indispensável contar o que aí vai. Desde que o meu caso se
tornou público em tribunal, não tenho o direito de ocultar por mais tempo tudo
quanto sei. É a minha consciência que está em jogo. Todos me julgaram mal, a
começar por minha mulher, que exigiu de mim o divórcio. Sim: é a ela que eu não
posso perdoar. Por sua causa é que tudo aconteceu. A outra apenas foi vítima
da minha fidelidade. Não tenho precisão de mentir. Vou falar-lhes com o coração
nas mãos. Dir-me-ão depois se um homem que se comporta como eu me comportei
pode com justiça receber o labéu de marido infiel. Dir-me-ão se minha mulher
tinha o direito de fazer o que fez. Só uma alma mesquinha não compreenderá a
abnegação da minha conduta. Pouco importa que as aparências sejam contra mim.
As aparências iludem: eis porque procurarei antes explicar o que se passou
dentro de mim do que o que decorreu à vista de todos. É certo que nada teria
acontecido se me não tivesse deixado tentar por certas quimeras. Sempre me
julguei fadado para amar muitas mulheres, para viver sem rei nem roque. E,
afinal, reconheço que me enganei. Os santos mais queridos de Deus foram grandes
pecadores. Não sou santo: nem o pretendo ser. Mas, se pequei, arrependi-me. Se
pequei, apenas uma parte de mim mesmo é que pecou. A outra está inocente. Foi
a outra que me salvou, embora tenha sido ela que me perdeu aos olhos de minha
mulher e no parecer do mundo.
Levaram-me ao tribunal acusado de imprevidência. O desastre deu-se em
circunstâncias que podiam levantar suspeitas. Um homem casado surpreendido alta
noite numa estrada, coberto de sangue, ao lado de uma mulher morta, que não era
a sua mulher, alarmou, como é evidente, a curiosidade das gazetas e os
zeladores da justiça. Tive de revelar no tribunal como se dera o desastre e
tudo o mais relacionado com as circunstâncias daquela situação irregular. E
nada houve que tapasse a boca à publicidade. Os jornais lançaram-se sobre mim
com uma avidez de cães esfaimados. O pai da vítima não me poupou. Fez quanto
pôde para me condenarem. Não o conseguiu. Há ódios que a justiça não
protege. E eu estava inocente.
Minha mulher, porém, não me perdoou. Sempre me dissera que me não
toleraria qualquer infidelidade escandalosa. De nada serviram os meus rogos, as
minhas explicações, a lealdade da minha conduta íntima. Reconheço agora que
tal mulher era indigna de mim. No entanto, sim, no entanto, ainda hoje continuo
a ser-lhe fiel, e já lá vão dois anos que o divórcio foi decretado. Que
maldição é esta? Que malefício se apoderou de mim? Pois não será ainda a
esperança de obter o seu perdão que me leva a abrir-me assim diante dela e do
mundo? É por ela, e só por ela, afinal, que escrevo o que aí vai. ...,... (de: Capítulo
I e II)