SURTOS

I

Por: Dr. Fernando Aguiar-Branco

 

                Através de uma curiosa sucessão de factos, assume-se como é difícil conquistar, preservar e divulgar a liberdade. Honradez e epifenomismo são eventos ocorridos no mandato, de 1972-74, do Conselho Distrital do Porto da Ordem dos Advogados, Ordem que, por sua vez e em época temporal mais recente, é apreciada quanto às mercês ou honrarias recebidas e concedidas. Nas opiniões emitidas sobre diversas personalidades nota-se o pendor humanista do seu autor que, tendo sido escolhido por Agustina Bessa-Luís para seu apresentante (ou padrinho) no acto do seu Doutoramento “Honoris Causa”, fez, do mesmo, a respectiva crónica. Enfim, alguns surtos que, neste volume, mais se consubstanciam de factos acontecidos e menos de ficção literária ou de conjecturas que se espera, todavia, venham a ser o conteúdo de subsequentes e próximos Surtos. 

 


Explicar o porquê do presente livro quanto ao nome, ou título, seu conteúdo e anúncio de ser o primeiro de uma série, não é atitude despicienda. Um mesmo facto proporciona tantas evidências quantos forem os agentes dele e seus observadores. É apodíctico. Não existe realidade mesma ou igual para todos. Aqui se filia a razão desta nota explicativa. Dar a conhecer a minha evidência, ou seja, a minha realidade. É, pois, uma necessidade, ou mesmo obrigação ética, de explicitação, por respeito a mim próprio e, sobretudo, ao leitor. Creio que, na perspectiva do homem e da sua relação social (humanidade), só há surtos ou surgimentos. O homem aparece e desaparece sem conhecimento da sua origem e seu fim: surge e tem uma duração limitada. Durante o período de vivência adquire, rejeita, perde e irradia conhecimento. É um acontecer circular que se exercita entre o nascimento e a morte. Os efeitos memorizam-se na estrutura real que é a humanidade. Mas esta humanidade, aglutinação de surgimentos efémeros, é ela mesma um surgimento.

Estruturada por surgimentos efémeros, a humanidade renova-se e perdura mercê do “vaivém” desses surgimentos; ou seja, da sucessão das gerações. Realidade a se, não sabe, todavia, quanto tempo dura. Mas, dentro do seu tempo, adquire, rejeita, perde e irradia conhecimento próprio. Tal como o homem, o seu acontecer é circular.

Não houve, ainda, quem explicasse o Universo (e seus componentes, v.g., o homem e a humanidade). Eu próprio me refugiei, para sossego de espírito, na fé revelada e na aceitação, através dela, de uma causa primeira. Mantenho-me fiel a essa crença de matriz cristã-católica. Mas, no plano estritamente racional, há erro de ciência humana quando se afirma, com intuito de certeza, que Deus é a causa primeira. O homem porque, em realidade e dentro dos seus limites, tem o poder de criar e é nele primeira causa, quando pretende honrar e justificar Deus iguala-o a primeira causa, embora de tudo quanto existe. Orgulho obnubilador do erro de extrapolação. Com efeito: que legitimidade tem o homem para pensar que a gramática desse quê desconhecido é igual à gramática que elaborou para si próprio? Nenhuma. Mantenho-me, pois, na minha fé e no respeito devido a outros entendimentos.

Mas, retomando as duas realidades (homem e humanidade), elas são, para mim, como disse, apenas surtos ou surgimentos. Consequentemente, o homem isolado ou integrado (humanidade) só faz ou só pode produzir actos daquela natureza; pelo que eu só posso, obviamente, produzir surtos ou surgimentos. E é uma certa quantidade deles que integra o conteúdo do livro e justifica o seu título.

Consciente da minha natureza e suas virtualidades, sou apenas um fazedor de surtos que, por feição que me é própria, tomam o estilo de crónica, conjectura, e ficção. Cada um dos volumes, que perspectivo publicar, conterá os surtos que forem sendo escritos, nos tempos livres, aliás poucos, consentidos pelas obrigações profissionais intensas que exigem de mim, gostosamente, dedicação exclusiva. (de: Nota Explicativa)

 

                                                                            

 


SUMÁRIO

— Nota Explicativa

— Sortilégios da Liberdade

— Honradez

— Epifenomismo

— Ensejos de Expressão Humanista

— A Ordem dos Advogados e as Mercês Honoríficas

— Agustina: Doutora Honoris Causa

— Índice Onomástico

— Índice Fotográfico

— Índice Geral


Data de Ed. – Abril de 2000 — Dep Legal nº 150157/00 — ISBN 972-8386-32-X

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