QUE
CONHECI
Autobiografia
Literária intitulei, aquando da sua publicação, sob a forma de
apontamentos, num jornal de Lisboa — o «Diário Popular» — quer os Retratos
de Poetas que reuno neste volume, quer as Memórias de um Crítico Literário,
que em parte começaram aí a ser publicadas, igualmente sob a forma de
apontamentos, e que virão a figurar noutro volume da minha Autobiografia.
De facto, após a proposta da Brasília Editora para a publicação das minhas Obras
Completas, decidi que os sucessivos volumes que viriam a constituir a
totalidade das minhas Obras Completas seriam englobados em cinco grupos
— Ficção, Ensaio, Teatro, Biografia, e Autobiografia. Eis
porque o primeiro volume dos Retratos de Poetas que Conheci aparece sob a
rubrica geral de Autobiografia e
não de Autobiografia Literária. Deste modo me será dado alargar a matéria
dos meus livros autobiográficos que, com o tempo, se a morte não chegar
entretanto, abrangerão, inclusivamente, páginas de pura autobiografia, isto é,
autobiografia não literária.
Catorze são os poetas de quem me permiti, neste primeiro volume, esboçar
os retratos, retratos esses que de modo algum pretendem apresentar-se em linhas
críticas ou sequer em linhas biográficas. Algures chamei a esta espécie de
evocações das personalidades poéticas com quem convivi, que de perto conheci,
«sondagens na memória». Retrocedendo a trinta, quarenta, por vezes cerca de
cinquenta anos atrás, procuro, de facto, sondar o que resta na minha memória
das personalidades literárias — poetas no caso presente — com quem convivi,
com quem me familiarizei, ao longo de algumas dezenas de anos de vida
intelectual. Sem pretensões cronológicas, indiferente à exactidão dos
retratos, alheio ao rigor dos dados recolhidos, pouco atento à veracidade
objectiva dos traços evocados, fiando-me apenas no que me resta na memória dos
momentos que passei com alguns desses poetas, dos anos que com alguns deles
convivi, do que deles me ficou na saudade ou na admiração (e até no
ressentimento, sejamos francos), assim procuro arrancar à sombra do passado os
fragmentos de vida que teimam em arreigar-se-me à lembrança, a essa espécie
de negativo que é a memória de cada um de nós quando sobre ela
passaram muitas dezenas de anos.
Não serei modesto, dizendo que me assiste o direito de sentir um certo
orgulho pelo facto de ter sido amigo de alguns dos maiores poetas portugueses do
meu tempo. E se a certos deles prestei, inclusivamente, pequenos serviços,
tendo sido eu o primeiro ou dos primeiros a valorizar o seu talento ou o seu génio
— como aconteceu com Fernando Pessoa, para apenas citar um caso, e dos mais
significativos —, com todos eles mantive relações quer de convívio, quer de
camaradagem, quer
de amizade, quanto basta para tornar valiosa a evocação que deles faça como
poetas e como pessoas humanas. Esta, aliás, a preocupação dos meus Retratos.
Há neles tanto do retrato como do retratista. A simbiose que ficou de mim do
que esses poetas me disseram e do que eu lhes disse, eis, em última instância,
a natureza estrutural destes retratos, ao mesmo tempo psicológicos, anedóticos,
afectivos e documentais. Aliás não me parece que seja este o seu menor mérito.
Sobrevivente que sou de uma geração — a segunda geração modernista — que
ainda pôde conviver com alguns dos mais importantes elementos da geração
anterior — a primeira geração modernista — é-me permitido lembrar
acontecimentos e circunstâncias que ou presenciei ou testemunhei, quando não
comunguei deles, e como elemento de relativa importância. Eis porque nos
retratos que me foi dado fazer de Fernando Pessoa, de Almada Negreiros, de António
Botto, de Raul Leal, de Luís de Montalvor, figuras directamente ligadas à
primeira geração modernista, intervêm dados que ou directamente testemunhei
ou indirectamente chegaram até mim, quantas vezes graças aos próprios
elementos participantes nas ocorrências. Levei mesmo mais longe a galeria dos
meus retratos. Afonso Lopes Vieira, ainda do tempo do saudosismo, ou, pelo
menos, do renascimento nacionalista, e Afonso Duarte, que, não obstante a sua
presença na «Presença», iniciara a sua carreira na «Rajada» e na «Àguia»,
contemporâneo de Teixeira de Pascoaes, eis grandes poetas que me orgulho no
entanto de ter contado entre os melhores dos meus amigos. Claro que não
comparece ainda neste primeiro volume Autobiográfico o mais
significativo de quantos poetas viveram a meu lado ou ao lado de quem me foi
dado viver: José Régio. Mas exactamente por isso. Tantas e tão ricas são as
recordações que dele me ficaram, tão
valioso foi o nosso convívio, tão transcendente a nossa colaboração,
que não cabia nesta galeria, já demasiado cheia, o seu vultuoso retrato. Num
segundo volume desta Autobiografia — Novos Retratos de Poetas que Conheci
— ou, possivelmente mesmo num volume apenas a ele consagrado, espero poder
recordar, sondando a memória e o tesouro da sua correspondência, a longa,
intensa, agitada, por vezes tumultuosa convivência que mantivemos ao longo de
quase cinquenta anos. O seu retrato, o retrato de Branquinho da Fonseca e o
retrato de Adolfo Casais Monteiro, aquele participante no primeiro triunvirato
da «Presença», este seu sucessor a partir de 1930, eis os retratos que também
virão à luz ou no volume segundo da Autobiografia ou num terceiro
volume dela, se entretanto não publicar aquele em que me proponho rever a minha
História do Movimento da «Presença».
Pouco mais direi sobre esta galeria de Retratos de Poetas. A
publicação dos apontamentos que lhe serviram de rascunho no citado vespertino
de Lisboa provocou reacções. Quando, a propósito de António Ferro, abordei a
questão do Prémio Antero de Quental não atribuído a Fernando Pessoa, de novo
veio à baila a injustiça do caso. E os amigos póstumos — e bem póstumos
— do antigo arauto da «política do espírito» não deixaram de contestar,
em termos de causa perdida, a legitimidade da minha asserção. Mas não se
limitaram a isso, recorreram, mesmo, ao insulto telefónico. Velhos processos
fascistas, em que eles, tipicamente de tal mentalidade sempre foram exímios,
desta feita, espécie de canto do cisne de tão agressiva e cobarde maneira de
agir. O próprio filho do escritor, que, graças a mim, se lembrou de remexer no
arquivo epistolográfico do pai, acorreu a publicar a carta que eu me não
lembrava de ter escrito ao entrevistador de Salazar na altura em que ele se me
dirigira para Coimbra. Óptimo serviço lhe prestei, óptimo serviço me
prestou, uma vez que essa carta, que eu esquecera, a recolho aqui, e graças a
ela se percebe melhor a atitude da «Presença» e a minha própria atitude para
com esse representativo elemento da política Salazarista.
Em Apêndice aos Retratos de Poetas reporto-me a estes
factos acidentais e ainda ao artigo que publiquei na «Presença» — António
Botto e o Problema da Sinceridade —, ponto de partida das minhas relações
pessoais com o autor das Canções. Transcrevo este na íntegra, com
ligeiras emendas, para que possa apreciar-se o que ele representa na história
do segundo modernismo e na minha própria história pessoal.
Não é fácil escrever uma autobiografia neste nosso país. Portugal é
um país onde o célebre aforismo «não há grande homem para o seu criado de
quarto» tem aplicação cabal. Ainda não pude apurar, todavia, concretamente,
se a culpa desta diminuição sistemática dos grandes homens no nosso pequeno
País cabe, de facto, aos seus criados de quarto... Não caberá antes aos
grandes homens? Seja como for, aqui deixo o retrato de alguns deles, esperando
que me não acusem de os ter visto com mentalidade de fâmulo. Com essa
mentalidade me verão, necessária e fatalmente, aqueles que porventura se
debrucem sobre os meus volumes Autobiográficos. Não sou um «grande
homem», decerto, mas eles, que de bom grado me negarão essa qualidade —
qualidade que eu sei não ter — eles, com toda a certeza, é que tudo farão
para se comportarem em relativamente a mim como verdadeiros «criados de quarto»...
(de: Prefácio por J.G.S.)