POIÉTICA DE BARTHES

Por José Augusto Seabra

 

 

 

 

              José Augusto Seabra nasceu em 1937, em Vilarouco (S. João da Pesqueira). Após ter-se licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, exilou-se em França, onde se doutorou em Letras pela Sorbonne, com uma tese sobre Fernando Pessoa, dirigida por Roland Barthes. Em 1974 regressou a Portugal, onde é actualmente professor na Faculdade de Letras do Porto. Publicou vários livros de poemas (A Vida Toda, 1961; Os Sinais e a Origem, 1967; Tempo Táctil, 1972; Desmemória, 1976) e tem outros inéditos (Gramática Grega e O Anjo). Como ensaísta, é autor do livro Fernando Pessoa ou o Poetodrama, versão portuguesa da tese de doutoramento. Organizou, prefaciou e traduziu em França uma antologia de textos de Fernando Pessoa e dos modernistas portugueses (Le retour des Dieux, Paris, 1973).  É um dos directores do Centro de Estudos Pessoanos e da Revista «Persona», onde vem colaborando regularmente com novos ensaios sobre Fernando Pessoa e o Modernismo. Dirige também o Centro de Literatura da Universidade do Porto. Tradutor de «Mitologias», de Roland Barthes, publicou como prefácio a este livro um ensaio intitulado Roland Barthes, Escritor (do desejo ao Prazer da escrita). O presente volume é uma versão alargada, transformada e renovada desses textos, no que poderíamos designar por uma encenação intertextual. Com ele se abre a COLECÇÃO POÉTICA, que José Augusto Seabra dirige na Brasília Editora.  

 

 

            Incipit

 

            Que texto assim insiste, neste desejo a rescrever-se de uma leitura de Barthes, em demanda de um prazer sempre prometido, recomeçado? Tendo na sua origem a solicitá-lo uma tradução, a que serviu de prefácio, enquanto simples vade-mécum para os ainda não iniciados (ou para os que já o eram?), ele foi-se transformando, por sucessivos ensaios, num texto outro: livro adiado e a vir, como queria Blanchot. De ensaios com efeito se trata — ou se se quiser de um ensaio de ensaios —, mais do que dum estudo crítico e sistemático, que estava e está fora do projecto, do objecto perseguido. Poiética de Barthes se lhe chamou finalmente, entre vários títulos possíveis, porque o que se foi traçando, em sentido próprio, foi o trajecto de um fazer, em que escrita e leitura, de tentame em tentame, se buscaram e enlaçaram, ao longo de um percurso isomórfico: o do trabalho do texto, outrando-se, como diria Pessoa.

            Se me fosse dado descrever, como se descreve uma órbita, a história secreta, a discreta diacronia desse percurso, teria de remontar ao primeiro contacto, no caso feliz de um encontro de exílio, com o que Barthes chamou o seu «texto zero». Encontro que me levou, depois, aos seminários da Ecole Pratique des Hautes Etudes, lugar de fascinação e aprendizagem, até culminar com o que seria mais do que a preparação de uma tese: uma forma de reconhecimento, que entre «mestre» e «aprendiz» se teceu pouco a pouco, na cumplicidade de uma iniciação. Ela teria, como gratificação dupla, uma dupla sequência: se através de Barthes fui percorrendo, passo a passo, o labirinto do texto pessoano, não podia deixar, em retorno, de através de pessoa percorrer o texto barthesiano. E o prolongamento natural disso foi não só traduzi-lo — traducere: conduzir, atravessando as línguas, de texto a texto — mas empreender a viagem da sua escrita múltipla, numa dramatização heteronímica: daí a versão inicial do ensaio, que cumpriu a sua função introdutória.

            Entretanto, uma circunstância tão feliz como o fora, um dia, o encontro do exílio — a do fim deste —, veio favorecer, após o regresso inevitável à pátria, e passadas algumas peripécias incidentais e fugazes, as condições propícias a repetidos reencontros de Barthes, porventura mais lucidamente apaixonados, e com ao menos um efeito fecundo: o efeito da distanciação

brechtiana, de que tanto gosta de se reclamar. Foi o que me levou, irresistivelmente, a retomar o texto primitivo e a buscar para ele — iluminado intertextualmente com as reverberações de novos livros, novos discursos, novas escritas — uma outra encenação: decompondo-o, recompondo-o, combinando-lhe as figuras, numa «expansão» metonímica da «letra», mallarmeamente. Inscrições, incisões, tatuadas no texto, mas também reinscrições, rasuras, e sobretudo um espaçar dos interstícios, das margens, pelo branco da página, dando ao livro uma nova respiração, um novo ritmo de escrita e de leitura.

            Daí, em fidelidade aliás a uma predilecção recente de Barthes, a opção pela redistribuição da massa textual por fragmentos, que não são tanto capítulos como pequenos painéis justapostos num políptico, configurando as diferentes etapas do percurso,  entremeadas  de pausas breves em que se possam imprimir os traços visuais da escrita barthesiana (ou dos seus fantasmas), ancorando aqui e ali no fluxo discursivo, numa alternância do contínuo e do descontínuo. Ao sabor da ondulação, da deriva do texto, flutuarão assim, para glosar Barthes, alguns «ilhéus de gozo» entrevistos de um continente de prazer. Perversamente, isto é, obliquamente, por uma mimesis subtil, respondendo ao apelo de uma poiesis, a leitura esposará, num vaivém amoroso, não o estilo, mas o corpo mesmo do fazer e do refazer escritural, surpreendido em acto, numa enunciação permanente: o que é a citação, quando nela o seu sujeito comparece, plural, senão a voz do outro, antes de congelar-se em enunciados?

            Ecoar algumas «inflexões» dessa voz, à maneira daquele «biógrafo amigável e desenvolto», de que falava Barthes — e que viria «ele mesmo» a sê-lo —, tal terá sido, quem sabe, o quase silencioso trabalho poiético deste texto, que ao leitor cabe agora por sua vez reler, reescrever.

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