DA
POESIA PORTUGUESA
Perspectiva,
não história, é o que é, de facto, a obra que em tempos publiquei, em
fascículos, acompanhada de uma antologia, sob o título de História da Poesia
Portuguesa, três volumes, o primeiro dos quais ia do século XII ao século
XVII, o segundo, do século XVIII ao XIX, e o terceiro, do último quartel do século
XIX ao fim da primeira metade do século XX — do Pré-simbolismo ao
Surrealismo, praticamente. E conquanto sob a égide de tal título — o título
de História da Poesia Portuguesa —, nunca o seu autor atribuiu ao
trabalho a que se consagrou, entre 1947 e 1958, foros de obra erudita ou de
investigação. «Não é um erudito nem um investigador o autor desta obra: é
um crítico, um modesto crítico, especializado em literatura moderna»,
confessava no prefácio do seu primeiro volume. De facto, mais habilitado para
escrever sobre a literatura do século XX — e em particular a literatura
moderna ou modernista — do que sobre a literatura de qualquer outra época, a
circunstância de ele ver a poesia do seu tempo, fossem quais fossem as
novidades que ela apresentasse, como que implícita numa tradição que
remontava às suas origens, animou-o a voltar-se para o passado e a fazer a história
dos oito séculos da sua ininterrupta peregrinação. Esse seu olhar relanceado
ao lirismo português cujos fundamentos teve de ir buscar aos Cancioneiros
galego-portugueses — a uma época em que a língua dos nossos poetas ainda não
estava devidamente individualizada —, correspondia, pois, antes a uma visão
perspectiva do que a uma visão histórica. Do actual para o inactual,
do presente para o passado, do moderno para o antigo, eis como se organizou,
realmente, o método crítico-histórico adoptado pelo autor da História da
Poesia Portuguesa das origens à actualidade, título primitivo da sua obra,
em três volumes, o último dos quais independente dos dois primeiros, em parte
por isso mesmo, por a sua matéria ser nele mais minuciosamente estudada pelo
autor. História da Poesia Portuguesa do Século XX se intitula, de
facto, o último tomo da referida obra, que, em boa verdade, abrange ainda período
importante da história do lirismo português do final do século XIX. Com
efeito, tanto os poetas Pré-simbolistas como António Nobre e os
poetas da «Bohemia Nova» lá figuravam ainda. Não é fácil delimitar as
fronteiras da nossa poesia na passagem do derradeiro quartel do século findo
para o primeiro do presente século, muito particularmente se a virmos em
perspectiva histórica.
Ao incluir a História da Poesia Portuguesa nas Obras
Completas, resolveu o seu autor restituir ao trabalho, que sempre considerou
mais como ensaio que como tarefa de historiador, o seu título genuíno, o título
de Perspectiva, que de uma verdadeira perspectiva se trata, isto é, de
uma visão do passado obtida do presente, melhor ainda, de uma perspectivação
das linhas de força que actuaram e actuam no movimento da nossa poesia
moderna, inclusive da novíssima. Eis porque, eliminando deste volume (o
último dos três volumes publicados, agora o primeiro) os dois capítulos, um
sobre O Pré-Simbolismo, o outro sobre António Nobre, a Geração
da «Bohemia Nova» e a Herança Pessimista, isto é, sobre a época
que vai de 1875 a 1898, compendia o seu autor no novo volume, de que igualmente
eliminou a antologia, tudo quanto diz respeito ao processo evolutivo da nossa
poesia do Simbolismo para cá. Principiada em 1890, termina em 1975 a Perspectiva
Histórica da Poesia Portuguesa que ele agora oferece ao leitor,
actualizando-a, inclusivamente, no último capítulo, aquele que na História
da Poesia Portuguesa do século XX se detinha em 1958. E agora, conquanto
perspectivada segundo a mesma óptica, dividida nos mesmos capítulos, muito
mais à vontade no seu trabalho de inventariador crítico, o autor da Perspectiva
Histórica da Poesia Portuguesa, em três volumes, profundamente revistos e
em grande parte re-escritos, desenvolverá, do presente para o passado, do século
XX para o século XII, o seu longo ensaio de perspectivação histórica
do processo poético nacional. A esta Perspectiva Histórica da Poesia
Portuguesa entre o simbolismo e a actualidade, virão juntar-se primeiro a Perspectiva
Histórica da Poesia Portuguesa do século XVIII e XIX e depois a Perspectiva
Histórica da Poesia Portuguesa das origens ao final do século XVII. Numa
marcha retro, digamos, e graças a uma ampla remodelação do seu trabalho, propôs-se
o autor, finalmente, não apresentar uma história da poesia portuguesa,
mas, uma perspectiva da poesia portuguesa a sua dele perspectiva da
poesia portuguesa, isto é, a poesia portuguesa do passado vista do ângulo
em que ele melhor se sente colocado para interpretar os problemas da literatura:
o ângulo do seu próprio tempo.
Chegou a hora de arrumar as malas, e esta obra, pouco mais que um
aplicado trabalho de ensaísta, ou de crítico ensaístico,
desde muito — desde 1931 — empenhado em estudar o fenómeno poético
à luz de uma doutrina que tudo fia da compreensão genética desse mesmo fenómeno,
se não tem outros méritos, pelo menos um o autor espera lhe não neguem: o mérito
do seu pioneirismo. Até à data, se ele se não engana, é esta sua obra a única
que entre nós ousou perspectivar historicamente o processo da poesia
nacional da origem à actualidade.
Esquemática a Bibliografia que serve de remate ao presente
trabalho, outro objectivo não tem que dar ao leitor uma visão de conjunto das
obras que vale a pena ter em conta no estudo da poesia portuguesa de cada um dos
períodos em que ela aparece dividida nas suas páginas. Incompleta, mesmo assim
incompleta, pode ajudar o leitor que porventura pretenda fazer o que o autor não
fez: uma verdadeira história da poesia portuguesa. (de: Prefácio
por J.G.S.)