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SEXO DOS ANJOS
Está prestes a reaparecer pela terceira vez, perante um tribunal da Itália, o processo contra um diplomata acusado de haver morto a esposa em Bangkok. Condenado em Turim, foi julgado em segunda instância e absolvido em Novara. Dentro de dias, enfrentará um terceiro julgamento. Há dez anos que o réu se proclama inocente. Não há provas materiais da sua culpabilidade, e as duas sentenças opostas demonstram que o caso é de interpretação duvidosa.
Entre as provas efémeras que se aduzem contra este marido, está a seguinte: «Trata-se decerto de crime e não de suicídio — diz a acusação —, pois a vítima, encontrada exangue, na cama, às sete da manhã, tinha nas orelhas brincos de pérolas. Não é verosímil que, na hora da morte, uma mulher pense nesse adorno supremo da elegância.»
Os gestos dos homens e das mulheres perante a morte não deviam provocar gritos de espanto. Anos atrás, um oficial húngaro, condenado à morte por espionagem pelo tribunal de Nice, vendeu os seus dentes de ouro e, com o dinheiro obtido, encomendou no Hotel Negresco um jantar de grande luxo: lagosta com molho tártaro, salmão rosado do Báltico, ostras de Ostende, champanhe, flores. Para custear tudo isso, é de crer que o condenado tivesse muitos dentes de ouro. Na manhã seguinte, feita a digestão, foi fuzilado.
O poeta Jean Moréas, belo tipo grego, sentindo a aproximação da morte, num supremo rasgo de altivez estóica, pediu que o barbeassem, para não morrer em estado de fealdade física. Sarah Bernhardt quis prevenir-se contra o mau gosto dos herdeiros, encomendando um rico ataúde por medida, muitos anos antes de o ocupar definitivamente. O caixão acompanhava-a nas suas digressões; diz-se, até, que ela o experimentou várias vezes. Tudo isto é inexplicável, observado com os olhos comuns do bom senso. Mas falta ao bom senso algumas dioptrias. Para compensar essas unidades ópticas ausentes, atribuímos a sua parte ao inexplicável.
Reny de Gourmont refere: «Um dia, um amigo quis oferecer a si próprio, diante do espelho do seu guarda roupa de estudante, o espectáculo do cavalheiro que encosta o revólver à têmpora e faz saltar os miolos. Repugnava-lhe, porém, representar o último acto e certificou-se antes de que a arma não estivesse carregada. Apertou cinco vezes o gatilho. Satisfeita a curiosidade, deitou um olhar distraído ao revólver, ao guardá-lo. Pois lá estava o sexto projéctil. Se o meu amigo morresse qual seria a causa do suicídio?»
Mas isso é outra história. Se tivéssemos de dar um lugar ao inexplicável, bestão da canasta quotidiana da vida, os juizes ver-se-iam na impossibilidade de fazer a sua tarefa, que requer cartas de valor defenido.
Havia a mulher, empregada numa fábrica de pára-quedas do Canadá como experimentadora de modelos novos e de novos aperfeiçoamentos, que antes de se lançar do avião costumava retocar os lábios com bâton. O piloto perguntou-lhe um dia se aquilo era um acto reflexo, um sintoma de justificado nervosismo.
— Não — respondeu ela. — É premeditado. Se hei-de morrer, quero estar em condições apresentáveis.
É o «eterno feminino», conservando a sua eternidade.
Muito antes de nascer a pára-quedista canadiana, o escritor Saint-Prosper disse: «Os homens, em geral, costumam lutar contra a morte; é o último emprego da sua coragem. As mulheres, pelo contrário, sabem resignar-se tão bem, que se enfeitam para morrer com mais graça.»
Lê-se no capítulo IX do «Livro dos Reis» que a rainha Jezabel, condenada pelo vitorioso rei Iehu a ser arremessada pela janela, antes da chegada dos executores ornou o rosto, particularmente os olhos, com «stibium» — isto é, antimónio, uma espécie de «rimmel» da época — e lançou-se no vácuo.
Uma dama de Pompeia, Lysis Cordula, cognominada Callixta, enquanto a lava da erupção do Vesúvio fluía em torrentes para a sua casa, enfeitava-se com as jóias mais caras, para, nesse esplendor, ir ao encontro da morte.
No último acto da «Dama das Camélias», a romântica Margarida Gauthier pede um espelho.
Vaidades de mulheres de moralidade discutível? Não sejamos severos nem injustos ou retrógrados, teimando em ver um nexo entre a modéstia do rosto e a virtude, entre a corrupção do costumes e a elegância. Aquela secretária do general De Gaulle que se vestia sempre no rigor da moda, dias antes de entrar para o Carmelo, ofereceu aos amigos um «cocktail» que foi um sucesso mundano.
Se os exemplos provassem alguma coisa, citaria Frineia, uma «glamour-girl» da Grécia antiga, que não foi um modelo de virtude. Durante um jogo, no qual cada mulher podia, por seu turno, ordenar às outras o que lhe apetecesse, Frineia pediu água e mandou as outras lavarem o rosto. Era contra a maquilhagem.
Enfeitar-se no limiar da eternidade não é manifestação de paganismo, e sim um reconhecimento da continuidade da vida e da renovação da beleza, sob outra forma. É, no fundo, a celebração dum rito que não está em contradição com o outro rito, mais sublime, pelo qual deixamos na terra todas as maquilhagens da alma. Os príncipes da Igreja são sepultados com os ornamentos da sua dignidade. Os generais enterram-se em uniforme de gala. As mulheres belas, com a sua beleza.
Uma senhora da sociedade, tão decidida a morrer que mandara imprimir e expedir aos amigos as participações da sua morte, antes de fazer o gesto supremo sentou-se ao toucador e preparou o rosto, como se tivesse de ir a um baile da corte. Mas, quando se viu tão bela no espelho que a reflectia — é falso, pois, que no espelho apareça um diabo, como se impinge às meninas que se contemplam de mais — a dama exclamou:
— É absurdo morrer!
E atirou pela janela o tubo de comprimidos.
A beleza conquistara para a vida mais uma mulher.
A beleza não é incompatível com a virtude. Em toda a iconografia religiosa, não há uma santa que não seja linda, tenha ela na mão uma harpa, sorria sob uma chuva de rosas, medite na soledade, fale às massas, leia um livro, empunhe uma espada ou se transfigure nas chamas da fogueira.
A beleza quando se une à inteligência, é a
expressão eterna da luz interior. (de:
Enfeitar-se, cap I)