OS CONTOS DE CANTUÁRIA
Por Geoffrey Chaucer
Tradução
directa do médio inglês,
Estudo
prefacial e notas
Por
OLÍVIO
CAEIRO

O Prof. OLÍVIO CAEIRO, autor da presente tradução
e respectivo aparato crítico, é Catedrático da Faculdade de Letras da
Universidade de Lisboa, onde se iniciou em 1962 como assistente de Literatura
Inglesa e Alemã.
Da sua anterior docência
da Literatura Inglesa nasceu este projecto, agora concretizado, de introduzir um
grande poeta da Inglaterra medieval no convívio do leitor português.
Esta apresentação de Geoffrey Chaucer, o grande poeta da Inglaterra
medieval, junto do público leitor português, visa, antes de mais, preencher
uma lacuna do nosso panorama editorial, proporcionando a larga camada de
apreciadores da boa literatura, com rigor de texto e instrumentos auxiliares de
apreciação, o conhecimento de uma
das suas figuras cimeiras, e
justamente através da obra que o imortalizou — Os
Contos de Cantuária. Não se esqueceu, todavia, que também no âmbito do
ensino universitário Chaucer carece de melhor divulgação. A exiguidade dos
tempos lectivos, a natural preferência das camadas jovens pela problemática
literária contemporânea e as dificuldades de acesso aos textos originais —
mesmo para os estudantes de anglística, sobrecarregados com um leque de
matérias onde não sobra espaço para uma conscienciosa preparação
linguística — são razões por que se está infelizmente omitindo dos
programas a riquíssima herança medieval, criando assim hiatos no apreço da
linha cultural dum país, que só em casos excepcionais serão eliminados pela
curiosidade espontânea do aluno.
A ambos tive em mente — o leitor comum e o estudante — ao elaborar o
presente volume. Simplesmente, harmonizar os interesses mais superficiais e a
menor preparação básica daquele, com a especialização e a maior exigência
científica deste, não me foi empresa fácil.
Quanto a estes, era por demais evidente a inclusão
do Prólogo Geral da obra, cuja importância
tentarei adiante demonstrar. Dos 24 contos que o autor chegou a completar, não
tive grande hesitação em escolher estes dois: O
Conto do Cavaleiro e O Conto da mulher
de Bath com o respectivo Prólogo.
Quer pelo contraste entre si, quer pelo mérito literário relativamente aos
outros contos, quer pelo paradigma que constituem da dupla tonalidade de Chaucer
— a grave distinção cavalheiresca e o cómico licencioso dos fabliaux —, são composições bem representativas, tanto da
mentalidade de uma época como do génio poético do autor.
As notas que acrescentei a cada um dos textos pretendem facilitar a sua
compreensão, nomeadamente no que respeita às numerosas alusões históricas e
mitológicas e aos costumes da época. Se por vezes aí desci até à
elementaridade, foi atendendo, naturalmente, à variada gama de leitores a que o
volume se dirige.
Assim, com todo o esforço e dificuldades que a opção me impunha, não
hesitei em decidir-me pela tradução em verso, executada directamente sobre o
original em médio inglês. Ora sucede que este se apresenta, em qualquer dos
textos seleccionados, sob a forma de verso decassílabo de rima emparelhada.
Mantive, de facto, a medida decassilábica, mas, pesados os prós e os contras,
decidi eliminar a rima, cuja exigência me afastaria inevitavelmente da imagética
do autor, quando não do próprio sentido e intenções da sua linguagem.
No que concerne ao ritmo, adoptei a acentuação do verso decassílabo,
nas suas variantes normais, e só muito raramente fiz algum ligeiro desvio
daquela medida; quando o fiz, porém, a acentuação rítmica acompanhou a
variante métrica. Na grafia vão expressas algumas das elisões menos evidentes
exigidas pelo ritmo; as restantes, é de esperar que o ouvido do leitor
instintivamente as apreenda.
Com todos os seus defeitos (que os terá) e com todos os critérios
discutíveis (do que não duvido), se este volume em alguma medida contribuir
para enriquecer o leitor português com a intimidade dum dos mais notáveis
poetas da Europa medieval, desde já dou por bem empregadas as horas que nele
dispendi.