Este trabalho foi publicado pela primeira vez em 1957, como um manifesto recomendando a criação da Associação Mundial de Luta Contra a Fome.
Tratava-se de um documento de cerca de trinta páginas apenas, no qual procurámos com rigorosa objectividade apresentar a situação alimentar do mundo, com suas graves implicações políticas e sociais, e recomendar a necessidade urgente de que fosse coordenado um movimento de sentido internacional capaz de combater com eficácia os factores que determinaram a existência da fome universal como a mais típica e a mais trágica manifestação do subdesenvolvimento económico. O objectivo principal deste nosso ensaio fora o de demonstrar que fome e desenvolvimento são uma coisa só, não havendo outro caminho para lutar contra a fome, senão o da emancipação económica e da elevação dos níveis de produtividade das massas de famintos que constituem cerca de dois terços da população mundial.
Criada a ASCOFAM, graças ao apoio decidido e à fecunda cooperação de um grupo de grandes personalidades de renome internacional, interessadas pela sorte da humanidade, entre as quais tenho o grato dever de destacar os nomes do Padre Joseph Lebret, do Abbé Pierre, de Albert Schweitzer, de Raymond Schevein, de Louis Maire, de Kuo-Mo-Jó, de Paul Martin, de Lord Boyd Orr, de Tibor Mende, de René Dumont, de Max Habitch foi este documento divulgado em várias línguas através do mundo inteiro.
O interesse que despertou a sua publicação em certos círculos culturais, captando novos adeptos para a nossa cruzada de luta contra a fome e ajudando o despertar de uma consciência colectiva mais clara acerca da significação exacta do fenómeno social da fome, conduziu-nos à resolução de ampliar o nosso documento inicial, apenas divulgado por intermédio da ASCOFAM e de revistas e jornais que generosamente acolheram as nossas ideias, transformando-o num livro e pondo-o desta forma ao alcance de um maior círculo de leitores. Esta ampliação impunha-se, tanto mais que, nestes últimos três anos que se seguiram à publicação do nosso documento de base, houve uma completa mudança de atitude, por parte dos governos e das elites dirigentes, em face deste grave problema.
A aspiração colectiva de libertação da fome e da miséria dos chamados povos subdesenvolvidos ganhou tal impulso como uma ideia-força que alcançou o seu alvo: galvanizou a opinião pública do mundo inteiro. E este mundo que se fazia surdo às reivindicações das massas famintas apressa-se hoje a reconhecer a realidade social de um fenómeno até então negado ou escamoteado tanto quanto possível pelos formuladores oficiais do pensamento, das doutrinas e das directrizes de acção das elites dirigentes. Esvaziou-se nestes últimos anos o tabu da fome. O assunto deixou de ser escabroso e proibido, passando a fazer parte do reportório ortodoxo do mundo civilizado. É esta uma das maiores conquistas do proletariado universal; a revelação da sua autêntica realidade social. Conquista não só das classes proletárias, mas principalmente dos países proletários, dos países que eram tamponados pela conspiração do silêncio moral acerca da sua verdadeira realidade social. Daí a veracidade da afirmação de que a fome foi a grande descoberta dos meados do século XX. Descoberta que dá uma nova perspectiva ao destino da humanidade. Que recobre de um colorido novo, de tons surpreendentes, a carta geográfica do mundo.
A verdade é que, apesar de todas as frases feitas de que o mundo está ficando pequeno e de que o homem já conseguira através do conhecimento dominar a terra m toda a sua extensão, tínhamos chegado aos meados do século XX com muita coisa do nosso planeta ainda desconhecida ou quase desconhecida. Havia ainda muita terra «incógnita» neste nosso pequeno planeta palmilhado pelo homem há cerca de um milhão de anos.
Durante centenas de milhares de anos o homem mantivera-se na defensiva, escondendo-se amedrontado nas anfractuosidades da terra. Era um pobre animal desarmado, acossado por feras temerosas.
Só muito recentemente se pôde impor na luta pela vida e sair pelos caminhos do mundo em busca de aventuras e riquezas.
O primeiro conhecimento real da terra como um todo fez-se há pouco mais de dois mil anos. Foi no século IV antes da nossa era que a aventura de Alexandre, procurando conquistar a Ásia, propiciou o contacto de três grandes civilizações que viviam até então isoladas, ignorando-se mutuamente: a civilização grega, a hindu e a chinesa. Neste momento sublime da história, como o classificou René Grousset, estes três humanismos entraram em contacto e aperceberam-se, surpresos, das suas mútuas existências.
Foi este na verdade o momento da primeira descoberta do mundo civilizado: quando, conduzidos por Alexandre, o Grande, os gregos penetraram no mundo cultural da Índia e quando, a seguir, os missionários indianos levaram até à China as esculturas greco-búdicas, ou sejam as imagens de Buda em expressões de arte grega, revelando o budismo e o helenismo a este povo do Extremo Oriente e sofrendo por sua vez o impacto da revelação da civilização chinesa.
Decorreram vários séculos para que Marco Polo viesse a redescobrir o Oriente no século XIII e para que os portugueses e os espanhóis completassem o quadro geral do mundo com as grandes descobertas da época da Renascença.
De 1500 para cá, conhecidos os grandes contornos do nosso mundo, foram sendo preenchidos os claros, os espaços em branco dos portulanos, das antigas cartas medievais. O mundo tomava forma, ganhava relevo, identificava-se aos olhos dos homens. É como se toda a terra passasse a ser um fundo de quintal, esquadrinhado em todos os seus meandros em toda a infinita variedade das suas paisagens naturais e humanas.
Mas isto não passava de uma ilusão. Estávamos bem longe de conhecer a realidade substancial do mundo. Tínhamos apenas uma imagem das suas aparências mais gritantes, mais coloridas. Uma imagem que sendo por demais superficial era até certo ponto falsa. Por isso mais uma vez o mundo está hoje sendo redescoberto pelos homens. Redescoberta que em meados do século XX se caracteriza por uma investigação mais profunda de certos traços e detalhes que não eram levados em conta na elaboração dos grandes quadros coloridos das civilizações e das culturas. A verdade é que a ciência geográfica e outras dela oriundas, como a antropologia, a sociologia, e a economia, quase só se preocupavam em mostrar as grandezas da terra e do homem, em glorificar a criação e a epopeia do trabalho humano retocando e dando brilho à paisagem natural. O retrato que se levantara era um retrato todo ele em relevos positivos e em cores claras e brilhantes: um retrato ideal, bem diferente do modelo real da verdadeira fisionomia da terra, com as suas grandezas e as suas misérias. Só recentemente a ciência tomou coragem e resolveu pintar o mundo em cores realistas e não mais com o colorido dos pastéis cor-de-rosa da época do esplendor do colonialismo. E surgiu então uma geografia e uma economia que já não temem desagradar e que mostram as coisas como elas são. Que não faz da terra um paraíso, um país de cocagne, nem do homem um deus olimpicamente plantado no seio do paraíso terrestre que ele ajudara a criar e a embelezar. Passou a época da geografia, espelho mágico do mundo e roteiro das viagens maravilhosas dos grandes conquistadores. E chegamos à época da geografia científica, preocupada em analisar minuciosamente o mecanismo das relações entre o homem e o meio. Não apenas registando o que fez o homem modelando a paisagem cultural do mundo como um verdadeiro agente geográfico, mas tratando, também, daquilo que o homem não fez, não soube ou não quis fazer. Tratando das possibilidades geográficas que o homem aproveitou, mas também daquelas que ele não aproveitou ou malbaratou.
A geografia de hoje não é apenas uma ciência de monumentos e grandezas do homem, mas também dos seus fracassos e das suas misérias. Os quadros que ela apresenta do mundo actual evidenciam tanto os grandes relevos como as grades depressões. Tanto os traços luminosos como os traços tragicamente negros com que se configura na verdade a fisionomia da terra, com os seus formigueiros humanos.
Um dos traços mais negros da fisionomia autêntica
do mundo, que entretanto era sistematicamente escamoteado e dissimulado pelos
grupos dominantes, é a existência das grandes manchas demográficas das populações
famintas que impregnam enormes extensões da carta geográfica do mundo. É a
fome — a fome crónica e endémica em escala universal — o traço mais típico
da miséria reinante no nosso mundo. A sua revelação constitui sem duvida a
grande descoberta — trágica e promissora descoberta — da ciência e da
cultura do século XX. ...,... (de: Prefácio)