O FARMACÊUTICO A CAVALO

 

 

Jovem senhora, você um dia sentou-se diante de mim, no eléctrico, desatou o cordel dum embrulho e três livros apertados na cinta colorida («vient de paraître», «nouveauté», «prix goncourt») espalharam-se sobre o seu casaco de castor. Você enrolou em cilindro um dos volumes, para não rasgar a cinta; tirou-o dela e com a espátula de oliveira, oferta do livreiro, abriu as páginas finais.

Depois, tornou a enrolar o livro, enfiou-o na cinta, passou ao segundo e com a cruel faquinha repetiu a operação. Do terceiro, leu o princípio, algumas páginas do meio, correu ao fim, voltou atrás e releu o epílogo. A julgar pelo seu belo rosto inteligente, você compreendeu, em largos traços, rapidamente, todo o enredo do romance.

Você, querida jovem, poupar-me-ia a essa série de actos inocentes de vandalismo, se soubesse com que prodígio de habilidade o escritor prepara à sua leitora, através de complicações psicológicas, interferências de episódios, entrelaçamentos de peripécias, a surpresa do último período — isto é, a quantas vilezas se sujeita, para que você, muito mais sabida do que ele, não consiga adivinhar o desenlace. E eis que, jovem senhora, com a sua inconsciência distraída, neutraliza-lhe os efeitos, como se revelasse o truque do ilusionista, ainda antes de saber em que consiste a experiência.

De futuro, ver-nos-emos forçados a bloquear, não digo todos os capítulos, mas pelo menos as últimas páginas, com um selo. E o livreiro, única pessoa autorizada a retirá-lo, terá o cuidado de se certificar com um interrogatório cortês, de que a leitora chegou normalmente pelo menos até meio do livro. Será como a trava que os fabricantes de automóveis aplicavam ao acelerador dos carros «en rodage», a fim de impedir que o automobilista excedesse, nos primeiros quilómetros, a velocidade consentida.

Aguardando o fio com o selo de chumbo, dedico-lhe este «Farmacêutico a Cavalo», a si, desconhecida impaciente. Para lhe impedir que adivinhe o sentido da história, os capítulos estão encadeados a esmo; e, para lhe poupar o incómodo de procurar o desfecho, com a espátula de oliveira, começo sem mais pelo

 

CAPÍTULO IV

 

Ao soarem os dois toques de clarim, o comandante dos bombeiros apresentou ao chefe da municipalidade um cordão rematado por uma borla dourada. O pano deslizou farmacêutico abaixo, enredou-se na cauda do cavalo, drapejou no pedestal de granito, em meio duma tempestade de aplausos. A bisneta do farmacêutico deixou-se cair numa cadeira, desfalecendo de emoção; mas o marido, que tudo previra, chegou-lhe ao nariz a rolha de vidro do seu éter sacudindo-lhe o ar com o programa dos festejos. O regente da banda, cada vez mais gordo na sua sobrecasaca cada vez mais apertada, deu o sinal; e a dama desfalecida descaiu ao fragor heróico de timbales, pratos, tambores e trombones.

Os órfãos e enjeitados, em rigorosa formatura no lado leste da praça, começaram a desfilar trajados de marinheiro, arremessando flores ao monumento, e foram formar do lado oposto. Os do colégio e os menores do instituto correccional, formados do lado oeste, desfilaram de calças brancas e sapatos pretos, atirando ramos de loureiro, e enfileiraram-se no lado leste. A população aplaudiu essa bela evolução coreográfica. Na tribuna engrinaldada de rosas de papel, que formavam um elegante «viva!», fremia todo o jornalismo dos arredores, convocado por Baltasar Tarocchi, o conhecido escritor, encarregado da secção de imprensa da comissão pró-monumento a Tito Tamberlani. As autoridades civis, militares e judiciais formavam a ala direita da tribuna. Do conselho municipal, de que estavam presentes todos os membros, emergia numa cadeira de rodas, o pé do vereador da educação e cultura, enrolado em ligaduras, como uma múmia. Restabelecido o silêncio, um sarrafo da tribuna despregou-se, estalando sob os cento e dez quilos do arqueólogo Barberius que, na aflição, se agarrou à coxa do vizinho da esquerda, ao mesmo tempo que se encostava ao ombro do vizinho da direita. O agrimensor, que chefiara a obra de construção do palanque, ficou amarelo, como empalidece o engenheiro naval, aos rangidos do navio que num infeliz bota-fora desce do estaleiro a mergulhar nas ondas. Tarocchi, o jornalista, restabeleceu a calma com um gesto tranquilizador; e o prefeito, descalçando penosamente as luvas suadas, começou:

— Senhores, não é sem viva emoção que, em presença de tantos luminares da ciência e da cultura que honram a cidade de Valcilindra... ...,...

Regresso à página inicial

Para voltar ao preçário

Hosted by www.Geocities.ws

1