O DESLIZE DO MORALISTA

 

 

               O director da penitenciária dirige uma saudação às Ex.mas autoridades civis e religiosas, agradece ao exímio artista em nome dos presidiários e, cedendo a palavra ao piano, volta para o seu lugar.

                Mas o piano está fechado. Onde estará a chave? Não se encontra em parte nenhuma.

                O director olha para o secretário e este para o administrador, que apalpa os bolsos. Provavelmente foi o afinador que levou a chave, sem querer. O director levanta-se e aproxima-se do piano, como se, perante tanta autoridade, o instrumento se abrisse por si. A tampa, porém, permanece fechada. O director experimenta as suas chaves e as de todos os porta-chaves que as pessoas presentes lhe passam. Eu mesmo lhe entrego o meu molho de chaves e o mesmo fazem o procurador do rei, o perfeito, as «patronnesses». Mas ou as chaves são demasiado finas ou largas em excesso, ora não servem por serem machos ou por serem fêmeas. E o director ordena:

— Vão buscar o afinador.

Nesse momento, um dos presidiários levanta-se e pergunta:

— Posso tentar?

O director e o chefe da guarda consultam-se; o presidiário propõe:

— Apenas preciso de um prego e um martelo.

Trazem-lhe o que ele pede. O presidiário torce a ponta do prego com duas marteladas, e com ele trabalha a fechadura e abre o piano. Depois, modestamente, regressa ao seu lugar, para gozar o bem merecido concerto.

 

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Este episódio — o mais estranho na vida do notário Pascoal Saturno — era familiar aos seus clientes. Sempre que, a propósito dum testamento, duma escritura de compra ou venda ou da constituição duma sociedade, alguém lhe perguntava respeitosamente se não seria mais prático e económico fazer as coisas doutro modo, Saturno largava a pena, afastava a poltrona, cruzava as pernas e, fazendo girar a corrente que lhe luzia no abdómen, relembrava os factos, como se fosse a primeira vez que contava a história:

— Vou contar-lhe o que me aconteceu, quando eu fazia parte da Comissão de Gestão da penitenciária de Monfrastaglia. De acordo com o director e o procurador do rei, e segundo o parecer do Ministério da Justiça, do bispo e do prefeito, resolvemos aceitar a proposta dum grande pianista e demos um concerto na cadeia, para elevar o moral dos presidiários.

Depois do episódio do prego, o notário concluía invariavelmente:

— «Fabula docet» — a fábula ensina — que cada um deve exercer a sua profissão. O senhor tem a sua; eu sou notário.

E era bom notário. «Errores notariorum sunt cappones advocatorum» — como quem diz: se todos os meus colegas agissem com o meu cuidado, os advogados poucos capões teriam para mastigar — costumava dizer Saturno.

E recomendava: «Cada coisa em seu lugar e um lugar para cada coisa.» Na opinião do notário, há tempo para a gente rir e tempo para se ser sério.

Vivia ele na colina, num solar antigo, com as esposa e duas filhas, a mais velha de dezoito e a outra de dezasseis anos, que aparentemente se riam todos os dias.

«Antigamente toda a imundície da praia era levada pelo mar» — sentenciava ele —; «actualmente, porém, as leis físicas estão invertidas e as imundícies cercam-nos por todos os lados. Uma pessoa respeitável já não sabe que rumo há-de tomar nem para que direcção deve olhar. Só se encontram desavergonhadas dos cinco continentes, que marcaram encontro aqui para nos trazer o escândalo.»

A cidade de Oppidella — a antiga Oppidum Ellenicum dos romanos — está situada no golfo Opidelico, muito perto do promontório. Um aeroporto de escala das linhas orientais converteu-a em centro internacional; um hoteleiro suíço transformou-a em estação climática; e uma grande artista — vinda da América para emoldurar condignamente os seus amores com um músico célebre — tornou-a famosa nos ambientes mundanos. Literatos e pintores construíram vivendas no pinheiral, organizaram torneios internacionais de bridge; os terrenos subiram todas as escalas das liras; Um furto de jóias, um uxoricídio,  um rei exilado e os cartazes nas estações ferroviárias («O verão de Oppidella passa o inverno em Oppidella») concorreram para que a cidade se tornasse a Juan-les-Pins do Sul. A avenida à beira-mar, com as suas trinta mil lâmpadas, arrancava aos turistas a exclamação:

— Parece Nice!

E o nome: Oppidella é tão fresco, alegre e juvenil, que parece ter sido inventado de propósito para prever, ou melhor, impor a uma cidade um grande futuro. Às cabanas de pescadores e oficinas abandonadas, aos estaleiros demolidos sucederam, entre palmeiras, hotéis de luxo, jardins suspensos, vivendas de toldos coloridas, montras de agências de viagem, de joalheiros, alfaiates, camiseiros, livreiros e perfumistas. Os mais belos automóveis do mundo deslizavam entre a música dos cafés e o canto do mar. A cidade adormecida, onde nunca antes viajante algum quisera pernoitar foi tomada da febre da velocidade: «o inglês em três meses»; «a dança em três dias»; «o Cairo em cinco horas»; «a lotaria torná-lo-á milionário num segundo». E, por causa da velocidade, os elegantes passaram a abreviar Oppidella para Opi. No salão do Hotel Opi realizou-se, certo inverno, um festival de cinema, repetido, no verão, nos jardins do hotel. Dazanove nações, centenas de representantes, jornalistas, cineastas, invadiram os hotéis; automóveis floridos, grupos de «girls» vindas de avião da Califórnia, todas as celebridades de que não cito os nomes para não acabar este romance numa espécie de lista telefónica, fogos de artifício, pára-quedistas lançados ao mar, três mil visitantes obrigados a dormir no parque, na praia, nos automóveis ou a procurar, a cem quilómetros, um hotel, concursos de elegância, desfile de modelos, a roleta, ardinas apregoando, entre as cadeiras da avenida à beira-mar, o «Times», o «Paris-Soir», a «Gazeta Turca», a «Bolsa Egípcia», recém-saídos da tipografia.

Opi.

Como Argel ou Oran, como todas as cidades islâmicas onde o bairro árabe não tem nada a ver com o europeu, Oppidella, a velha, tradicional, conservadora Oppidella, não quis ter nada de comum com a cosmopolita Opi.

 

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O notário Pascoal Saturno era o mais radical representante da Oppidella antiga, dessa cidade sadia que se ia retraindo, desdenhosa, susceptível e casta, dessa incontaminada Oppidella, onde as filhas-família ainda tomavam banho em camisa, na banheira de zinco, na cozinha. ...,...

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