O CINTO DE CASTIDADE

 

 

               — És um amante demasiado vertiginoso. Não podes dar bom marido — segredara-lhe uma amiguinha num dia de infinito langor.

                E o dr. Cirmeni, médico-cirurgião, não se casou.

 

 

 

                — Achas que ainda poderei agradar às mulheres? — perguntou muito tempo depois o dr. Cirmeni, médico-cirurgião, a um amigo — achas que ainda poderei agradar às mulheres?

      Quanto fazes por ano? — indagara o amigo.

      Uns seis milhões de liras,

      Sim. Podes agradar.

  Faria bem casando-me com a viúva Heiman-Bouchard? — perguntou um dia, depois dos quarenta, o dr. Cirmeni.

      Não, não farias bem — desaconselhou o amigo.

Mas o dr. Cirmeni casou com ela.

 

 

 

                Os que se casam com uma viúva acompanham o gesto com uma espectacular exibição de inteligente modernidade de ideias.

                Dizem:

                — Os costumes estão de tal modo corruptos, que casando com uma virgem fica-se exposto, nove em cada dez vezes, a uma decepção. A mulher que foi agitada pelo desejo e não o pode satisfazer senão com os sucedâneos do amor, ao entrar na vida conjugal torna-se necessariamente uma adúltera. A viúva pelo contrário, já passou pelos bruscos movimentos durante o primeiro período matrimonial, como a madeira seca que rachou, retorceu, inchou sob as intempéries, e depois de trabalhada nunca mais se altera.

                Quem quiser uma boa mulher — aconselham esses tais — deve casar com uma viúva. O facto de ter pertencido a outro homem não tem importância. O amor que a mulher nos dá é independente do que deu a outro, quando nós nem tínhamos aparecido no seu horizonte. O florescimento de uma árvore delicia-nos mesmo se um ano antes, muitos anos antes, a mesma florescência deliciou outros.

                Dizem isso antes de se casarem com uma viúva.

                Mas, depois de casados, sentem-se como que envenenados por uma espécie de pudor. Sentem-se como que os voluntários do chifre, enfeitados legais, minotauros consagrados, em suma: enganados oficiais. E envergonham-se disso como de um pecado. Não podendo esconder o seu estado disfarçam-no habilmente com a fantasia.

                 — Casei com uma viúva, mas uma viúva especial. Quando casou comigo, ainda era virgem.

                (Todos os meus conhecidos que se casaram com viúvas, encontraram-nas virgens.)

                 — O primeiro marido, — explicam — quando descia as escadas do tribunal, tropeçou e partiu a espinha dorsal.

                Esta é a versão mais simples. Outros dizem:

                — Era virgem porque, logo que chegaram a casa após a cerimónia nupcial, tiveram de separar-se por incompatibilidade de génios. Ele era um alcoólico brutal. Ela, alma delicadíssima, recusou-se-lhe e fugiu.

                Também esta é uma versão de uso corrente. Mas há outras, cuja complexidade varia segundo o nível da imaginação do segundo marido: histórias de partidas inesperadas, de mandados de captura, ossos de frango que durante o banquete de núpcias entupiram o esófago do esposo; incêndios que irromperam no hotel no momento da cópula inaugural.

                A história mais usual, que me foi contada por nove pessoas diversas, é a da impotência do primeiro marido. Um amigo meu, que casou com o dinheiro de uma viúva, jurava-me que o primeiro marido, fraco de constituição, deixara-a literalmente intacta.

                Soube mais tarde que daquele primeiro marido impotente a viúva intacta tivera três filhos que agora gozam de excelente saúde, são os primeiros da classe e batem nos companheiros.

 

 

                Casando-se com a viúva, o dr. Cirmeni não a engrinaldou aos olhos dos amigos com flores de laranjeira artificiais.

                Não escondeu a ninguém que a mulher era mãe de uma graciosíssima menina, e que durante o interregno de viúva tivera amiguinhos para uso interno.

                O dr. Cirmeni era feio, mas tinha dinheiro.

                Quando um homem se apresenta a uma mulher para fins matrimoniais, se este é financeiramente um bom partido, ela não lhe vê os defeitos físicos, ainda que seja feio ou disforme.

                Vê-lo-á feio e disforme somente se o homem a não quiser.

                Cirmeni era feio mas inteligente. Era magro, pálido, descarnado como a etiqueta farmacêutica dos venenos; tinha olhos pequenos como os dos homens míopes e os das galinhas cozidas; e tinha um consultório de ortopedia e uma amante.

                A amante era a «femme-crampon».

Quando jovem era modista; depois, «chanteuse»; e chegara a ser uma grande «cocotte». Para se chegar a ser uma grande «cocotte», é preciso começar fazendo de modista e de «chanteuse». Estes estágios preparam para a garridice como o jornalismo prepara para a política. Depois de ter feito de «cocotte» viajante em todas as linhas internacionais da aviação ou do caminho de ferro e de ter pernoitado em todos os hotéis das mais elegantes praias e das mais espermáticas metrópoles, retirou-se dos negócios, para se dedicar exclusivamente aos cuidados íntimos do dr. Cirmeni. Fez como aqueles que, depois de terem, durante anos e anos, exercido a tumultuosa profissão de advogado, fecham o escritório e ingressam numa empresa particular, ocupando-se fielmente com os negócios mais ou menos limpos de um só cliente. O dr. Cirmeni, porém, não lhe dava excessivas ocupações. A sua escassa virilidade, visto que tinha de ser equitativamente repartida entre a mulher e a amante, reclamava aplicação prudente e cautelosa. Noutros tempos, quando os seus cabelos ainda não tinham necessidade de tinta e os seus nervos não exigiam regime equilibrado, o dr. Cirmeni era célebre na cidade pela sua vasta clientela feminina: diariamente vinham ao seu consultório as mais belas e extravagantes iniciadas nos paraísos artificiais da morfina ou do éter, pedindo-lhe uma receita para o doce veneno. E em troca do precioso documento, davam-lhe tudo. O dar «tudo» reduz-se afinal a dar uma coisinha só.

                E se o dr. Cirmeni envelheceu precocemente, devia em grande parte agradecê-lo à sua demasiado reconhecida clientela feminina. ...,... (de: Capítulo I)

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