LIÇÕES
DE AMOR
Com um empurrão do focinho o «sealyham» abriu a porta e saltou para a cama. Tinha no pêlo a humidade e o azul da manhã.
Purificação, uma criadinha loura, com saltos LuísXV, uma criada de calendário «frigidaire», largou o ajoujo de verniz amarelo e estendeu ao Dr. Nam, que ainda estava na cama, os jornais. Alinhou alguns ganchos, enrolou uma fita, fechou um livro. O barulho do jacto de água no quarto vizinho atenuou-se.
— Purificação?
— Já vou, minha senhora.
Um grande título encimava uma pequena notícia. «Banco parisiense fecha as portas». Nam susteve a respiração como o jogador que quando a bola é lançada estica a alma e o pescoço para lhe modificar a parábola. «O Banco Kruges e Wolff, Boulevard Saint-Germain, requereu falência ao tribunal.»
O criado entrou com a bandeja.
— O café, senhor. Posso abrir?
— Mais tarde.
— Quer que apague?
— Não é preciso.
— O sol está esplêndido.
— Acredito.
O criado começou a recitar, como se cada frase fosse escrita em itálico:
— Preferir a luz eléctrica à do dia é sintoma precoce de neurastenia. O meu professor dizia...
Os criados levam para o novo patrão o que aprenderam na última casa onde estiveram. Se o patrão era um filósofo, falam do eu; se era um tenor, escancaram as janelas e cantam aos céus pardacentos.
— Está bem, Sicómoro, mas desconfie dos patrões que ensinam muitas coisas. Fecham as bebidas à chave. Tem um lápis?
Fez um risco no jornal e deu-lho, apontando com o lápis a porta do quarto de banho. O criado bateu, entregou o jornal à Purificação e saiu.
Nam olhou em redor. Restava-lhe a mala de crocodilo que lhe havia sido dada por um companheiro de viagem em troca de quatro lições de «bridge», um sobretudo com forro de pele de urso, presente de um milionário sueco cujo nome já não lembrava. E como é que alguém se pode lembrar do nome de um milionário sueco, se na Suécia existem sessenta e dois mil milionários?
De uma gaveta aberta da mala-guarda-roupa, saía uma charpa. As etiquetas dos hotéis contavam a história da mala e a do dono.
Nos últimos anos viajava sempre com uma planta de Paris, fixando-a na parede do quarto de hotel. Os outros, quando chegam a um quarto de hotel, dão-lhe uma nota de intimidade com um xale atravessado na cama. Nam, nas poucas vezes que tivera uma casa, quis que o quarto de dormir lembrasse um hotel. A mala estava sempre pronta, como se os carregadores já estivessem a subir as escadas. Aquele espalhar pelo quarto coisas tão pessoais — roupas e livros — é assim como que um «lembra-te de que morrerás», repetido todas as noites. Tudo o que possuis é isto. Os outros bens terrenos? Bastam dias linhas para pulverizá-los. «Um banco parisiense encerra as portas.»
Estava naquela idade em que a camiseira aconselha uma gravata castanha, e o cabeleireiro alude a umas águas incolores, que não são propriamente tintas, mas conservam os cabelos na sua totalidade natural. Naquela idade em que, ao lermos junto a nomes ilustres duas datas (Verlaine, 1844-1896), instintivamente fazemos um cálculo, e lendo que Rimbaud, Tibullo, Vauvernagues morreram aos 37, 33 e 32 anos, nos sentimos fora de perigo, esquecidos de que «basta uma gota de água para nos matar», como disse Pascal, morto aos 39. O homem é como o Lucanus Cervus: a sua larva emprega quatro anos para se tornar insecto perfeito, mas quando chega a insecto perfeito só lhe restam algumas semanas para viver.
Abriu a caixa de Matossian com as suas iniciais impressas com tinta parda em cada cigarro. Entre Argélia e Blidah, com uma acção decidida salvara o Sr. Matossian, que, em sinal de gratidão, comprometera-se a fornecer-lhe durante toda a vida os cigarros com as suas iniciais H. N., Hector nam.
Flammèche apareceu metida no roupão, os cabelos vermelhos puxados para cima, atrás da nuca, atados com uma fita amarrada na fronte. Fixou em Hector os seus olhos claros, da cor indefinida da água onde se lavaram os pincéis. Pousou o jornal na cadeira e não desviou o olhar do rosto dele, em silêncio.
O criado trouxe o fato e os sapatos.
— Que é que quer dizer — perguntou o criado — «um banco fecha as portas»?
— É muito simples — respondeu Hector Nam — Pegue na minha carteira: deve estar em cima da mesinha. Obrigado. Preste atenção. Esta nota de quinhentos francos é o seu ordenado de criado-filósofo, que lhe deveria pagar amanhã. Olhe. Estes quinhentos francos, você dá-mos para guardar — e enfiou a nota na carteira, mantendo-a aberta. — São seus: pode pedir-mos quando quiser porque os depositou em conta corrente. Um dia eu fecho as portas — e fechou a carteira — você não os vê mais. Entendeu?
— Entendi.
— No entanto — continuou Nam — como eu não apresento falência ao tribunal, aqui estão os seus quinhentos francos, com os meus votos para que encontre depressa outro patrão que pague com quantias alucinantes as suas lições de filosofia.
O criado pegou a nota.
— Patrão, o senhor bem sabe que não sou agarrado ao dinheiro. Um camarada havia arranjado um cinto e encheu-o de ouro. Um dia...
— É um apólogo? Ouçamos.
— Um dia, o veleiro em que viajava naufragou, e todos se salvaram, menos...
— Menos o comandante, de acordo com a nobre tradição da marinha.
— Não, senhor. Menos o homem do cinto, porque o peso do ouro levou-o para o fundo.
Hector Nam tirou as pernas para fora da cama e procurou os chinelos. Disse:
— Deve ser uma história inventada pelo Banco Krugger e Wolff para incentivar os depósitos em conta corrente. ...,... (de: Capítulo I)