KARMA YOGA

(Educação da vontade)

Por Swami Vivekananda

 

            A palavra Karma deriva do sânscrito kri, fazer; toda a acção é karma. Tecnicamente, esta palavra quer dizer: o efeito das acções. Metafisicamente é usada com o seguinte significado: é o efeito provocado pelas nossas acções interiores. Porém em Karma-Yoga só tratamos da palavra karma como equivalente de acção. A meta da humanidade é o conhecimento; este é o ideal principal da filosofia oriental.

            O propósito do homem não é gozar, e sim conhecer. A felicidade tem o seu fim. É um erro supor que o prazer é a meta. O motivo das misérias do mundo está em o homem pensar ingenuamente que o prazer é a felicidade que deve buscar. Depois de algum tempo, ele descobre não ser à felicidade, porém ao conhecimento, que se dirige; compreende que tanto o prazer como a dor são seus mestres e que tanto aprende através do bem como do mal. O desfilar do prazer e da dor ante a sua alma vinca-lhe diferentes traços, e estas impressões combinadas formam o seu «carácter». Se considerardes o carácter de um homem, notareis que ele não é mais do que um agregado das suas tendências, a soma das inclinações da sua mente; achareis que a desgraça e a felicidade são factores equivalentes na formação do seu carácter. O bem e o mal actuam de forma semelhante na formação do carácter...

            Em certas ocasiões a desgraça é melhor mestra do que a felicidade. Se estudássemos os grandes carácteres, chegaríamos a crer que na maioria dos casos a desgraça lhes ensinou mais do que a felicidade; que a pobreza lhes ensinou mais do que a riqueza, e que foram os revezes mais do que os elogios o que lhes despertou o fogo interior.
            Sabemos, porém, que, este conhecimento é inato; nada nos vem do exterior; tudo está no interior. Quando dizemos que um homem «conhece», deveríamos dizer que ele «desconhece»; o que um homem «aprende» é na realidade apenas aquilo que ele descobre ao tirar as envolturas da sua alma, que é um depósito inesgotável de conhecimentos.
            Dizemos que Newton descobriu a gravitação. Estaria ela, por acaso, oculta em algum lugar à sua espera? Não! Estava na sua própria mente; chegou o momento determinado e ela descobriu-se. 0 conhecimento, que o mundo possui como um tesouro, provém da mente; a grandiosa biblioteca do universo está oculta na vossa própria mente. A queda de uma maçã chamou a atenção de Newton, e então ele estudou a sua própria mente; pôs em ordem os seus pensamentos e descobriu um novo, ao qual denominou «lei de gravitação». Isto não
estava na maçã nem em lugar nenhum. Portanto, todo o conhecimento mental ou espiritual está na mente. Em muitos casos permanece oculto até que a sua cobertura se vai retirando pouco a pouco e então dizemos que «estamos a aprender».
            0 progresso no conhecimento é o resultado do processo de descobrir. 0 homem em que se vai levantando este véu, é o que mais conhece; naquele em que o véu se mantém caído, é ignorante; e quem conseguiu erguê-lo de todo, chegou à omnisciência. Sempre existiram homens omniscientes e espero que há-de haver milhares deles nos séculos futuros.
            0 conhecimento está na mente como o fogo está na pedra. É a fricção que o faz brotar. 0 mesmo acontece com os nossos sentimentos e acções: sorrisos e lágrimas, alegrias e tristezas, gargalhadas e gemidos, maldições e bênçãos, elogios ou censuras. Se nos estudássemos com imparcialidade, veríamos que cada um deles surgiu do nosso interior, por um impulso provocado por golpes exteriores. 0 resultado é aquilo que somos. A reunião de todos estes golpes é o que chamamos karma, ou acção. Cada impulso mental ou físico dado à alma através do qual é provocada a chispa, e que se apresenta como poder e conhecimento, é karma; usando a palavra no seu sentido mais amplo, estamos sempre acumulando karma. Quando falo, é karma; os que me escutam, é karma; respiramos, karma; andamos, karma. Tudo quanto fazemos física ou mentalmente e deixa as suas marcas em cada um de nós, é karma.

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