E
A HISTÓRIA DO
MOVIMENTO
DA «PRESENÇA»
Aproveitando a data que este ano se celebra — o aparecimento em
Coimbra, a 10 de Março de 1927, do primeiro número da revista Presença—,
lembrei-me de reunir num volume não só o texto, refundido, do livro que em
1957 dei à estampa sob o título de História do Movimento da «Presença»,
mas alguns outros textos e documentos em meu poder capitais para o
conhecimento da vida e da morte dessa «folha de arte e crítica» que veio a
ocupar uma situação única na história das letras e das artes do nosso país
na primeira metade do nosso século.
Com efeito reunem-se neste volume, além do texto, refundido, da citada História
do Movimento da «Presença», agora sob o título de Como Nasceu e
Morreu a «Presença», o qual ocupa a sua terceira parte, uma primeira
parte intitulada José Régio na Perspectiva da «Presença», e ainda
uma segunda, a que o autor chamou de Memórias Avulsas, além de uma
quarta, sob a rubrica de Cartas de José Régio a João Gaspar Simões sobre
a Vida e a Morte da «Presença». Em Apêndice juntam-se alguns
textos documentais que servem para comprovar os termos em que, na terceira
parte, Como Nasceu e Morreu a «Presença», o autor desta obra, de carácter
mais autobiográfico que propriamente histórico, relata alguns dos mais
importantes episódios do nascimento e da morte da revista de que ele é
presentemente, cinquenta anos após a sua fundação, o único director vivo.
Classificando como texto autobiográfico (as suas Obras Completas,
em publicação pela Brasília Editora, arrumam-se em cinco rubricas: Autobiografia,
Biografia, Ficção, Ensaio e Teatro) o presente texto, muito
conscientemente entende o seu autor que a obra onde reune matérias tão díspares
se situa mais no âmbito do depoimento pessoal que no âmbito da história
propriamente dita. Protagonista de um acontecimento com repercussões incontestáveis
na cultura portuguesa não podia ele, protagonista que foi do acontecimento em
causa, situar-se num ângulo que não fosse o de alguém que reúne em si
atributos de testemunha e de agente do fenómeno que relata. O seu livro, o
livro que presentemente dá à estampa, e que faz parte de um ciclo de comemorações
programadas para celebrar o cinquentenário da «folha de arte e crítica»
coimbrã, num ponto, todavia, ganha vulto: Nele pela primeira vez vêm a lume os
documentos epistolares que José Régio, a mais representativa figura do
movimento presencista, endereçou, entre Fevereiro de 1927 e Setembro de 1940
— ao longo de treze anos que durou a vida da Presença —, ao seu
camarada na direcção da revista por eles dois fundada, com Branquinho da
Fonseca, cumpriram-se agora cinquenta anos. As quarenta e seis cartas,
seleccionadas, entre a centena e meia de cartas que José Régio endereçou ao
autor deste livro, nos quarenta e tal anos que duraram as suas relações de
amizade, constituem documentação inestimável para comprovar o que o
memorialista da História do Movimento da «Presença» já adiantara no
seu trabalho de 1957 e agora confirma neste, de 1977.
Amizade difícil, por vezes, não é essa amizade que está em causa nas
presentes páginas, mas a maneira como se desenvolveram quer as relações entre
José Régio e o autor delas, os dois mais constantes animadores da Presença,
quer o itinerário que seguiu a mesma revista durante os treze anos em que ambos
lutaram pela sobrevivência, não poucas vezes quase milagrosa, da sua «folha
de arte e crítica».
Morreram, entretanto, José Régio, Branquinho da Fonseca e Adolfo Casais
Monteiro. Apenas resta quem estas páginas subscreve, e naturalmente não por
muitos anos, como é timbre da implacável lei biológica. Nada fez, porém, o
sobrevivente para sobreviver, além de ter consagrado a sua longa existência à
diuturnidade de uma prática implícita nos princípios fundamentais da revista
que ajudou a fundar: aquela que se inscreve no trabalho intelectual
absolutamente livre, absolutamente independente. A lição da Presença, quando
outra lição não tivesse dado à inteligência portuguesa, em algo de muito
palpável se resume, que é ter mostrado, particularmente ao autor deste livro,
que o espírito só é espírito enquanto vive na liberdade a que pode aspirar
quem veio ao mundo num mundo onde a liberdade do espírito de dia para dia está
mais condicionada. Eis por que esse homem morre orgulhosamente pobre e
independente, mas morre sem amarras, morre exactamente como sempre viveu,
segundo ele — e a Presença — a única maneira de um intelectual viver e
morrer de acordo com a sua missão de intelectual. (de: Justificação
Necessária por J.G.S.)