INTRODUÇÃO À LITERATURA

ANGOLANA DE EXPRESSÃO PORTUGUESA

Por Salvato Trigo

          As literaturas africanas de expressão portuguesa mergulham suas raízes teóricas, antes de mais, na última metade do século passado. As condições histórico-sociológicas, que vão motivá-las, começam, de facto, a desenhar-se mais nítidas, após a independência do Brasil e a abolição oficial da escravatura, nas ex-colónias lusitanas. O que até então se tinha feito, em África, em matéria de política colonial não era mais que uma guerra intermitente de domínio territorial que permitisse desenvolver e acautelar o hediondo tráfico escravagista.

            À derrocada do Oriente, seguiu-se a perda do Brasil, o que, em termos de economia portuguesa, traduzia, à partida, um corte estrondoso na nossa fonte de abastecimentos de matérias indispensáveis para a sobrevivência nacional. Consciente deste facto, o regime liberal, implantado em 1820, procurava afanosamente soluções apropriadas para minorar a perda, de momento irremediável, das riquezas orientais e brasileiras.

            A nossa política colonial virava-se, assim, decisivamente para África, mantida até aí no esquecimento administrativo. Inaugurava-se portanto, a colonização intensiva moderna que seria grandemente acelerada após a célebre Conferência de Berlim.

            O planeamento de tal colonização não foi o mais correcto, qualquer que seja o ângulo por que se pretenda analisá-lo. Atropelos vários e graves foram cometidos, não tanto pelo desconhecimento das realidades coloniais então vigentes, mas mais pelo não reconhecimento de direitos inalienáveis das populações submetidas. Esses atropelos contrariavam totalmente os princípios que informavam as sociedades coloniais, alterando significativamente o status já moldado. Esse  status escorava-se, sobretudo, numa vivência crioula que não resistiu à tensão criada pelo aumento rápido e desordenado de colonos europeus a quem a África era mostrada como uma nova Índia ou um novo Brasil, onde se enriqueceria depressa por qualquer meio.

            Destruída a vivência crioula, introduziram-se novos costumes, novas leis, novos credos religiosos mais ortodoxos, novas concepções de duvidosa ética social a que a sociedade crioula reagiu de pronto. Abria-se, deste modo, uma brecha jamais colmatada entre colonizado e colonizador.

            Quando a colonização intensiva atingiu Angola, existia aí uma considerável burguesia nacional, constituída na sua maior parte por mestiços e negros, ditos civilizados. Essa burguesia foi radicalmente marginalizada, em proveito de uma burguesia portuguesa pouco ou nada escrupulosa nos métodos de acumular riqueza e de ganhar importância política. A administração colonial, já de si muito venal, torna-se cada vez mais corrupta e protege a abútrica actividade dos colonos. Os filhos do país vendo que a máscara do falacioso lema — «cristianizar e civilizar» — caía, em definitivo, consciencializam-se e aspiram a uma mudança plena do estado social que os envolvia. O nacionalismo consciente germinava, assim, continuamente irrigado pelos canais da opressão que o sistema colonial faz estender, gradativamente, a todos os cantos do território. E, logo que a liberdade de imprensa se torna extensiva às colónias, eis que ele floresce vigorosamente nas páginas de periódicos engajados na defesa dos interesses dos angolanos oprimidos. Esses jornais, ao representarem a realidade social do seu tempo, transformam-se nos mensageiros remotos da angolanidade perdida e finalmente reencontrada no grito do «Vamos descobrir Angola!», pedra de toque do Movimento dos Novos Intelectuais, responsável pela formação da literatura angolana de expressão portuguesa.

             «Para compreender uma obra de arte, um artista, um grupo de artistas, — escreveu Taine, em «Philosophie de l´Art» — é necessário conhecer exactamente o quadro geral do espírito e dos hábitos da época a que pertencem.» É nesta afirmação do filósofo que deve procurar-se a razão de ser do presente ensaio. Também nós achamos que será impossível uma cabal e total compreensão da literatura angolana de expansão portuguesa, como das outras literaturas africanas modernas, sem o conhecimento da época em que elas nasceram. Por isso mesmo é que, antes de nos debruçarmos sobre a análise dos textos literários produzidos pela  Geração  da  Mensagem,  quisemos fazer a presente abordagem histórica, cientes de que não há literatura que seja válida para todos os tempos e para todos os lugares e circunstâncias, e de que as suas manifestações concretas devem ser apreciadas e analisadas  de acordo com a função que desempenham no contexto histórico que as motiva. Bem dizia De Bonald: «a literatura tem de ser expressão da sociedade».

(de: Introdução)

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