Inédito
de Teixeira de Pascoaes
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Uma
Fábula (O Advogado e o Poeta)
Primeira
Edição ( Esp.
Encader) |
4410 - 22,00€ |
Por Teixeira de Pascoaes
Mais cenas da minha infância e mocidade. Não se trata de confissões, que ninguém se confessa. Como há-de confessar-se um desgraçado, que não faz de si a menor ideia? A sensação que temos de nós próprios é vaga e indefinível. E, se a intelectualizarmos, é já um produto artificial. Somos, em nós, como os peixes na água. Que pensará do Atlântico uma faneca? Não o distingue das suas barbatanas.
A criatura é um abismo de segredos. Se alguns lhe sobem à boca, tapa-a
com as mãos, pois, do silêncio em que eles jazem, depende o seu valor. O mistério
contido, na criatura, é a sua razão de ser, ou a causa da sua actividade
espiritual, criadora e não repetidora. Repetir é apenas existir.
Vou cumprir a promessa que lhe fiz, durante a sua estada nesta casa, a
qual, na realidade, é permanente. Estamos onde estiver quem nos ame. Se amo o
amor, sou apenas amigo da amizade; essa pintura a água duma chama. Pertenço ao
número dos ébrios de nascença, ou condenados à fogueira. Para eles, a vida
é um auto-de-fé perpétuo. Felizes, os indiferentes, os de baixa temperatura,
os sólidos, os quase estátuas ambulantes. Quando morrem, fecham os olhos como
se nunca os tivessem aberto à luz. Não estranham a passagem da cama para a
cova. Sim, a sua pessoa é desta casa. Só lhe é vedada a sala de visitas, essa
Grã-Bretanha...
Trata-se de uma espécie de complemento ao meu Livro de Memórias... infantis:
uma colecção de pequenos acontecimentos, a que a minha fantasia emprestou um
certo colorido. De resto, em toda a pequenez que se mostra, há uma grandeza
invisível. Pressentir ou esboçar essa grandeza é o dom dos Poetas. Apolo não
fere os pés naquela pedrinha do chão, que rebrilha de ensanguentada? E há
noites em que Diana desce ao mundo, onde treme uma gota de água. Tudo é digno
de ser contado. E eis o sinal, em nós, do Criador. O que soar no verbo da
Inspiração participa no Verbo Original. E um poeta só gosta de falar a outro
poeta. Dirigindo-se a estranhos, tem de ser estranho a si mesmo, ou colocar-se
numa atitude hostil ao seu temperamento. Muda de cara e linguagem, o que é incómodo.
Faz de parvo e gagueja banalidades. Mas escrever é conversar, de longe,
conviver na solidão. Escrevendo estas memórias, estou consigo, meu caro Poeta,
não só em presença actual, como em fantasma do que fui. Iludo assim a distância
que nos separa, léguas e léguas adormecidas em planícies infindáveis, ou
acordadas num sobressalto montanhoso, entre Lisboa e São João de Gatão, a
rimar com Marão. E vou assim idealizando as minhas horas aldeãs, para que elas
me embelezem a sensação inefável de vivo. Quanto à sensação da existência
é privilégio marmóreo das estátuas.
Idealizar as horas é a ambição das vítimas sacrificadas a essas
deusas que bailam, em volta do sol. Se as horas doiradas e alígeras nos
produzem uma espécie de embriaguez; as horas mortas de luar amortalham-nos em lívido
silêncio. Imitamos o nosso espectro, essa ideia imaginada, ou feita
imagem, que, em vida, temos de nós, na morte.
Se o tempo principia connosco, isto é, no dia em que nascemos, o
primeiro movimento das nossas pernas inicia o espaço, que não finda. Esse espaço,
para mim, é a aldeia da minha infância, tão diferente desta aldeia da minha
velhice, ou longe dela setenta e tantos anos!
(de: Capítulo I)