HOMENS
E CARANGUEJOS
Nas terras pobres e famintas do Nordeste brasileiro, onde nasci, é hábito servir-se um pedacinho de carne seca com um prato bem cheio de farofa. O suficiente de carne — quase um nada — para dar gosto e cheiro a toda uma montanha de farofa feita de farinha de mandioca, escaldada com sal. Foi, talvez, por força deste velho hábito da minha terra que resolvi servir ao leitor deste livro muita farofa com pouca carne.
Sentindo que a história que vou contar é uma história magra, seca, com
pouca carne de romance, resolvi servi-la com uma introdução explicativa que
engordasse um pouco o livro e pudesse, talvez, enganar a fome do leitor — a
sua insaciável fome de romance. Foi, no fundo, como uma espécie de sublimação
deste complexo de um povo inteiro de famintos, sempre preocupado em esconder ou,
pelo menos, em disfarçar a sua fome eterna, que acabei fazendo uma copiosa
introdução a este magro romance que tem, como personagem central, o drama da
fome. Assim, por força das circunstâncias, encontrará o leitor, neste livro,
muita explicação e pouco romance. Pouco, mas o suficiente para dar ao livro o
gosto e o cheiro fortes do drama da fome que é, no fundo, a carne desta obra.
Mas será mesmo este livro um romance? Ou não será mais um livro de memórias?
Talvez, sob certos aspectos, uma autobiografia?
Não sei. Tudo o que eu sei é que, neste livro, se conta a história de
uma vida diante do espectáculo multiforme da vida. A história da vida de um
menino pobre abrindo os olhos para o espectáculo do mundo, numa paisagem que é,
toda ela, um braço de mar — um longo braço de mar de misérias.
O tema deste livro é a história da descoberta da fome nos meus anos de
infância, nos alagados da cidade de Recife, onde convivi com os afogados deste
mar de miséria. Procuro mostrar neste livro de ficção que não foi na
Sorbonne, nem em qualquer outra universidade sábia, que travei conhecimento com
o fenómeno da fome. O fenómeno se revelou espontaneamente a meus olhos nos
mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis da cidade do Recife: Afogados,
Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite. Esta é que foi a minha Sorbonne: a lama dos
mangues do Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos
de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo. Seres anfíbios —
habitantes da terra e da água, meio homens e meio bichos. Alimentados na infância
com caldo de caranguejo: este leite de lama. Seres humanos que se faziam assim
irmãos de leite dos caranguejos. Que aprendiam a engatinhar e a andar com os
caranguejos da lama e que depois de terem bebido na infância este leite de
lama, de se terem enlambuzado com o caldo grosso da lama dos mangues, de se
terem impregnado do seu cheiro de terra podre e de maresia, nunca mais se podiam
libertar dessa crosta de lama que os tornava tão parecidos com os caranguejos,
seus irmãos, com as suas duras carapaças também enlambuzadas de lama.
Cedo me dei conta deste estranho mimetismo: os homens se assemelhando em
tudo aos caranguejos. Arrastando-se, acachapando-se como os caranguejos para
poderem sobreviver. Parados como os caranguejos na beira da água ou caminhando
para trás como caminham os caranguejos.
É por isso que os habitantes dos mangues, depois de terem um dia saltado
para dentro da vida, nesta lama pegajosa dos mangues, dificilmente conseguiam
sair do ciclo do caranguejo, a não ser saltando para a morte e, assim,
afundando-se para sempre dentro da lama.
A impressão que eu tinha era que os habitantes dos mangues — homens e
caranguejos nascidos à beira do rio — à medida que iam crescendo, iam cada
vez se atolando mais na lama. Parecia que a vegetação densa dos mangues com
seus troncos retorcidos, com o emaranhado de seus galhos rugosos e com a densa
rede de suas raízes perfurantes os tinha agarrado definitivamente como um
polvo, enfiando tentáculos invisíveis dentro da sua carne, por todos os
buracos de sua pele, pelos olhos, pela boca, pelos ouvidos.
E, assim, ficavam todos eles afogados no mangue, agarrados pelas ventosas
com as quais os mangues insaciáveis lhes sugavam todo o suco da sua carne e da
sua alma de escravos. Com uma força estranha, os mangues iam, assim,
apoderando-se da vida de toda aquela gente, numa posse lenta, tenaz, definitiva.
Estas estranhas plantas que, em eras geológicas passadas, se tinham apoderado
de toda essa área de terra — esta fossa pantanosa onde hoje assenta a cidade
do Recife — estendia agora sua posse também aos seus habitantes. E tudo nesta
região passava a pertencer ao mangue conquistador e dominador: a Terra e o
Homem.
Na verdade, foram os mangues os primeiros conquistadores desta terra.
Foram mesmo em grande parte os seus criadores. Toda esta vasta planície inundável,
formada de ilhas, penínsulas, alagados e paúis, fora em tempos idos uma grande
fossa, uma baía em semicírculo, cercada por uma cinta de colinas. Nela vindo a
desaguar, através da muralha dessas colinas, dois grandes rios — o Capibaribe
e o Beberibe — foram entulhando a fossa com materiais aluvionais: com a terra
arrancada de outras áreas distantes e trazida na enxurrada das suas águas.
Pouco a pouco foram surgindo, dentro da baía marinha, pequenas coroas lodosas,
formadas através da precipitação e deposição dos materiais trazidos pelos
rios. E foi sobre estes bancos de solo ainda mal consolidados, mistura incerta
de terra e água, que se apressaram a proliferar os mangues — esta estranha
vegetação capaz de viver dentro de água salgada, numa terra frouxa,
constantemente alagada. Agarrando-se com unhas e dentes a este solo para
sobreviver, através de um sistema de raízes que são como garras fincadas
profundamente no lodo e amparando-se, umas nas outras, para resistirem ao ímpeto
das correntezas da maré e ao sopro forte dos ventos alísios, que arrepia sua
cabeleira verde, os mangues foram pouco a pouco entrelaçando suas raízes e
seus braços numa amorosa promiscuidade, e foram assim consolidando a sua vida e
a vida do solo frouxo das coroas de lodo donde brotaram. Com os depósitos
aluviais que se foram acumulando na trama do labirinto de raízes dos mangues e
debaixo das suas copadas sombras verdes, foi progressivamente subindo o nível
do solo, e alargando sua área sob a protecção desse denso engradado vegetal.
Não há pois, a menor dúvida que toda esta terra que hoje flutua à flor das
águas, na baía, entulhada do Recife, foi uma criação dos mangues.
Os mangues vieram com os rios e, com os materiais por eles trazidos,
foram os mangues laboriosamente construindo seu próprio solo, batendo-se em
luta constante contra o mar. Vieram como se fossem tropas de ocupação e, ao
contacto com o mar, edificaram, silenciosa e progressivamente, esta imensa
baixada aluvial hoje cortada por inúmeros braços de água dos rios e
densamente povoada de homens e caranguejos, seus habitantes e seus adoradores.
...,... (de: Prefácio)