GEOPOLÍTICA DA FOME

 

            O título deste livro, tão magistralmente escrito pelo Prof. Josué de Castro, bem poderia ser Fome e Política, porque, dos debates nele suscitados, surgem perspectivas políticas de primeira grandeza. Mas, como salienta o próprio autor, sempre foi considerado pouco conveniente, entre os povos bem alimentados, discutir-se a fome dos menos afortunados — fome que nunca foi assunto muito popular em matéria de política. E, no entanto, a fome tem sido, através dos tempos, a mais perigosa das forças políticas. Foi a fome que precipitou a Revolução Francesa. Uma multidão de mulheres dos cortiços de Paris marchou até à sede do Parlamento, bradando por pão. Os políticos fugiram. As mulheres, com suas hostes reforçadas pelos homens, tomaram o rumo da Bastilha. A queda da Bastilha foi o golpe de morte contra o sistema feudal na frança, iniciando uma nova era na política europeia. O movimento revolucionário nos anos famintos por volta de 1840 teve a mesma causa. O brado da turba «Cartista» na Inglaterra era «pão ou sangue». Com a liberdade da importação de alimentos baratos evaporou-se na Inglaterra o espírito revolucionário. Hoje, embora tardiamente, já se começa a reconhecer que a fome — a pior das consequências da miséria — constitui a causa fundamental da revolta dos povos asiáticos contra o domínio económico das potências europeias, revolta que não poderá ser abafada por fuzis, enquanto aqueles povos acreditarem que a fome e a miséria de que sofrem são males desnecessários. Na actual crise mundial, este livro é de vital importância. Se os políticos de todas as nações do mundo pudessem esquecer por um momento os seus conflitos políticos e lessem este livro, sem ideias preconcebidas, adquiririam certamente uma visão mais sadia dos problemas universais e teriam assim maior possibilidade de salvar a nossa civilização de perecer numa terceira guerra mundial.

            A palavra «fome», usada pelo autor, precisa ser bem definida. No passado empregava-se a palavra «fome» para exprimir a falta de alimentos para a satisfação do apetite e o número de mortos pela fome restringia-se então aos indivíduos esquálidos que morriam por completa inanição. O autor, porém, usa essa palavra no seu sentido moderno, no sentido da falta de quaisquer dos quarenta ou mais elementos nutritivos indispensáveis à manutenção da saúde. A falta de qualquer deles ocasiona morte prematura, embora não acarrete, necessariamente, a inanição por falta absoluta de alimento. A carência total de alimento, tal como se verifica nas épocas de fome em massa, sempre constituiu uma causa importante de mortalidade. Mesmo nos últimos tempos a fome tem matado mais gente do que a própria guerra. Mas o número dos que assim morrem ainda é pequeno, em comparação com os que vivem num regime alimentar inadequado para manter a saúde e que, por isso mesmo, sofrem, em maior ou menor grau, de doenças da nutrição. Dando-se à palavra «fome» essa acepção, de acordo com as estimativas feitas antes da guerra, dois terços da população do mundo vivem em regime de fome. Recente trabalho elaborado por uma comissão norte-americana calcula esse número em 85%.

            A fim de dar alimento suficiente para toda a humanidade, levando-se em conta o aumento forçoso da população mundial, seria necessário elevar-se cerca do dobro a produção de alimentos nestes próximos vinte e cinco anos. Milton Eisenhower — tão grande autoridade na sua especialidade, como seu irmão, o General, em matéria de guerra — calcula que será necessário um aumento de 110%.

            Surge assim a questão de poder ou não a Terra fornecer alimentos suficientes para a sua população em tão rápido crescimento. Acreditam os neomalthusianos que tal seja impossível e consideram que o único caminho para a sobrevivência da civilização ocidental seja o controlo da natalidade, rigorosamente imposto, se necessário, para reduzir a população. Mas o autor deste livro salienta o facto conhecido de que o índice de natalidade é mais alto entre os mal alimentados e mais baixo entre os bem alimentados, caindo, neste último caso, até abaixo do nível de equilíbrio, a despeito dos seus índices menores de mortalidade. Explica essa diferença, fisiologicamente, baseado em experiências feitas com animais. Um grande consumo de proteínas provoca alta percentagem de casos de esterilidade. O índice de natalidade decresce à medida que aumenta o consumo de alimentos ricos em proteínas, tais como carne, ovos e leite; sendo caros estes alimentos, o seu consumo é proporcional aos recursos do indivíduo. Dá uma lista de países do mundo com as respectivas quotas individuais de proteínas e respectivos índices de natalidade, começando com a Formosa, onde a quota média é de 4,7 gramas diários per capita e o índice de natalidade de 45,6. Mostra a correlação regular entre a quota proteica e o índice de natalidade, que vai decaindo até chegar à Suécia, onde essa quota é de 62,6 e o índice de natalidade, 15.

            Existem, naturalmente, além do regime alimentar, factores económicos e culturais que influem nos índices de natalidade. Pouca dúvida resta, porém, de que o único método de controlo da natalidade realmente eficiente é a melhoria da dieta, a elevação dos standards de vida e de educação nos países de altos índices de natalidade, de modo a reduzi-los — como aconteceu em outros países outrora com índices de natalidade igualmente elevados e hoje reduzidos ao nível de equilíbrio ou mesmo abaixo deste. O processo é demorado, todavia. Não há dúvida que, caso não venha uma guerra com armas biológicas mortíferas, as quais, como se sabe, poderão exterminar mais de 50% da população da área onde forem usadas, a população de antes da guerra, que era de cerca de 2 biliões, ainda na geração dos nossos filhos passará a 3 ou 4 biliões.

            Pode a Terra fornecer alimentos num nível satisfatório para essa população assim aumentada? O autor cita factos bem comprovados, demonstrando não haver dificuldade de ordem física para se dobrar ou redobrar o abastecimento de alimentos do mundo. Se os agricultores falharem, os químicos, conforme demonstraram, poderão fornecer alimentos sintéticos. As únicas limitações de ordem prática para a produção de alimentos são os volumes de capital e de trabalho humano que a sociedade esteja disposta a empregar para esse fim.

            A questão, pois, é saber-se se os governos estão dispostos a cooperar para um plano de alimentação mundial. Tal plano — único meio de cumprir a promessa de libertar o homem da miséria — embora bem recebido pela maioria dos governos, foi rejeitado pelos Estados Unidos, pelo Reino Unido e pela U.R.S.S. Os governos estão dispostos a juntar homens e recursos para uma guerra mundial, mas as Grandes Potências não estão dispostas a unir-se para banir do mundo a fome e a miséria. As razões dessa relutância em aplicar a moderna ciência em benefício de toda a humanidade, a começar pelos mais pobres, estão explicadas neste livro. ...,... (de: Prefácio da edição Inglesa)

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