ENSAIOS DE GEOGRAFIA HUMANA

 

            Este trabalho concentra-se numa série de estudos de categoria geográfica — neste sector de Geografia que, ao focar o homem como objectivo central das suas análises, se chamou Geografia Humana. Geografia da paisagem cultural, da paisagem humanizada, pela presença dos traços de cultura, das marcas que o elemento humano vem incrustando através dos tempos na superfície da terra. Fazendo da pele da terra uma espécie de pergaminho todo recoberto de hieróglifos que contam a história da humanidade: das suas lutas, das suas conquistas, dos seus compromissos e das suas vitórias em face das forças naturais. Foi esta riqueza de conteúdo humano que sempre nos atraiu nesta ciência, mesmo quando ela se ocupa dos aspectos negativos da condição humana — dos seus aspectos mais inumanos ou desumanos, como são os métodos de exploração social e económica de que resultaram a fome e a miséria do mundo, estudados nos nossos dois trabalhos anteriores — a Geografia e a Geopolítica da Fome.

            Neste volume estudaremos aspectos positivos da acção do homem como factor geográfico, como modelador e transformador da natureza.

            Mas abordaremos este estudo em dois níveis diferentes, por razões que vamos explicar. Embora toda a matéria deste volume se concentre num mesmo género de preocupação, de meditação sobre problemas de natureza geográfica, as duas partes em que o volume se divide têm uma densidade de percepção, uma concentração analítica bem diferente uma da outra.

            A primeira parte é mais de caracter geral, mais extensivo do que intensivo, mais de superfície do que de profundidade.

            Os vários estudos nela agrupados foram publicados pela primeira vez num volume didáctico intitulado «Geografia Humana», para uso dos estudantes desta matéria e obedecia na sua estrutura inicial a um programa oficial de ensino.

            Nesta nova apresentação libertamos o assunto desta espécie de camisa de forças que é um programa didáctico, cortamos muita coisa inútil, mas não podemos mudar a sua forma de apresentação: a sua exposição simplificada, acessível aos não iniciados nestes assuntos. Como uma espécie de introdução à mais superficial de todas as ciências — a Geografia, cujo campo de estudo é a superfície da terra e, para uso de estudantes, não podiam estes ensaios apresentarem-se em forma de penetrantes e profundas análises, sobrecarregadas de erudição.

            São mais do que tudo, uma forma de exercitar a actividade educacional, despertando o interesse e revelando a importância fundamental destes estudos para a formação humanista da nossa juventude.

            Já a segunda parte do volume, onde o autor estuda a fisionomia de uma cidade, em sua dinâmica geográfica, procurando decifrar a sua existência à luz dos princípios e métodos da ciência geográfica, a matéria é trabalhada mais a fundo, com mais vagar e mais densidade científica. É que este trabalho foi de início uma tese de concurso, exactamente a tese  com que concorremos e conquistamos a cátedra de Geografia Humana, na Faculdade Nacional de Filosofia.

            De qualquer forma, achamos que não seria chocante juntar estes dois grupos de trabalho num mesmo volume, porque, embora de níveis diferentes, sendo a primeira parte mais informativa e a segunda de tendência mais interpretativa, preocupam-se ambos, entretanto, nos seus aspectos de geografia geral ou regional, em documentar a acção criadora do homem na superfície da terra. Acção que não pode deixar de interessar de certa forma a todos os que se preocupam com o estado das ciências do homem. (de: Explicação por Josué de Castro)                                                    

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