ENSAIOS DE BIOLOGIA SOCIAL

 

            A nossa formação de médico, com o espírito moldado pela influência crítica e revisora da experimentação biológica, levou-nos a analisar os problemas sociais dentro do critério das suas raízes biológicas ou seja da indagação dos factores que através de um mecanismo biológico condicionam as suas expressões.

            Isto não significa entretanto a nossa adesão a uma nova escola de biologismo social, fazendo renascer aquele antigo conceito de que a sociedade é um organismo vivo regendo-se, desta forma, pelas leis naturais reguladoras da vida. Não se trata disso. A nosso ver o social transcende o biológico mas nem por isso se pode eximir ou isentar das contingências ou bases biológicas que interferem na expressão dos actos humanos.

            O biológico se não é tudo, é muita coisa e a sua contribuição, quando indagada com critério, pode esclarecer inúmeros aspectos dos fenómenos sociais. É o que tentamos fazer em vários dos ensaios reunidos neste volume. Damos como exemplo o estudo intitulado «A Fisiologia dos Tabus», publicado pela primeira vez em 1938, e no qual tentamos, através da aplicação da teoria dos reflexos condicionados de Pavlov, explicar o complexo mecanismo da formação das interdições tabus até então aparentemente tão disparatado ou incompreensível.

            Noutro ensaio — o «Estudo da Aclimatação e da Alimentação» — procurámos evidenciar o facto de que é através do fenómeno alimentar como uma acção indirecta do meio sobre o homem que se faz sentir, por excelência, o processo de aclimatação ou seja da adaptação biológica dos grupos humanos aos diferentes quadros naturais.

            E assim em vários outros estudos tentámos fazer ressaltar esses aspectos biológicos, as mais das vezes relegados a um plano bem secundário pela maioria dos sociólogos.

            É verdade que em alguns dos estudos incluídos neste livro não transparece tão claramente o sentido ou conteúdo biológico porventura existente. É o caso, por exemplo, do ensaio sobre Einstein, do estudo sobre Roosevelt como um estadista universal, ou o do papel da juventude na reconstrução do mundo. Mas quando se procura penetrar melhor a essência desses trabalhos, verifica-se que eles deixam transparecer a formação do seu autor e a cada passo os aspectos biológicos se deixam entrever na tessitura do pensamento que conduziu à elaboração desses trabalhos.

           Esta a razão pela qual são reunidos neste volume alguns estudos nitidamente de biologia social e outros, que são mais ensaios sociológicos com muito menor sentido de biologia. Mas todos concebidos dentro de um mesmo princípio orientador que é o de centralizar a atenção do leitor para o estudo do homem nas suas correlações com o meio natural. Poderia intitulá-los, um tanto pretensiosamente, de Ensaios de Ecologia Social, se a palavra não nos parecesse um tanto rebarbativa para figurar como título de livro, e porque o autor julgou que tal título poderia dar a ilusão aos leitores de alguma coisa que está cima do valor presumível destes simples ensaios ou estudos publicados em diferentes épocas da sua vida de estudo. Ensaios sem maior pretensão do que a de trazer uma pequena contribuição ao esclarecimento de certos fenómenos e factos sociais, quer brasileiros, quer de significação universal. (de: Explicação por Josué de Castro)

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