DA NATUREZA AO SAGRADO

Homenagem a Francisco Vieira Jordão

Volumes I e II

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

 

 

                Na “insuportável leveza do ser” calcorreada pelo caçador contumaz, que trocou a experiência cusana de sabedoria pela sofreguidão iluminista das evidências e sacrificou a gravidade do real à aferição e medição imponderáveis e levíssimas da consciência mensuradora, apagou-se já o pensar no sentido originário de pesar a densidade e a importância das coisas, da vida e do homem, cuja ausência é a dor primeira da consciência ecológica. Pensar é também não deixar morrer no esquecimento o que, apesar do seu peso e valor, não resistiu à voragem da morte, é manter viva na rememoração e na narração a herança do que vale, é agradecer o peso dos bens legados a fundo perdido e fazer da gratidão o terreno fértil de novas criações do pensamento. Foi no coração da recordação que o génio de Agostinho, sempre fascinado pelo tempo, viu o fundo recôndito da pessoa humana, que hoje reactualizamos num pensamento, que pesa, rememora e agradece. Emoldurado por este tríptico, nasceu da pena de colegas, antigos alunos e admiradores de Francisco Vieira Jordão este livro, que é mais um testemunho da sua presença junto de nós após a morte.

                Ao hesitar de início entre Nicolau de Cusa e Bento Espinosa para tema de dissertação de doutoramento, a intenção de Vieira Jordão foi sempre a de “destruir” a “insustentável leveza do ser” e de recobrar o peso do pensar, a fim de o ensino se não esfumar na retórica da aparência, no delírio da sedução ou na colagem e justaposição exterior de textos sem vida nem peso nem densidade, como se a Escola regressasse a um Hades virtual de sombras, que esvoaçam. Ensinar tornou-se para Vieira Jordão uma forma eminente de dar, quando restituiu à palavra, que semeou, a força seminal da dádiva, que faz descobrir o peso das coisas no seio de uma natureza ameaçada hoje de holocausto, em contraste flagrante com a realidade salvadora de Deus sive Natura, que Espinosa lhe transmitiu e ela pacientemente investigou na sua dissertação de doutoramento. Foi para os alunos o último escrito saído da pena de Vieira Jordão, que intitulou Mística e Filosofia. O Itinerário de Teresa de Ávila (1990) e onde, à sombra da experiência da densidade misteriosa da existência, o professor aparece aos alunos como o pedagogo, que ao ensinar rasga orientações para o caminho, sem ocultar a dureza, as dificuldades e os perigos do percurso, de que não prescinde a suportável profundidade do ser. ...,... (de: Nota de Abertura de Miguel Baptista Pereira)

 


SUMÁRIO

Volume I

— Nota de agradecimento

— Nota de abertura

— Amor Sonho e Saudade – Adelino Cardoso

— Sobre as Ideias: Reflexos duma Questão Polémica na Filosofia Portuguesa de Setecentos – Amândio a. Coxito

— Morte, Pessoa e Transcendência – Anselmo Borges

— Metafísica depois de Kant? Nótula sobre o Interlúdio Habermas-Henrich – António Manuel Martins

— Sobre a Opção Fundamental (de S. Tomás a J. Maritain) – Cassiano Maria Reimão

— Língua Materna, identidade´s e Hospitalidade – Fernanda Bernardo

— Da Imagem Oficial de Russel à Reabilitação da sua Filosofia. “O Vago” (Russel, 1923), como Caso em Estudo – Henrique Jales Ribeiro

— Educação e Filosofia. De uma Didáctica da Filosofia a uma Filosofia da Educação – João Boavida

— O Pensamento de Fontenelle nos Nouveaux Dialogues des Morts – João Domingues

— O Outro Corpo de Descarts – João Maria André

— J. Nabert, leitor de B. Spinoza – Joaquim Cardozo Duarte

— Hermenêutica e Religião – Joaquim Cerqueira Gonçalves

— A “Constituição Universitária” de 1911 e o Estatuto Universitário de 1918 – Joaquim Ferreira Gomes

— Religión y Tolerancia – José Gómez Caffarena

— Ética e Empresa – José Henrique Silveira de Brito

— Ser y Deber. El Retorno de H. Jonas a la  metafísica como fundamento de la ética — José M. G. Gomez-Heras

 

 

Volume 2

— A Matriz Cultural Profunda da Europa – José Nunes Carreira

— Prazer ou a essência do ético e do estético – José Reis

— Razão Estética e Sistema no Pensamento de Cunha Seixas – Leonel Ribeiro dos Santos

— Cuerpo y Mundo en Merleau-Ponty – Luciano Espinosa Rubio

— Ernst Mach e a Fundamentação Filosófica do Impressionismo Literário Vienense – Ludwig Scheidl

— Éticas Tradicionais e Ética do Futuro. Contributos e Insuficiências do Pensamento de Hans Jonas – M. Patrão Neves

— Religiões em Diálogo. Antecedentes e Evolução Histórica e Sócio-Cultural – Manuel Augusto Rodrigues

— Fenómenos Mentales y Fenómenos Físicos. El Problema de la Intencionalidad en F. Brentano – Maria Del Carmen Paredes

— Thanatos na Arte Grega – Maria Helena da Rocha Pereira

— Sobre a Amizade – Homenagem a Francisco Vieira Jordão – Maria Luisa P. F. Da Silva

— Espinosa, Hobbes e a Condição Femenina – Maria Luísa Ribeiro Ferreira

— Omnipotencia e Panteísmo: Leibniz – Spinoza (Un Apunte desde Leibniz) – Maria Socorro Fernández 

— Cómo leer el Pasado Teológico – Mariano Alvarez-Gómez

— Flores de Pó em Jardins de Ninguém – Breve Reflexão Sobre a “Maternidade Responsável” – Marina Ramos Themudo

— Falar Divinamente... O Tema Neoplatónico da “Desconstrução” – Mário Santiago de Carvalho

— De Bento Espinosa à Ontologia. Um Percurso Interrompido – Miguel Baptista Pereira

— Spinoza y la Nada – Miquel Beltrán

— A Contribuição de Paul Ricoeur para a Teoria da Temporalidade – Miguel Soares Albergaria

— Spinoza, the Status of Prophecy, and Exoteric Teaching in the Tractatus Theologico-Politicus – Paul J. Bagley

— Gnosis more Geometrico Emendata. Spinoza Leído por Vieira Jordão – Romano Garcia

 


Data de Ed. – Dez. de 1999 — Dep. Legal nº 146794/00 — ISBN 972-8386-29-X

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