Biografia e Monografia

Cem Anos de Teatro Português - Francisco Rebello

3360 - 16,76 €

História da Escravatura - Frantz Keller

1050 - 5,24 €

Pensamento Activo de Bernardino Machado - António Ramos  Almeida

1218 - 6,08 €

Posições Frontais - Entrevistas por Manuel Dias

1050 - 5,24 €

Socialismo em Liberdade - M. Francisco Rodrigues

1050 - 5,24 €

Pioneiros Portugueses e a Pedra de Dighton - Dr. Manuel Luciano  Silva

1680 - 8,38 €

As Ciências da Educação  -  Joaquim Garcia carrasco

1995 - 9,95 €

Rancho da Praça - Rendilheiras de Vila do Conde - 1920/80- Ediç. Esp

1995 - 9,95 €

Milagres e Crendices Populares - Manuel Dias

1764 - 8,80 €

Albert Vigoleis Thelen no Solar de Pascoaes - OlívioCaeiro

2856 - 14,25 €

Rapaz ou Rapariga Igual EducaçãoBeatrice Dupont

882 - 4,40 €
Cinfães a História e a Lenda - Agostinho Teixeira de Vasconcelos 4200 - 20,95 €

Regresso à página inicial

«100 ANOS DE TEATRO PORTUGUÊS»

Por: Luiz Francisco Rebello

 

         É possível que para muitos, este livro constitua a vários títulos uma surpresa. Em primeiro lugar, que um país de tradição dramatúrgica hesitante e descontínua produza, em cem anos, dos quais cerca de metade preenchidos por uma ditadura que encarniçadamente reprimiu as manifestações literárias e artísticas, e muito em especial a arte dramática, mais de sete centenas de autores — exactamente 744 — que escreveram para o teatro (é de propósito que não se fala, aqui, em dramaturgos, e adiante se compreenderá porquê), eis o que parece contradizer a afirmação de Eça de Queirós para quem «o português não tem génio dramático; nunca o teve, mesmo entre as passadas gerações literárias, hoje clássicas». Portugal seria, assim, não um país de poetas como geralmente se proclama, mas de candidatos a autores de teatro, a justificar o comentário pitoresco de um jornalista que, em 1911, escrevia que «cada português entra na vida com duas coisas: um projecto de salvação nacional e uma peça de teatro»...

         Mas é evidente que aquela cifra, à primeira vista impressionante (que país não se ufanaria de contar uma média de cento e quarenta e oito novos autores teatrais por geração?!), exige um certo número de correcções. Por um lado, o presente inventário — que, sendo o mais completo possível, não tem contudo a pretensão de ser exaustivo, mas apenas a de servir de ponto de partida e estímulo para ulteriores investigações — limita-se a autores que escreveram para o teatro dito declamado (e nele foram, ou não, ou ainda não, representados), deixando portanto de fora todos aqueles que operaram exclusivamente na área do teatro musicado ou que apenas pela via da tradução se abeiraram do palco, assim como os autores de teatro infantil ou que só para a rádio e a televisão escreveram. Isto explica a ausência de nomes que foram assíduos nos cartazes dos teatros de revista, como um Lino Ferreira, um Alberto Barbosa, um José Galhardo, um Aníbal Nazaré, um César de Oliveira, mas que nunca apareceram ligados a criações originais para a cena declamada (aliás, a importância da revista bem justifica que se lhe dedique, e aos seus autores, tanto escritores como compositores, um volume autónomo); e explica também a omissão de tradutores, entre os quais poderiam figurar alguns nomes ilustres da nossa literatura, desde Ramalho Ortigão a Carlos de Oliveira e Eugénio de Andrade. Por outro lado, cerca de um terço dos autores inventariados apenas com um texto contribuiu para a produção dramatúrgica destes últimos cem anos, e não chegam a metade os que foram além de uma segunda peça — mas o número dos que dedicaram, ou dedicam, ao teatro uma atenção regular e contínua, alguns dos quais podendo mesmo considerar-se profissionais (tanto quanto isso é possível entre nós...), escassamente ultrapassa a centena. Quer isto dizer que a maior parte — aproximadamente cinco sextos (85%) dos nomes que figuram neste catálogo são de autores ocasionais ou «por acidente», como já se lhes tem chamado, e que só a um núcleo reduzido deva reservar-se o título de dramaturgos. Nem por isso deixa de haver, para mantermos aquela terminologia, alguns «acidentes» felizes, como por exemplo, a Sabina Freire de Teixeira-Gomes, o D. Carlos de Teixeira de Pascoaes, o Braz Cadunha de Samuel Maia, o Tombo no Inferno de Aquilino, o Render dos Heróis de Cardoso Pires.   E aqui residirá a provável segunda surpresa do leitor deste livro: não já a quantidade dos nomes que nele se registam, mas o próprio enunciado desses nomes. È que, com muito poucas excepções, se verifica que quase todos os autores significativos nos domínios da ficção e da poesia, e até do ensaio e da crítica, de há cem anos para cá, transpuseram, uma vez pelo menos, as fronteiras que separam do teatro esses domínios...  (...) (de: Introdução)

 Para voltar ao preçário

 

«HISTÓRIA DA ESCRAVATURA»

Por: Frantz Keller

         A escravatura foi o fundamento da sociedade antiga. As guerras foram o meio mais eficaz para conseguir escravos, mas não é precisamente nas guerras onde se vai buscar a raiz da dita instituição, mas na transformação da agricultura nómada em sedentária, no nascimento e desenvolvimento do comércio e, dum modo geral, na aparição de certas circunstâncias que tiveram como consequência a acumulação de riquezas, a propriedade privada da terra, e a criação duma estrutura social mais complicada.

         Talvez que a primeira forma de escravatura já existisse no Génesis, quando se põe a primeira mulher, Eva, sob a autoridade de Adão, o primeiro homem. Uma vez perdida a inocência original, a harmonia já não podia existir entre aquelas duas primeiras criaturas, e a mulher, causadora directa do primeiro pecado, foi precisamente a que suportou as consequências mais duras.  (...)  (de: A Escravatura na Antiguidade)

 Para voltar ao preçário

 

«O PENSAMENTO ACTIVO DE BERNARDINO MACHADO»

Por: António Ramos de Almeida

         Na história dos povos nada se passa nem se desenvolve por acaso ou geração espontânea. Os lances decisivos da vida de uma nação não surgem por milagre ou encanto, nem tão pouco decorrem como feliz coincidência de circunstâncias aleatórias ou de gestos arbitrários de aventureiros audazes. A história não é uma caixinha de surpresas, nem uma construção teorética sujeita aos baldões dos caprichos de cada qual. Só uma noção simplista ou retórica da História pode elaborar explicações emocionais para aqueles acontecimentos que só por si parecem modificar o rumo das nações, abrindo-lhes novas e amplas perspectivas de desenvolvimento e progresso. Quer dizer, as grandes revoluções económicas, sociais e políticas não se resumem ao acontecimento dramático que as exterioriza e marca como data histórica no tempo e no espaço. Representam, sim, o terminus de um processo evolutivo, que depois de ter atravessado várias e sucessivas etapas de um permanente movimento — descontínuo, porque dinamizado por um complexo condicionalismo que se desenvolve e afirma através de acções e reacções — acaba, às vezes, por explodir num acontecimento maior, cuja retumbância permanece e se repercute através da força, do sortilégio, da emotividade da palavra Revolução, erradamente depois explicada no seu conteúdo, nos seus antecedentes e consequentes — até pelos seus próprios prosélitos, militantes e combatentes — como um fenómeno essencialmente passional e, conforme certos símiles exaltados e sectários, como o acto abnegado de um herói ou um simples cataclismo político-social. Assim tem acontecido com a Revolução de 5 de Outubro de 1910, da qual resultou a Implantação da República em Portugal.  (...)  (de: Para uma antologia do pensamento republicano)

 Para voltar ao preçário

 

«OS PIONEIROS PORTUGUESES E A PEDRA DE DIGHTON»

Por: Dr. Manuel Luciano da Silva

 

Biografia do autor:

 

         O Dr. Manuel Luciano da Silva nasceu a 5 de Setembro de 1926 na aldeia de Cavião, concelho de Vale de Cambra, distrito de Aveiro, Portugal.

         Frequentou e Escola Primária em Leixões e Oliveira de Azeméis. Por intermédio do Colégio de Oliveira de Azeméis completou o curso geral dos liceus em 1945.

         Em Janeiro de 1946 emigrou para a cidade de Nova Iorque com sua mãe e irmão para se juntarem ao pai. Empregou-se nos escritórios da Westinghouse Electric Internacional Company e depois como amanuense do Consulado Geral de Portugal em Nova Iorque.

         Entretanto fez o exame de aptidão à Faculdade de Ciências da Universidade de Nova Iorque vindo a licenciar-se em Biologia em 1952. Regressou a Portugal no mesmo ano para cursar medicina na Universidade de Coimbra terminando o seu curso com distinção em 1958.

         Voltou aos Estados Unidos, fazendo o internato no Hospital de S. Lucas em New Bedford, Massachusetts, e depois obteve a sua especialidade em Medicina Interna na famosa Clínica Lahey de Boston.

         Desde 1963 faz parte do corpo clínico do Centro Médico de Bristol, Rhode Island. È membro activo da Associação Médica Americana, da Associação do Estado de Rhode Island, e é presidente da Sociedade Médica do Condado de Bristol.

         Tem dado um exemplo extraordinário de profissional que arranja sempre tempo para ser membro e tomar parte activa nas organizações luso-americanas; fazer palestras nas escolas, liceus e universidades sobre assuntos médicos ou defendendo a cultura e história de Portugal; escrever artigos para jornais e revistas, rádio e televisão, quer em português, quer em inglês. Mantém há três anos, como moderador e anfitrião, um programa de televisão intitulado "Os Portugueses", transmitido todas as semanas pela Estação Oficial do Estado de Rhode Island, canal 36, de Providence.

         Foi o fundador da Federação Luso-Americana e o iniciador da organização cultural "Os cavaleiros dos Corte Reais".

         Há mais de um quarto de século que o Dr. Luciano da Silva se tem dedicado a profundas pesquisas históricas relacionadas com o Padrão de Dighton. Em 1960 apresentou as suas investigações no Congresso Internacional dos Descobrimentos onde foram entusiasticamente recebidas pelos congressistas participantes.

         Em 1971 publicou nos Estados Unidos a sua obra "Portuguese Pilgrims and Dighton Rock". Este livro foi aclamado pela imprensa americana como contribuição importante para a História da América.

         Para culminar a sua brilhante actividade como homem de cultura humanística e de ciência, foi-lhe concedido no dia 10 de Junho de 1972, o título de Doutor em Humanidade, atribuído pelo Colégio Estadual Universitário de Rhode Island aos distintos serviços prestados no campo médico e pela maneira como tem sabido conduzir a comunidade portuguesa.

         Em 1973 foi nomeado pelo Instituto Internacional do Estado de Rhode Island como "Homem do Ano" por se ter distinguido em actividades sociais e literárias.

         Quando homens como o Dr. Luciano da Silva, mesmo longe da Mãe Pátria, se interessam por tornar conhecidos num grande país, como são os Estados Unidos da América do Norte, os assuntos respeitantes à História dos Descobrimentos Portugueses, nunca será demais reconhecer e registar com simpatia todo o esforço dispendido na elaboração de tais estudos no campo da investigação e ciência histórica.

         O trabalho que agora se publica, de GRANDE FOLGO E NOVIDADE HISTÓRICA, será mais um documento a testemunhar a incansável actividade e erudição deste médico, historiador, líder cívico e étnico, que não se cansa de prestigiar o povo lusíada em terras da América!  (Por: J. A. Pinto Ferreira — Director do Gabinete de História da Cidade do Porto)

         Já foi há três anos que saiu em Inglês a edição Americana deste livro. Publicou-se primeiro nos Estados Unidos porque a Pedra de Dighton é um monumento americano. A sua consagração histórica tem despertado lá mais interesse do que em Portugal, embora a veracidade das suas inscrições seja um capítulo da História de Portugal.

         Em Setembro de 1960, apresentei, no Primeiro Congresso Internacional dos Descobrimentos, uma dissertação sobre a Pedra de Dighton com diapositivos e um filme colorido que mereceram a «maior salva de palmas do Congresso» (Diário de Notícias, Set. 9, 1960). No entanto, o meu nome e o meu trabalho foram omitidos dos cinco volumes das Actas do mesmo Congresso! São passados 14 anos. É com bastante satisfação que venho agora trazer o trabalho completo ao povo português.

         Os historiadores portugueses têm estado «de pé atrás» com a Pedra de Dighton. Emitir opinião sobre as inscrições sem as examinar, «in loco» de dia, de noite, com luz razante, é querer fazer diagnóstico de apendicite pelo telefone.

          Este livro vai causar muita discussão? Óptimo. Oxalá se venha a publicar uma centena de livros a provar ou a refutar esta obra. Não quero que o meu livro fique na prateleira a ganhar poeira. Desejo, sim, incitar os investigadores portugueses novos, a fazerem como eu, a não ter medo dos veteranos.

         O historiador céptico exige sempre um documento contemporâneo. A Pedra de Dighton não é pergaminho, é pedra dura! Tem gravado o nome de Miguel-Corte Real, as Armas de Portugal, e a Cruz da Ordem de Cristo. Esta Cruz caracteriza-se por ter extremidades que terminam em ângulos de 45 graus. Existem no mundo mais de 300 tipos diferentes de cruzes, mas a cruz que está gravada na Pedra de Dighton é a Cruz da Ordem de Cristo com extremidades — não em 30 ou 60 graus — mas sim em 45 graus! Poderá haver documento contemporâneo dos Corte-Reais mais exacto que se possa medir ao número certo de 45 graus?

         Não sou historiador por profissão, sou médico. Apliquei os métodos científicos que aprendi na medicina às pesquisas e compilação desta obra. Pus «à prova de fogo» (com perguntas e respostas) o conteúdo deste livro, em 182 conferências, até esta data, apresentadas às audiências mais exigentes. Por isso, procuro usar linguagem simples e clara, servindo-me de desenhos e fotografias assim como do método de pergunta e resposta.

         A epopeia de conquistas e descobertas portuguesas teve início com a tomada de Ceuta em Agosto de 1415. São passados 559 anos. Anunciou-se este ano a independência das maiores parcelas ultramarinas portuguesas. Será que com o fim do império, Portugal irá doravante prestar mais atenção ao significado histórico do último padrão lusíada a ser reconhecido — o Padrão de Dighton?

         Não é preciso ser historiador para se compreender as inscrições originais da Pedra de Dighton. Este problema que tem sido considerado complexo durante séculos é agora bem simples. A edição americana tem convencido muita gente! Espero que a edição portuguesa obtenha o mesmo resultado. (de: Introdução do Autor)

Para voltar ao preçário

«AS CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO»

Pedagogos para quê?

Por: Joaquim García Carrasco

Prof. da Universidade de Salamanca

 

         Nos últimos tempos, tem-se verificado no nosso país um aceso debate, umas vezes utópico e inconsistente, outras realista e muito profundo, em torno do fenómeno educativo. Repensar esta questão, significa não só fazer o diagnóstico do estado real do sistema, mas também incrementar projectos de acção que introduzam as inovações necessárias e urgentes no sistema educativo.

         A definição das grandes metas educativas é assegurada pala própria evolução da nossa história, não sendo essa, neste momento, a preocupação dominante da Pedagogia. Sendo assim, a energia resultante deste processo dinamizador deve ser aproveitada no sentido duma demarcação epistemológica do campo pedagógico e duma acção desmistificadora e construtiva das suas potencialidades face à educação.

         O homem vai-se estruturando através duma interacção constante com o seu meio sociocultural, no qual participa e do qual faz parte. Este facto reclama, em princípio, progresso humano e introdução de métodos científicos nas intervenções educativas. A necessidade duma teoria da educação vinculada à praxis aflora, quando se toma consciência que o progresso educativo é um «problema científico-técnico».

         O Prof. García Carrasco deixa bem patente ao longo da sua obra que a educação é um mecanismo fundamental para a «mudança»; que o pedagogo é um elemento fulcral deste processo e, por isso, a sua profissionalização deve ter, necessariamente, uma vertente técnica; que o conceito de educação continua a ser uma proposta humanista.

         Contribuir para uma compreensão mais ampla do fenómeno educativo e das funções pedagógicas e participar na resolução da crise de identidade da Pedagogia contemporânea foram alguns dos objectivos que incentivaram o Prof. García Carrasco a divulgar as suas ideias. Foram estas também as causas do nosso empenho no projecto da edição em língua portuguesa.

         Esperamos pois que os nossos intentos sejam concretizados.  (de: Apresentação por: Maria Luísa Aires tradutora)

 

         As circunstâncias que me levaram a escrever este livro não se alteraram, embora à medida que aumenta o desenvolvimento económico, entre as inúmeras e crescentes necessidades se encontre em lugar privilegiado a necessidade pedagógica.

         Nos sistemas educativos proliferam as equipas de apoio às comunidades de professores; multiplicam-se os grupos de profissionais que se especializam com o objectivo de compensarem tecnicamente as desigualdades de origem entre os alunos; aumentam os grupos de professores que em equipa, nos seus lugares de trabalho, procedem à renovação da sua intervenção didáctica. Promovem-se ainda instituições para a formação de pais, para a animação cultural, para a reciclagem socioprofissional, para fomentar, em suma, a acção pedagógica socialmente produtiva.

         No meio de tanta actividade educativa, e deixando de lado o valor social que se lhe atribua — valor no sentido de fracção de poder e status socioeconómico —, é de suprema importância interrogar-se acerca das razões que dirigem a acção, das justificações dos projectos de intervenção que em cada caso se estipulam. Há que analisar os motivos e, essencialmente, os critérios e fundamentos a partir dos quais se organizam as sequências de acção particular.

         Neste campo de actividades como em muitos outros, só amar não basta, nem com boas intenções se satisfazem todas as garantias para assegurar o valor, a dignidade e a transcendência física e metafísica que se agregam ao processo educativo.

         Por outro lado, o fenómeno educacional tomado no seu todo penetra tão profundamente a trama social que quase se confunde com ela: ninguém pode pretender — sem precisar as suas intenções — profissionalizar a acção educativa. No debate sobre a educação têm voz e voto de pleno direito todo o homem e mulher que desejem, conscientemente, exercitar o seu direito à participação social. O problema educativo constitui o aspecto social mais próximo. Todo o homem ao reproduzir o sistema de comportamentos que o mantêm socialmente adaptado, e ao assimilar o sistema de símbolos que lhe permitem comunicar, aprende simultaneamente o sistema de regras e de sequências de acção, mediante as quais se conseguiram implantar eficazmente na sua personalidade tais recursos.

         Entre o conjunto de problemas e necessidades educativas, a história social duma colectividade isola espaços de acção formativa sobre os quais busca intervenções normativas reguladas pelo pensamento disponível e melhor estruturado.

         Respondendo a diferentes mecanismos sociais, surge, de imediato, a adjudicação ocupacional de tais responsabilidades. Neste momento, produz-se um confronto razoável entre comunidades e grupos. Nesta difícil negociação intervém mais o poder que as razões. Daí a legitimidade de associação que assiste àqueles que trabalham nas construções pedagógicas. Com isso, aumentarão o dinamismo racional do seu pensamento e poderão defender os direitos que assistem à sua participação na acção social. Surge, assim, a ambivalência inerente a toda a acção humana em comunidade: a inércia pendular entre a aspiração e o projecto, entre o interesse e o benefício gremial. Esta ambivalência adquire maior relevo no momento em que um novo grupo aspira à sua configuração como grémio. Este é o caso dos licenciados em Ciências da Educação.

         Apesar deste livro muito deles falar, não foi escrito exclusivamente para eles. Estes pensamentos em voz alta são conversas com o eco que nos chega de todos aqueles que ganham a vida na nossa sociedade, através das suas funções pedagógicas.    Com eles tento partilhar os meus pontos de vista acerca dos trajectos que tais funções devem seguir para enveredarem por caminhos da razão. Pressinto que este é um meio de aumentar o nível de eficácia dos nossos projectos e a satisfação para não perdermos a esperança de investigar como os cientistas, apesar das nossas ideias serem atamancadas nas instituições educativas.

         Atrás de qualquer arcada e no meio da obscuridade que sempre limita, há pessoas sem cuja colaboração nunca se colocariam as primeiras pedras. Este livro não apareceria em Portugal sem a iniciativa e persistência da Maria Luísa. A sua colaboração foi decisiva. Com ela envio também um agradecimento aos meus amigos de expressão portuguesa com quem trabalhei e dos quais recebi preciosas sugestões. (Salamanca, Agosto de 1986 — Joaquín García Carrasco)

 Para voltar ao preçário

 

«RANCHO DA PRAÇA RENDILHEIRAS DE VILA DO CONDE»

 

         Na última Assembleia Geral do Rancho da Praça — Rendilheiras de Vila do Conde, o assunto central que em muitas bocas fervilhou foi o da celebração festiva do 60º Aniversário do nosso Rancho.

         1920-1980! Esfuziantes de entusiasmo os Membros Directivos logo começaram o esboço do Programa das Comemorações: — ...e que delas faria parte a edição de um livro que testemunhasse todo o nosso historial de grandezas e abnegações...

         Entretanto foram escolhidos os nomes de Albino dos Santos Ferreira, Antero de Almeida Gomes e António Lopes Ferreira, que passaram a constituir a Comissão Executiva para a edição do livro que vem a lume hoje.

         Depressa ressaltou a ideia de que, efectivamente, a publicação deste livro teria de contemplar, tanto quanto possível, toda a história do Rancho da Praça, inserindo páginas de reportagem, de antologia dos seus aspectos documentais e artísticos, de material gráfico representativo, de colaboração escrita de componentes do Rancho quer antigos quer recentes. A projecção do Rancho da Praça durante seis dezenas de anos, que não ficasse desmerecida e que a sua «Chave d´Oiro», que é a consolidação da AMIZADE LUSO-GALAICA — Ferrol — Vila do Conde, não deixasse de ter o relevo a que impreterivelmente tem jus: uma consagração perpétua.

         A breve trecho, a Comissão do Livro teve a feliz ideia de solicitar para este trabalho a presença do vila-condense pelo coração J. Carvalho Branco, um devotado profissional do livro, que nos honrou figurar como Editor.

         E, delineados todos os planos, a Comissão executiva encetou os seus passos, rejubilando com a iniciativa que se lhe afigurou honrosa.

         Numa época em que um mundo entorpecido de desvarios, às vezes parece querer denegrir alguns valores espirituais e morais dum saudoso passado antigo; num momento também em que o nosso povo, por outro lado, não quer deixar de sentir bem fundo no seu peito o tradicionalismo das suas belezas etnográficas, rindo e cantando, emocionado pelos adoráveis costumes, tão portugueses e tão nossos, parece-nos salutar esta iniciativa do Rancho das Rendilheiras da Praça!

         E todos, de mãos dadas, numa sadia alegria comum, toda a «Gente da Praça» veste as melhores galas do seu coração sensível para festejar os seus 60 anos de idade como colectividade já veneranda mas sempre remoçada.

         E serão inumeráveis os motivos que a todos transportarão, num delíquio, numa retrospectiva que não se desvanece, às saudades que em cada peito acordam ou pelo orgulho que em cada coração despertam.

         Começamos por recordar aquela plêiade de compositores, musicógrafos, poetas, hábeis ensaiadores de coreografia, maestros e executantes, que desde sempre tanto luzimento deram ao nosso Rancho. Leva-nos seguidamente a retina para as dezenas de pares que formaram as «gerações» de componentes, raparigas e rapazes, durante 60 anos, e volvendo ao presente, chegamos a essa nota dominante de ternura que é o Rancho Infantil da Praça.

         De novo o passado nos acode, e é uma ronda de triunfos obtidos pelo Rancho da Praça em terras de Portugal, Espanha e França, e os trofeus por ele conquistados no país e no estrangeiro, em instantes sublimados de euforia, trofeus que são guardados ciosamente na sua Sede como relicários dum passado de grandeza, a rivalizar com um presente de cintilante maturidade.

         Como atestado de um desses êxitos honrosos, acode-nos à lembrança ler em certa manhã já muito distante, num prestigioso matutino, e logo na primeira página —, com parangonas a ilustrar uma gravura do nosso Rancho: «O Rancho da Praça Colecciona Triunfos em França»!

         Não queremos, entretanto, alongar mais as nossas pertinazes recordações mas tão-somente dizer com a alma aberta à mais elementar justiça: honra e gratidão sejam conferidas neste instante a todas as figuras pracistas que ao de leve aqui respigamos, assim como também a todos os devotados Membros Directivos destes 60 anos de actividade incessante.

         Todavia, e para terminar as abreviadas linhas deste último panegírico fugaz mas sincero, queremos sublinhar a «coroa de glória» do Rancho da Praça — Rendilheiras de Vila do Conde, a unificação imanada de dois povos, que sempre se identificaram apesar da mutação dos tempos: Portugal e a Espanha, que o mesmo é dizer FERROL—VILA DO CONDE.

         E na verdade, a luminosa «coroa de glória» do Rancho da Praça foi a aproximação Luso— Galaica, que durante largos anos cimentou um intercâmbio de Amizade consagrada em bronzes, consubstanciada pelos corações irmanados, que nem o tempo nem a distância jamais apagarão!

         Posto isto em considerações muito gerais, a Comissão Executiva vai começar a desfiar o rosário das suas congratulações.

         Aqui quer deixar consignado todo o cunho do seu reconhecimento aos ilustres autores dos depoimentos publicados neste livro, àqueles que escreveram verdadeiros capítulos de história pracista, reportagem, biografia, evocações saudosas tratadas com poética elevação, e, em suma, a todos os que fizeram tudo quanto ao seu alcance esteve.

         A esses autores, alguns portugueses e outros espanhóis ferrolanos, a nossa mais distinguida gratidão, e uma saudação festiva do Rancho da Praça — Rendilheiras de Vila do Conde.

         E, finalmente, vai a Comissão Executiva expressar toda a sua homenagem e gratidão aos nomes que constituem a «Comissão de Honra», porque sem as suas generosas ofertas pecuniárias, nunca seria alcançada a realização de tão vultoso empreendimento.

         Nunca será demasiado frisar a urbanidade e o generoso reconhecimento da causa que à sua presença levou a Comissão Executiva; é um ponto sensível que vivamente impressionou os seus membros.

         Por isso queremos testemunhar publicamente a gentilíssima hospitalidade da «Comissão de Honra», a começar pelas entidades oficiais, Câmara Municipal e Comissão Municipal de Turismo, continuando numa verdadeira plêiade de conceituados Industriais, Comerciantes e Individualidades, cujos nomes prestimosos jamais poderão ser esquecidos.

         Bem hajam, e no Rancho das Rendilheiras da Praça ficarão no coração de todos.  (de: «Apresentação» pela: Comissão Executiva)

 Para voltar ao preçário

 

«MILAGRES E CRENDICES POPULARES»

Por: Manuel Dias

 

         Manuel Dias é natural do Porto.

         Em 1953, começou a colaborar no vespertino «Diário do Norte», em cujo quadro redactorial depois ingressou. Transferiu-se de seguida para «O Comércio do Porto», de onde saiu em 1974 a fim de passar para o «Jornal de Notícias». Também é colaborador do «Diário Popular».

         Como jornalista, deslocou-se a vários países da Europa e da África, assim como ao Brasil.

 

         VISÕES, APARIÇÕES, REVELAÇÕES; eis o sub-título desta história de MiLAGRES E CRENDICES POPULARES que Manuel Dias nos relata com a força de uma reportagem directa ao longo da sua peregrinação por túmulos de corpos incorruptos e pelas moradas «abertas» de tantas «santinhas» «miraculadas» e arautos de milagres que acontecem no dia a dia por Portugal inteiro.

         CORPOS INCORRUPTOS, O SANTO DE BEIRE, A PRINCESINHA DA CALÇADA, SANTA MARIA ADELAIDE, CRISTINA DE BRAGANÇA, SANTA DE ANREADE, OS DOIS PASTORINHOS VIDENTES EM VILA COVA À COELHEIRA, GUILHERMINA—A LEITEIRA VIDENTE, SANTOS MÁRTIRES, ESTIGMATIZADA DE LAMEGO, ESTIGMATIZADA DE VILAR DO CHÃO, SANTA DA LADEIRA DO PINHEIRO, SANTINHA DO TROPEÇO, A CAMPA DO PRETO e aquela que cansada de ser «santa» fez a si própria um «milagre»: A SANTINHA DE RIO TINTO.

         Edição ilustrada com muitas fotografias, esta obra é, em si mesma, o testemunho verdadeiro de uma realidade dos nossos dias, do nosso tempo.

 

         País proclamado "essencialmente católico", Portugal tem sido cenário, ao longo de séculos, das mais primárias manifestações de religiosidade popular. Desde corpos incorruptos de pessoas que se diz terem morrido "em cheiro de santidade", a homens e mulheres, com algumas crianças à mistura, que apregoam visões celestiais e "revelam" dons sobrenaturais mercê das "aparições" que seus olhos (e os de mais ninguém...) contemplam, é um desfile imenso de "escolhidos" a que se assiste, de Norte a sul, com amplas faixas de um povo entregando-se por inteiro, ou ingenuamente confiando-se, aos exploradores da crendice.

         Ante os rumores de que em determinado lugar alguém viu uma "senhora muito linda", regra geral, "a sair de uma nuvem"; de que em certa localidade uma jovem, normalmente doente e presa ao leito, é acometida de êxtases e dialoga com Nossa Senhora; de que "naquele" cemitério foi posto a descoberto um cadáver em "perfeito estado de conservação", apesar de já estar enterrado há dezenas de anos — ante tais rumores acaba por consolidar-se a história imediatamente posta a correr pelos arautos dos milagres, de que o sobrenatural montou "ali" arraiais e está ao alcance de todos...  (de: Porta aberta à crendice)

 Para voltar ao preçário

 

«ALBERT VIGOLEIS THELEN NO SOLAR DE PASCOAES»

Por: Olívio Caeiro

 

         Romance? Biobibliografia? Antologia? Ensaio? Este livro pode ser todas estas coisas mas, acima de tudo é a apresentação aos portugueses de um grande romancista alemão distinguido com os Prémios Theodor Fontane e Gerard de Nerval, poeta lírico extraordinário, que viveu em Portugal cerca de oito anos e que os portugueses completamente ignoram.

         Nenhuma das suas obras foi traduzida para a nossa língua e no entanto, a ele se devem as traduções e a divulgação no estrangeiro das principais obras do grande escritor e poeta TEIXEIRA DE PASCOAES de quem ALBERT VIGOLEIS THELEN foi hóspede durante todo o tempo que viveu em Portugal.

         É dele que o Prof. Doutor Olívio Caeiro fala neste livro, agora apresentado aos leitores que nele podem ver um romance, a bibliografia e biografia antológica de Thelen, mas que é, sobre tudo, a evocação de um homem e de uma época de crise, que foram os anos 1939-1947, odisseia e microcosmo doméstico de dois grandes escritores e macrocosmo político e social de um tempo que não devemos esquecer.

 

         ALBERT VIGOLEIS THELEN, romancista alemão distinguido com o prémio Theodor Fontane e poeta lírico de rara sensibilidade, que os azares da existência levaram a viver quase oito anos em Portugal (de 1939 a 1947) e em cuja produção literária Portugal desempenha um papel de relevo — tem sido até hoje um desconhecido do leitor português.

         Nenhuma das suas obras foi traduzida para a nossa língua, não mereceu qualquer referência da crítica nacional, nem sequer o seu monumental romance Die Insel des zweiten Gesichts (A Ilha da Outra Face) foi objecto de magistério ou de estudos curriculares na âmbito das nossas Universidades. Dir-se-ia que apenas os raros sobreviventes do círculo que ao tempo da II Guerra Mundial frequentava um Solar do termo de Amarante, em torno da figura de Teixeira de Pascoaes, ainda hoje se recordam do nome do poeta germânico, da sua estatura avantajada e daquela observação sempre pronta, entre a bonomia e o humorismo, com que encarava os homens e as coisas. Ao tempo, é certo, apenas um refugiado de guerra como tantos outros, com vagas funções de escriba e tradutor junto do seu anfitrião português — e todavia, já por essa época ele vinha encetando uma acção de vulto na difusão universal da cultura portuguesa, e viria depois a afirmar-se como autor quando na década de 50 publicou aquilo a que um crítico abalizado classificou de «um livro do século». Obra autobiográfica que não incide propriamente sobre a fase da sua estadia entre nós, mas onde figuram, mesmo assim, múltiplas referências a Portugal, aos seus costumes e às suas gentes.

         Agora que já meio século vai decorrido sobre aquele exílio lusitano e o nome do escritor está finalmente conquistado junto da crítica o reconhecimento a que tem direito, pareceu-nos de justiça trazê-lo ao convívio dos nossos leitores, apresentando aquilo que da sua escrita mais directamente nos importa e em torno desses materiais tecer a reconstituição histórica e as considerações analíticas que nos sugerem.  (de: Apresentação)

 Para voltar ao preçário

 

«RAPAZ OU RAPARIGA: IGUAL EDUCAÇÃO?»

Por: Béatrice Dupont

 

         A presente publicação insere-se no quadro do plano de acção adoptado na Conferência Mundial do Ano Internacional da Mulher (México 1975), que atribuiu uma grande prioridade às actividades de investigação nacionais, regionais e internacionais, à compilação e análise de dados e aos estudos comparados sobre todos os aspectos da condição da mulher e da sua integração no esforço para o desenvolvimento. É essencial dispor de dados suficientes para formular políticas e avaliar os progressos realizados, assim como para modificar atitudes e introduzir mudanças sócio-económicas fundamentais. A Unesco tem encorajado e estimulado sempre as actividades de investigação encaminhadas no sentido de identificar as práticas discriminatórias em matéria de educação e de formação, e tem ajudado os Estados membros na realização de estudos nacionais com o fim de recolher dados sobre a situação real da mulher e de identificar, em especial, os factores que facilitam ou travam o acesso das mulheres a todos os níveis e tipos de educação.

         Em 1978 e 1979, na aplicação dos programas aprovados pela Conferência Geral nas suas reuniões 19ª e 20ª, empreenderam-se estudos sobre os programas escolares e normas de ensino e formação aplicáveis aos alunos de ambos os sexos nas escolas secundárias e normais. Estes estudos tinham como objectivo comparar os programas destinados aos alunos e alunas para descobrir as diferenças que pudessem apresentar. Tratava-se de fazer tomar consciência deste problema e de ajudar os países interessados a procurar meios para o resolver, e em especial a definir estratégias e políticas tendentes a uniformizar os programas e as normas do ensino e formação destinados aos dois sexos. Alguns países conseguiram já grandes progressos nesse caminho; as iniciativas tomadas para chegar a este resultado, os métodos e meios empregados constituem uma experiência rica que pode servir aos países que enfrentam uma situação análoga.

         A presente publicação foi redigida por uma consultora, Béatrice Dupont, encarregada de investigações sociológicas em diversos organismos nacionais e internacionais que se serviu de estudos preparados pelas Comissões Nacionais para a Unesco de sete países de regiões diferentes (Afeganistão, Jamaica, Jordânia, Madagáscar, Mongólia, Portugal e Turquia). A autora, além de fazer a análise dos programas explícitos dos estabelecimentos do segundo grau de ensino, mostra que a escola pode ser um factor poderoso na igualização de oportunidades para rapazes e raparigas, mas não obstante reflecte em certa medida as normas da sociedade que a rodeia, e contribui para perpetuar os papéis tradicionais.

         Se bem que a Unesco tenha considerado útil a publicação deste estudo, também é certo que as ideias que nele estão expressas, as designações usadas e a apresentação de dados que nele figuram não reflectem necessariamente a opinião da Organização e não implicam qualquer tomada de posição por parte do Secretariado, quanto ao estatuto jurídico dos países, territórios, cidades ou zonas ou das respectivas autoridades, nem quanto ao traçado das suas fronteiras ou limites.  (de: Prefácio)

Para voltar ao preçário

«CINFÃES»

A HISTÓRIA E A LENDA

PEDAÇOS DE PORTUGAL

Por: Doutor Agostinho Teixeira de Vasconcelos

 

         — Agostinho Teixeira de Vasconcelos, nasceu em Soalheira, Santiago de Piães, concelho de Cinfães, em 08/08/1928.

         — Cursou o seminário de Lamego, até ao 3º ano de Teologia;

         — Após os estudos teológicos, cursou o ensino leceal, no Porto desde o 3º ao 7º ano, no liceu Alexandre Herculano;

         — A seguir foi para a Universidade Pontifícia de Salamanca — Espanha, onde se formou em Filosofia e Letras;

         — Licenciou-se depois em Filosofia na U.C.P. — Universidade Católica Portuguesa;

         — Leccionou durante 30 anos, Filosofia e Psicologia no Liceu Raul Proença, em Caldas da Rainha, Liceu Manuel Laranjeira, em Espinho, nos Liceus Garcia da Horta e Carolina Micahelis, no Porto, na Escola Secundária de Ermesinde, em Ermesinde, entre outros.

         — Foi colaborador dos jornais "O Debate" jornal monárquico, agora não publicado, jornal "Miradouro", de Cinfães, no jornal "A Voz de Lamego", de Lamego, onde escreveu artigos de opinião, de crítica social e sócio-psicológicos;

         — Actualmente aposentado, dedica-se à escrita.

«»

    P

ara justificar a introdução ao Romantismo, na Literatura Portuguesa, Almeida Garret advertiu-nos que escrevia seguindo o coração...

É certamente muito difícil escrever alguma coisa sem pormos nisso a chancela do nosso coração, dos nossos sentimentos.

Isso, na verdade, dá valor à obra e nós não queremos fazer excepção a respeito do que aqui escrevemos. Devemos no entanto notar que a objectividade não pode faltar especialmente quando se escreve sobre a importância histórica de um povo, quando se escreve a terra e o homem. Aí o sentimento cede lugar à objectividade.

Em "Cinfães, a História e a Lenda", é nossa intenção dar prioridade à objectividade.

Começamos por dizer que fomos estimulados a escrever este livro pela leitura de um "trabalho" da autoria de uma aluna da Escola Superior de Jornalismo, estagiária, publicado no "O Primeiro de Janeiro" onde ela prestou culto ao Povo, à paisagem e onde realçou com ênfase a cultura do Povo de Cinfães.

Mas este livro resultou de conhecimentos adquiridos e de uma experiência vivida no terreno, nos verdes anos da juventude, quando, estudante e em contacto com esse povo rico em vivências onde e com quem passámos muitos dias em tempo de férias, nascendo assim um amor acrisolado à terra que nos deu berço.

A ti, leitor, quero dever toda a alegria de poder comunicar contigo, de levar a ti algo desconhecido, cuja leitura poderá contribuir para um mais completo conhecimento da história desta terra, cheia de história que às vezes é também lenda e todavia sempre cultura. Porto, Fevereiro de 2001(de: Nota do Autor)

«»

    R

esolvemos escrever este livro sobre Cinfães por acharmos que havia ainda uma lacuna a preencher em tudo o que se possa dizer sobre esta terra de encantos.

         Na verdade por mais que digamos  sobre Cinfães fica sempre muito para dizer. Os seus pergaminhos são tantos e tão valiosos que há aspectos que não foram nunca focados e que seria desonroso para todos nós deixá-los cair no Olvido. Tudo que agora dissermos vai já com muitos séculos de atraso. Três aspectos desejamos vincar: Uma beleza natural rara; uma história que merece ser contada; e um povo de características "sui generis"!

         Efectivamente que nunca se focou um aspecto que julgamos ser tão urgente como necessário que é o estreitamento entre a história de Cinfães e a história da Pátria.

Por isso intitulamos este trabalho "A História e a Lenda" porque julgamos que poucas terras estão tão intimamente relacionadas com a história de Portugal. Daí focarmos aspectos que pensamos serem novidade para os leitores de "A História e a Lenda". Destes queremos fazer notar uma característica da gente de Cinfães que é aliás característica fundante de um povo — o povo português. Por isso não deixamos de realçar aquilo que nos é muito caro e que merece todo o apreço que é a individualidade deste povo, o seu desejo de autenticidade e independência, poder de se valer a si mesmo, características insólitas e que florescem desde muito cedo na defesa do seu cantinho para cá do Montemuro, na auto-suficiência com o aproveitamento de recursos naturais e que se evidencia no próprio vestir e mesmo na alimentação, numa convivência salutar terra-homem.

         Por outro lado há um entrelaçamento "sui generis" de nós com a história, que é único, que é um pergaminho que nos honra.

         Cinfães foi alfobre de homens insignes que transplantados para o centro da história lançaram raízes fundas e formaram a árvore da história e até da história universal. Lembrá-los é pouco porque ficamos sempre a dever...

         Terminamos com um desejo que este livro seja um hino à terra que tem uma beleza impar onde um azul do céu se casa com um verde forte, de rios e vegetação juntando-se à grandeza de um rio que corre triunfante sobre uma areia que é ouro reflectindo em espelho estes favores da Natureza. (de: Prólogo)

«»

    C

onta a lenda que os nossos rios se encontraram, certo dia, e resolveram fazer uma visita ao velho avô, o Mar, de quem nem sequer conheciam as barbas brancas feitas espuma com que acaricia as praias do velho continente. Será o avô assim vivo, terno e atraente, como o descrevem os poetas, os pintores, os artistas?

         Marcada a hora, os outros rios cedo se puseram a caminho, pela lezíria uns, por entre vales outros, espraiando-se e regando os campos, em espelho de água, outros ainda. Todos deixando para trás paisagens de sonho!

         Mas, o Douro adormeceu, diz a lenda, e ao acordar revolta-se consigo mesmo, engrossa em fúria, abre a terra, corta e caminha para chegar primeiro... Que furor meu Deus!

         Corta a montanha, fura a serra, arromba as margens, escava, esventra, deixando para trás encostas escarpadas, desfiladeiros, um quadro horrível que, de horrível, tornou-se belo. A sua força só é digna do Gigante Atlas que, segundo o Mito, teria afastado com hercúleo poder o continente africano da Velha Europa!

         E lá vai em curva e contra-curva como que envergonhado, sume-se por baixo da terra e é um fio de água descendo das serras, desliza pelas encostas, enquanto, lá de cima, as terras altas o vêem como fugitivo que a água lhes roubou, único bálsamo que tinham nas tardes escaldantes do Verão... Agora essas terras são solidão, aridez e uma terra desértica.

Mas o rio, indiferente sempre, sulca ainda mais as encostas e, de tanto escavar, faz que toda a água se junte a ele, engrossando o seu caudal com afluentes diversos, tantos quantos os mandamentos de Moisés que a escola nos ensinou: cinco na margem direita e cinco na margem esquerda.

Tanto se cansou e tanto avolumou o seu caudal que agora já é um lago, enche as margens e faz até ondas, torna-se azul olhando o céu, abraça a terra formando pequenas praias, enseadas, portos e até minúsculas ilhas. É um grande lago. E que encantador este lago que se estende de Mosteirô até Entre-Os-Rios.

É um grande lago!... É... a maravilha da nossa terra!

Agora, já esquecido do mar, junta-se aos pequenos rios. Recebe o Cabrum, corre ao encontro do Bestança, e mais adiante as águas cantantes do Paiva e forma com eles um quadro belo, onde a terra, os rios e o Sol que se espelha em ouro nas areias de ouro, motivo porque chamamos ao rio, o Rio Douro.

E é neste quadro belo que se desenha aquela terra, que é minha, que é tua, que é nossa, que é um "pedaço de Portugal" Cinfães, pequeno paraíso, qual oásis nesta grande estrada que a Natureza criou para quase atravessar uma Península desde a Serra de Urbion até ao Atlântico.

O grande historiador, considerado o pai da História, Heródoto, disse que o Egipto era um dom do Nilo.

De Cinfães diremos nós, que é um dom deste rio — O Rio Douro.

As terras de Cinfães aparecem-nos como um canteiro natural, porque naturalmente enquadradas entre quatro rios: o Cabrum, o Bestança, o Paiva e o Douro.

É uma Quinta entre muralhas de duas serras que lhe dão segurança e lhe propiciam um clima característico. Refiro-me à serra do Montemuro e à serra do Marão. Os rios dão-lhe a frescura, os campos verdes, a flora abundante; as serras dão-lhe um espaço de pastoreio, rico em pastagens verdejantes, devido à chuva abundante e à neve do Montemuro.

Destes factores surgiu um clima especial ameno, sem os rigores do inverno de outras terras, sem o calor escaldante do Alto Douro.

A verdura, as flores, as árvores de fruto são, deste modo, património desta terra da Beira Douro.

É jardim com flores, é pomar onde há frutos, é veiga de campos verdes, de papoilas floridas, é terra serrana, á planície ribeirinha. Que lhe falta para ser "jardim plantado à beira Douro?

Foi certamente isto que Bertino Daciano, da Academia das Ciências, constatou para dizer:

"Quem for de Mosteirô para Cinfães, não dirá sem cometer flagrante injustiça, que não deseja ali voltar" (Daciano, Bertino. "Nótulas e etnografia de Cinfães" pág. 46). (de: Capítulo 1)

«»

         ...,... Parece que não há fruto algum, continental, que não encontre aqui terra acolhedora.

         Mas se a laranja e o vinho são importantes para a economia do povo que aqui habita, a cereja tem também um lugar preponderante.

         É famosa a cereja de Cinfães, que, conjuntamente com a cereja de Resende são além de um fruto cotado no mercado, também um valor como cartaz turístico. ...,... (de: Capítulo 2)

«»

         ...,... "Avé Maria" reza-se em todas as festas e romarias; "Cheia de graça" ora a freguesia de Cinfães; "Bendito é o fruto do vosso ventre" cicia.

         Junto ao altar, a parturiente para que Ela abençoe o fruto que também do seu ventre vai nascer...

         "Rogai por nós agora", dizemos todos nós, durante toda a vida, querendo sempre a sua protecção; mas também "na hora da nossa morte", diz com muita sinceridade o velhinho, o moribundo na sua agonia! E Ela, a mãe, a Senhora de todos nós, vai ouvindo lá no Céu, a nossa prece e pede protecção para esta terra, desde o Montemuro ao Douro e desde o Cabrum até às margens do Paiva! ...,... (de: Capítulo 6)

ÍNDICE

Nota do Autor

Dedicatória

Prólogo

Pensar Cinfães

 

CAPÍTULO 1

A lenda, a origem e a geografia

A Terra e as Gentes

O Rio Bestança

O Rio Paiva

O Rio Cabrum

                      Cinfães — riqueza do subsolo — A antiguidade e primeiros habitantes

A Civilização Castreja

 

CAPÍTULO 2

O Clima a Terra e os Frutos

 

CAPÍTULO 3

Homens que foram grandes, e que engrandeceram esta terra de Cinfães

Sanfins

 

CAPÍTULO 4

Cinfães Cultural

Outros Valores, Valores Literários

E a cultura artesanal?

 

CAPÍTULO 5

A Gastronomia — Arte de saber alimentar-se

 

CAPÍTULO 6

Um Homem Religioso, Cristão e Devoto

Não Passarão

Eles não passaram

Cinfães é terra de Maria

 

CAPÍTULO 7

A Economia, Indústria, Comércio e Agricultura

A Indústria

O Comércio

As feiras de Cinfães

A base económica, a agricultura

 

CAPÍTULO 8

Outra Economia — O Turismo

A recuperação

Os homens de ontem

A Natureza e o Homem — Há que pensar Cinfães

 

Epílogo

Adenda

Bibliografia

FICHA TÉCNICA

AUTOR: Dr. Agostinho Teixeira de Vasconcelos

 

EDITOR: J. Carvalho Branco

 

CAPA: Quadro de Jorge Colaço, da Estação de S. Bento — Porto, representando Egas Moniz entregando-se ao Rei Leão, para resgate da "Palavra não cumprida", canto III, Est. 38, verso 8 (em fundo azul).

 

ISBN: 972-557-173-8

 

Formato: 24x17

 

Nº de Páginas 112

Para voltar ao preçário

Regresso à página inicial

Hosted by www.Geocities.ws

1