AS MÃOS E AS LUVAS

 

 

 

            Antes de mais, devo dizer que não sou pintor, que não sei pintar. Aliás, numa época em que já não cabe à pintura fazer retratos parecidos — essa tarefa compete à fotografia —, quando muito podia dizer que utilizei aqui a máquina fotográfica, uma vez que o meu propósito consiste em obter um retrato de mulher, anatomicamente, em corpo inteiro, tanto quanto possível, parecido com a realidade.

            Não o fiz, porém.

            Prevenindo, pois, os meus leitores de que não sou pintor nem fotógrafo, e de que, nem mesmo de escalpelo em punho, seria capaz de dissecar, na sua verdade integral, o corpo inteiro que tenho presente, como que reconheço que o modelo em causa escapa à própria dissecação anatómica. Há que penetrar nele mais fundo para surpreendê-lo no seu real contexto orgânico.

            Eis-me, portanto, em condições de lhes dizer que a mulher em corpo inteiro que ousei retratar, para bem a conhecermos, depois de dissecada no teatro anatómico, temos de a trazer para fora dele, para o teatro da vida, palco onde ela representa a preceito o seu papel humano. Foi o que eu fiz ou tentei fazer. Aqui começa o retrato de certa mulher — não, claro, a que leva o nome na história — e de certo homem — não, evidentemente, o que na mesma história figura com o nome com que o baptizamos. Em boa verdade, nenhuma das personagens desta história corresponde a um modelo real. Como se diz nos filmes, qualquer coincidência, se coincidência houver, entre elas e qualquer figura real, não passa de mera... coincidência. (de: Explicação Quase Anatómica, À Maneira de Prefácio)

            Compõe-se o corpo humano, segundo a fisiologia, de três partes distintas: cabeça, tronco e membros. Ora, num retrato que se quer de corpo inteiro, não podem deixar de figurar as três partes integrantes desse mesmo corpo. Eis porque vou principiar o retrato que me propus fazer pela sua parte geralmente tida como a mais importante, quer no corpo da mulher quer no corpo do homem: a cabeça.

            Desde já devo prevenir, porém, o leitor que a cabeça da minha história não é propriamente a cabeça da mulher nela retratada. Esta, no conjunto do seu corpo, representa menos do que a cabeça da própria história em que ela figura como protagonista, conquanto nela a cabeça desempenhe papel importante, ainda mesmo quando parece que nela não é a cabeça que está em jogo, senão só o órgão do corpo — do tronco, diria melhor — onde tradicionalmente se dizem implantados os sentimentos. Neste ser complicado — e sobretudo dissimulado — que é o ser feminino cujo retrato me proponho fazer, a cabeça mistura-se com o tronco, e tanto a cabeça como o tronco são muito pouco, ou mesmo nada, ao lado dos membros. Nestes se situa o centro irradiador dos principais reflexos do «corpo inteiro» que é a heroína desta história, não obstante os equívocos a que se sujeita aquele que porventura dê de barato as demais partes do corpo da mesma heroína, caso tome à letra aquilo que ela proclama irradiar de outros centros orgânicos do seu corpo. Digamos que a cabeça nesta anatomia é mais simbólica do que outra coisa: é, por assim dizer, a cabeça não de um corpo humano, mas de uma história humana. Pela cabeça principia tudo, pois como diz o povo, «aonde não há cabeça, tudo são pés...» E na história que me proponho contar-lhes, história possivelmente verdadeira, com personagens possivelmente verdadeiras, quem parece ter mais pés que cabeça é a heroína, não o herói. Este, contudo, só dará por isso quando a história da sua vida alcança a parte aparentemente menos importante do corpo da mesma heroína, isto é, precisamente, os pés. Nessa altura, porém, já não pode voltar atrás: a cabeça já lhe não pertence. Outra esperança lhe não resta, nessa emergência, senão a de extirpar de si o corpo — cabeça, tronco e membros — que, em boa verdade, intacto nela, pois continua a jogar os dados da vida com a mesma cabeça, o mesmo tronco e os mesmos membros, intacto nela, heroína, não o está intacto nele, herói desta história, destroçado, em boa verdade, na cabeça, no tronco e nos membros.

            História algo anatómica, repito, contada por um homem que não é anatomista, mas advogado, antes de mais nada amigo da vítima, história em que esse homem exercita os fracos conhecimentos anatómicos recolhidos enquanto estudante de Medicina Legal, esta história anatómica, simbolicamente dividida nas três partes integrantes do corpo humano, pode entender-se como a história de um ser, muito mais corpo que espírito, embora nele corpo e espírito dependam em larga medida, de um órgão integrante da segunda parte constitutiva do mesmo corpo, isto é, do sexo.

            Em anatomia não há sínteses. A síntese deste corpo só pode fazer-se no espírito de cada um dos leitores, uma vez aberto, e bem aberto, a escalpelo, o corpo da mulher aqui anatomicamente dissecado, peça por peça, órgão por órgão, fibra por fibra, na mesa desta espécie de teatro anatómico que é a história que lhes vou contar. (de: Capítulo I)

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